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Lupa na Ciência: Estudos mostram que obesidade é fator de risco para a Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
20.maio.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Estudos feitos por pesquisadores na França e nos Estados Unidos mostram que pessoas obesas têm mais propensão a desenvolver quadros mais graves de Covid-19, independentemente de comorbidades associadas ao excesso de peso
  • Cientistas ainda não sabem exatamente por que o excesso de peso, sozinho, pode agravar os quadros da doença, mas já levantam algumas hipóteses
  • A partir das descobertas recentes, diversos países já estão incluindo a obesidade como um fator de risco para a Covid-19

Desde o início da pandemia de Covid-19, muito se ouve falar sobre fatores de risco. Idade avançada, pressão alta, diabetes e outras doenças crônicas são os mais comuns. Um componente que entrou tardiamente nessa lista, entretanto, vem chamando cada vez mais a atenção: o excesso de peso. Especialistas passaram a suspeitar que essa condição poderia explicar por que em países como Estados Unidos, onde a obesidade afeta em torno de 40% da população, há mais jovens internados pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) do que em países como a China, cuja taxa de obesidade é de 6%.  Ao se debruçar sobre essa relação, estudos recentes indicaram que pessoas com excesso de peso, inclusive aquelas sem doenças pré-existentes associadas a essa condição, têm mais chances de desenvolver quadros graves da Covid-19.

As novas descobertas têm provocado alterações nas diretrizes do combate à pandemia em diversos países e serviram de alerta também para o Brasil, onde o incremento do peso médio da população deu um salto significativo nas últimas décadas. A parcela de pessoas com obesidade no país saltou de 11,8%, em 2006, para 20,3%, em 2019, de acordo com levantamento do Ministério da Saúde

Alta proporção de obesos

Um dos primeiros estudos a apontar a relação entre o peso e o agravamento da Covid-19 foi realizado na França e publicado no início de abril na revista Obesity Research Journal. De acordo com os pesquisadores do Instituto Lille Pasteur, que observaram as condições de 124 pacientes internados em uma unidade de terapia intensiva (UTI), quase metade tinha um Índice de Massa Corporal (lMC) indicativo de obesidade. A gravidade da doença se acentuava conforme o aumento desse índice. 

O IMC é um cálculo simples que indica a faixa de peso de uma pessoa. Ainda que não seja o ideal para definir, sozinho, as condições físicas e de saúde de alguém – já que as porcentagens de músculo, gordura, entre outros também são fundamentais nesta avaliação –, é um importante parâmetro para comparar grupos populacionais. O índice refere-se ao peso de uma pessoa em quilogramas dividido pelo quadrado da sua altura em metros (kg/m²). Adultos com IMC igual ou superior a 25, mas inferior a 30, são considerados com excesso de peso. Já aqueles com IMC de 30 ou mais entram na faixa de obesidade, sendo a obesidade severa acima de 35 e a obesidade mórbida acima de 40. 

Poucas semanas depois da publicação francesa, um estudo divulgado no Journal of the American Medical Association (JAMA) que avaliou quase 6 mil pacientes com a Covid-19 nos Estados Unidos indicou que a obesidade era a segunda condição pré-existente mais comum entre os infectados (atingindo 42%), ficando apenas atrás da hipertensão (encontrada em 53% dos pacientes).

Impacto em pessoas mais jovens

Os estudos anteriores, entretanto, não esclareciam se a obesidade estava associada a uma maior gravidade da Covid-19 por causa das comorbidades associadas a ela (que vão se desenvolvendo em maior grau conforme a idade do paciente), ou se poderia ser um fator de risco independente. Isso começou a ficar mais claro a partir de um estudo feito nos Estados Unidos com mais de 3.600 voluntários que testaram positivo para o novo coronavírus e foram internados em hospitais de Nova York. Publicado em abril no periódico Clinical Infectious Diseases, constatou que pacientes obesos abaixo dos 60 anos apresentavam até duas vezes mais probabilidade de desenvolver quadros graves da doença do que aqueles com IMC abaixo de 30. Essa probabilidade aumentou para 3,6 vezes nos pacientes com IMC igual ou superior a 35 – ou seja, com obesidade severa e mórbida.

Outro estudo, publicado na revista The Lancet avaliou dados de 265 infectados pelo SARS-CoV-2 e internados em UTIs de hospitais de Nova York, Washington, Flórida e Pensilvânia. Aplicando uma metodologia específica, concluíram que, quanto mais jovem o paciente, maior chance de ele ser obeso. De acordo com os autores do estudo, estas descobertas são importantes porque indicam que esta condição pode, sozinha, ser um fator de risco para o novo coronavírus. Isso significa que, em populações com uma alta prevalência de obesos, a Covid-19 irá afetar os jovens de forma mais severa do que se imaginava. 

Motivos ainda são especulados

Somam-se a essas pesquisas outros diversos estudos que já estão disponíveis online, porém ainda não revisados, cujos resultados foram semelhantes. Os estudos convergem para a ideia de que a seriedade da infecção aumenta à medida que o IMC cresce. No entanto, os motivos por trás dessa relação ainda são especulativos. Os autores das pesquisas americanas indicam três possíveis explicações. A primeira diz respeito ao maior risco de obesos desenvolverem disfunções respiratórias. O excesso de peso ao redor do abdômen pode comprimir o tórax, dificultando a movimentação do diafragma, a expansão dos pulmões e a entrada de ar. Isso pode contribuir para níveis mais baixos de oxigênio no sangue, o que pode exacerbar os sintomas respiratórios da Covid-19.

Outra explicação é que o excesso de peso causa um processo inflamatório crônico, que pode prejudicar a resposta imune do corpo. Essa condição afetaria diretamente a defesa do organismo ao novo coronavírus, dificultando o combate ao patógeno. 

Uma terceira possibilidade levantada pelos especialistas é o fato de que nas células adiposas são encontradas elevadas taxas da enzima ACE2, usada pelo novo coronavírus para entrar nas células e se reproduzir. Quanto maior a quantidade da ACE2, mais rapidamente o vírus consegue se multiplicar e mais difícil fica de o corpo eliminá-lo. 

Mudanças de diretrizes

Enquanto a ciência busca respostas mais precisas sobre a relação entre obesidade e o risco de desenvolver quadros graves da Covid-19, órgãos de saúde de diversos países já têm incorporado o excesso de peso na lista dos grupos que devem redobrar os cuidados. Desde o dia 16 de março, o Reino Unido atualizou as orientações gerais sobre a pandemia e incluiu pessoas com Índice de Massa Corporal (IMC) de 40 ou mais na lista de risco. Nos Estados Unidos, o Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) divulgou dados apontando que o excesso de peso é a condição mais comum entre pacientes entre 18 e 65 anos hospitalizados com Covid-19 e, por isso, passou a considerar obesidade severa como fator de risco. No site da Organização Mundial da Saúde (OMS), entretanto, o documento disponível (atualizado em 11 de março) não aponta a obesidade em si como fator de risco, apenas as condições relacionadas a ela. Aqui no Brasil, obesos já são considerados um grupo de risco, de acordo com os mais recentes relatórios do Ministério da Saúde.

Principal autor do estudo publicado na revista Lancet, o médico David Kass, pesquisador da Universidade Johns Hopkins, destacou que a inclusão desse grupo é importante pois pode ajudar a estabelecer estratégias mais precisas de mitigação dos riscos, indicando, por exemplo, protocolos diferenciados de tratamento, além dos cuidados extras que determinados grupos populacionais devem ter (como o reforço do isolamento e da higiene pessoal) para se proteger durante a pandemia. 

Fontes:

Ministério da Saúde. Documento disponível em: https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/46792-diabetes-hipertensao-e-obesidade-avancam-entre-os-brasileiros-2

The Lancet. Artigo disponível em:
https://www.thelancet.com/pdfs/journals/lancet/PIIS0140-6736(20)31024-2.pdf

Obesity A Research Journal. Artigo disponível em:
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/oby.22831

Clinical Infectious Disease. Artigo disponível em:
https://academic.oup.com/cid/advance-article/doi/10.1093/cid/ciaa415/5818333

Journal of the American Medical Association (JAMA). Artigo disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2765184

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

 

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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