A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Lupa na Ciência: Cientistas começam a entender por que homens morrem mais de Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
18.maio.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Dados coletados em diferentes países apontam que a taxa de letalidade do novo coronavírus é mais alta em homens do que em mulheres
  • A mesma tendência já havia sido observada em outras epidemias de coronavírus, como a de SARS e MERS
  • Uma pesquisa publicada recentemente mostrou que homens têm maior concentração no plasma sanguíneo de uma enzima utilizada pelo vírus para entrar nas células do corpo, indicando que esta pode ser uma das explicações para o fenômeno
  • Apesar das novas descobertas, especialistas seguem ressaltando que os principais fatores de risco para a Covid-19 são a idade e comorbidades como hipertensão, diabetes e asma

Embora não faça distinções de raça, religião ou classe social, o SARS-Cov-2, vírus que causa a Covid-19, é mais letal para indivíduos do sexo masculino. Estudos recentes apontam que a probabilidade de ser infectado pelo novo coronavírus não muda de acordo com o sexo biológico, mas a taxa de letalidade é significativamente mais alta entre os homens.  Essa tendência é consistente com outras epidemias de coronavírus, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), surgida em 2002, e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), identificada em 2012. Os motivos porém, só começaram a ser elucidados na última semana: pesquisadores descobriram a concentração da ACE2, enzima usada pelo SARS-Cov-2 para invadir as células, no sangue é maior entre os homens.

A tendência de o sexo masculino ser mais propenso a desenvolver quadros mais graves da doença foi observada inicialmente na China. Um relatório avaliou os mais de 40 mil casos confirmados no país até meados de fevereiro encontrou uma taxa de letalidade de 2,8% nos homens, em comparação com 1,7% nas mulheres. Desde então, padrões semelhantes foram observados em países como França, Alemanha, Itália e Coréia do Sul, de acordo com um relatório publicado no final de março na revista científica British Medical Journal (BMJ). A partir dessas observações, pesquisadores chineses realizaram um estudo para avaliar, com metodologias científicas, se a tendência se confirmava. Publicada no final de abril no periódico Frontiers in Public Health, a pesquisa apontou que idade e comorbidades (asma, diabetes, hipertensão, entre outros) são os principais fatores que levam ao agravamento da doença, como já se esperava, mas indicou também que o risco de morte por Covid-19 é 2,4 maior entre homens. 

A descoberta não chegou a surpreender especialistas. Durante a epidemia de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), um estudo publicado no American Journal of Epidemiology mostrou que, em Hong Kong, a incidência de casos graves da doença era maior entre indivíduos do sexo masculino. O mesmo foi verificado durante a epidemia de Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), em artigo científico publicado pelo periódico Emerging Microbes and Infections com base em casos na Coreia do Sul e na Arábia Saudita. Essas duas doenças também são causadas por coronavírus – o SARS-Cov-1 e o MERS-Cov, respectivamente. A recente pesquisa chinesa confirmou esse padrão para o SARS-Cov-2. Porém, de acordo com os autores do estudo, essa constatação leva a uma pergunta: o que leva homens a desenvolverem quadros mais graves da doença e morrer mais pela Covid-19? As primeiras respostas começaram a aparecer há poucos dias.  

Em um estudo conduzido por especialistas da Sociedade Europeia de Cardiologia e publicado no European Heart Journal no dia 11 de maio, pesquisadores identificaram, após analisar dados de milhares de voluntários com problemas cardíacos, que homens têm uma concentração maior da enzima ACE2 do que as mulheres no plasma sanguíneo. É nesta enzima, encontrada também no tecido pulmonar, rins, testículos e coração, que o coronavírus se liga ao entrar no corpo humano para poder penetrar nas células do hospedeiro, e assim começar a se reproduzir. Pessoas que têm uma maior concentração dela seriam mais propensas a desenvolver quadros mais graves da doença, já que esta condição facilitaria o vírus a se multiplicar mais rápido e em maior quantidade, dificultando o trabalho do sistema imunológico para combatê-lo. 

Uma curiosidade sobre esta pesquisa é que os autores buscavam, inicialmente, responder outra pergunta. Eles queriam verificar se pacientes com insuficiência cardíaca que tomavam determinados tipos de medicamentos (os inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona (RAAS), como Captopril e Benazepril) estariam mais suscetíveis a desenvolver quadros graves da Covid-19 (já que essas drogas poderiam resultar em maiores concentrações da ACE2). O objetivo era avaliar se seria indicado suspender o uso dessas substâncias durante a pandemia. Contudo, além de concluir que esse remédios não interferem na produção de ACE2 e são seguros durante a pandemia, o estudo revelou essa disparidade entre os sexos.

De acordo com um dos autores do estudo, os resultados apontam um caminho que pode explicar esse aumento na taxa de letalidade nos homens. Contudo, são necessários mais estudos para verificar a concentração da ACE2 nos tecidos que revestem outros órgãos, além do plasma sanguíneo. Conhecer sua concentração nos tecidos pulmonares, por exemplo, seria importante para avaliar o potencial de infecção viral nesta região. Além disso, uma especulação que ainda não foi respondida é se a regulação da enzima nos testículos poderia ser um dos fatores que leva homens a produzirem essa substância em maiores quantidades e serem mais vulneráveis à Covid-19. 

Enquanto essas respostas não chegam, especialistas seguem ressaltando que os principais fatores de risco para a doença são a idade e comorbidades como hipertensão, obesidade e diabetes. Porém, é preciso ter um olhar mais atento também a essa condição nos homens. Entender o papel do sexo na atual pandemia é fundamental para avaliar e estimar o comportamento da doença em diferentes regiões, adotar medidas de saúde pública que sejam eficazes no combate ao novo coronavírus e avaliar o risco potencial em diferentes grupos. 

Fontes: 

British Medical Journal (BMJ)
https://blogs.bmj.com/bmjgh/2020/03/24/sex-gender-and-covid-19-disaggregated-data-and-health-disparities/

Frontiers in Public Health
https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpubh.2020.00152/full

European Heart Journal
https://academic.oup.com/eurheartj/advance-article/doi/10.1093/eurheartj/ehaa373/5834647

Journal Emerging Microbes & Infections
https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1038/emi.2017.40

American Journal of Epidemiology
https://academic.oup.com/aje/article/159/3/229/79939

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés, Natália Leal e Maurício Moraes

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo