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STF, imprensa, Covid-19: erros de Bolsonaro após vídeo de reunião ser divulgado

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
22.maio.2020 | 22h36 |

Após a divulgação do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, o presidente Jair Bolsonaro concedeu uma entrevista à rádio Jovem Pan. Durante a conversa com jornalistas, Bolsonaro comentou o conteúdo da gravação, liberada nesta sexta-feira (22) pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello. O presidente também mencionou dados sobre a pandemia da Covid-19. A Lupa selecionou algumas frases para verificar. O Palácio do Planalto foi procurado para comentar as checagens, mas não respondeu. Veja o resultado: 

“Cadê a parte que eu falo de superintendente de PF [Polícia Federal] ou diretor-geral da Polícia Federal que deve ser substituído? Não existe”
Presidente Jair Bolsonaro, em entrevista à Rádio Jovem Pan em 22 de maio de 2020

EXAGERADO

Embora não tenha citado diretamente o superintendente no Rio ou o diretor-geral da PF, o presidente Jair Bolsonaro diz que vai colocar “gente nossa” na sua segurança no Rio de Janeiro e que, se não for permitido, vai trocar o “chefe dele”. No vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, o presidente Jair Bolsonaro, aparece dizendo o seguinte: “Mas é a putaria o tempo todo pra me atingir, mexendo com a minha família. Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui! E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meus, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro!”

Não fica claro o que o presidente quer dizer com “segurança nossa”, uma vez que a segurança dele e de sua família é responsabilidade do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), chefiado pelo general Augusto Heleno. Porém, reportagem da Globo publicada em 15 de maio mostra que, 28 dias antes da reunião ministerial, Bolsonaro promoveu o responsável por sua segurança no Rio de Janeiro. Segundo a apuração do Jornal Nacional, o ato colocaria em xeque a defesa do presidente de que se referia a este setor, e não à PF. Além disso, o GSI não tem competência institucional para cuidar da segurança de amigos do presidente, como ele menciona no trecho citado que seria uma de suas preocupações.

Em outro trecho do vídeo, o presidente reclama que “não pode ser surpreendido por notícias” e que tem uma “PF que não passa informações”. Em mais de um momento, Bolsonaro afirma que irá interferir, sem especificar em quê. Ele diz que “o serviço de informações nosso, todos, são uma vergonha, uma vergonha! Que eu não sou informado! E não dá pra trabalhar assim. Fica difícil. Por isso, vou interferir! E ponto final. Não é ameaça, não é urna extrapolação da minha parte. É uma verdade. Como eu falei, né? Dei os ministérios pros senhores. O poder de veto. Mudou agora. Tem que mudar.” No dia seguinte à reunião, o então diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, teve sua demissão “a pedido” publicada no Diário Oficial da União, assinada por Bolsonaro e por Sergio Moro, então ministro da Justiça e Segurança Público. Moro afirma que não assinou a demissão. Valeixo diz que não a pediu, mas que recebeu uma ligação do Planalto na noite anterior avisando que o ato seria publicado.

Antes da divulgação do vídeo,  Bolsonaro negou que tivesse citado a PF durante a reunião. No entanto, os ministros da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, e do GSI, Augusto Heleno, afirmaram que Bolsonaro tinha mencionado, sim, a instituição no encontro. A transcrição da gravação mostra pelo menos uma menção direta à corporação.

Atualmente, a PF tem uma série de investigações que esbarram no nome Bolsonaro. O presidente é investigado por incentivar atos pró-golpe do dia 19 de março. Já o senador Flávio Bolsonaro é um dos personagens do Caso Queiroz (que apura um esquema de distribuição ilegal de salários de funcionários do gabinete dele na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, quando era deputado estadual), e o vereador Carlos Bolsonaro é apontado pela PF como envolvido em processos de disseminação de fake news. Outros casos investigados pela PF podem ser consultados aqui

A Superintendência da PF no Rio de Janeiro também investiga o senador Flávio Bolsonaro pelos crimes de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Nesta sexta-feira (22), a instituição convocou o chefe de gabinete de Flávio para prestar depoimento, na apuração de um suposto vazamento da PF do Rio de Janeiro que beneficiaria o senador.  


“Um ministro do STF querer o telefone institucional do Presidente da República, que tem contato com os líderes do mundo, por causa de fake news? Tá de brincadeira comigo”
Presidente Jair Bolsonaro, em entrevista à Rádio Jovem Pan em 22 de maio de 2020

FALSO

Nenhum ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) determinou busca, apreensão ou investigação do celular do Presidente da República. Em 22 de maio, o ministro Celso de Mello encaminhou à Procuradoria Geral da República (PGR) três notícias-crime contra Bolsonaro, todas protocoladas por parlamentares. Nos três despachos enviados, Mello não determina a apreensão do telefone de Bolsonaro, mas sim que a PGR analise os pedidos protocolados por Rui Falcão (PR-SP), Gleisi Hoffmann (PT-PR) e pela direção dos partidos PDT, PSB e PV

Embora as três petições peçam ao STF providências acerca do inquérito 4831, que apura as acusações do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro contra Jair Bolsonaro (sem partido), apenas no último os solicitantes requerem a apreensão do celular do presidente. Uma vez que investigações como esta são de competência do Ministério Público, é de praxe que denúncias feitas por terceiros sejam comunicadas à PGR.

O encaminhamento de Mello não tem relação com tramitações no STF acerca da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito das Fake News ou com o inquérito para apurar fake news, ameaças e outros ataques à Corte, que tramita no STF. Após o pedido de exoneração de Moro, o relator da ação, Alexandre de Moraes, decidiu pela continuidade das investigações e manutenção dos delegados da Polícia Federal à frente do caso.


“Lá [nos Estados Unidos] não tem essa de lockdown, fechar isso, fechar aquilo”
Presidente Jair Bolsonaro, em entrevista à Rádio Jovem Pan em 22 de maio de 2020

FALSO

A maioria dos estados americanos decretou algum tipo de “lockdown”. Segundo levantamento do jornal Business Insider, em seu auge, no final de março, essas medidas afetaram 94% da população americana. Como, ao contrário do Brasil, o número de casos vem diminuindo nas últimas semanas, vários estados já passam por um processo de reabertura.

Em algumas localidades, violação das regras de isolamento social se tornaram passíveis de multa. É o caso, por exemplo, da cidade de Nova York, epicentro da epidemia no país. Em abril, a multa podia ser de até US$ 1 mil


“Ele [Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS] falou ‘não podemos tirar o direito de ir e vir daquele que se usa disso para colocar um pão na boca de seus filhos’”
Presidente Jair Bolsonaro, em entrevista à Rádio Jovem Pan em 22 de maio de 2020

FALSO

Na entrevista coletiva citada por Bolsonaro, de 30 de março, o diretor-geral da OMS, o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus não falou, em momento algum, sobre o direito de ir e vir. Na ocasião, o diretor disse que considera que medidas de isolamento social e quarentena são importantes para “ganhar tempo”, mas ponderou que as pessoas mais pobres têm que trabalhar “todo santo dia para conseguir o seu pão”. Tedros concluiu que essas pessoas devem ser “levadas em conta” na hora de decidir sobre políticas públicas para mitigar os impactos do coronavírus, sem especificar, exatamente, como.

No mesmo dia, ele foi mais específico ao comentar sua própria declaração no Twitter. Tedros não falou em “direito de ir e vir”, mas sim em “ políticas que forneçam proteção econômica para pessoas que não podem ganhar [dinheiro] ou trabalhar em meio à pandemia”. Na época, essa informação foi verificada pela Lupa.

 


“É prova do Pisa, último lugar do mundo em Ciência, em Português e Matemática”
Presidente Jair Bolsonaro, em entrevista à Rádio Jovem Pan em 22 de maio de 2020

FALSO

O Brasil não ficou em “último lugar do mundo” em nenhuma das três disciplinas avaliadas pelo Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (PISA). Em Ciência, o Brasil tirou nota 404, contra 336 da República Dominicana, que ficou em último. Em matemática, a república caribenha foi o país mais mal avaliado novamente, com nota 325, contra 384 dos estudantes brasileiros. Em leitura, a nota do país ficou em 413, contra 340 das Filipinas. Nas três disciplinas, outros países além dos lanternas também tiveram notas menores do que as do Brasil. A média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é 489 nas três disciplinas.

Mesmo se forem considerados apenas os seis países sul-americanos que participaram da última prova, o Brasil não ficou em último em duas das três áreas do conhecimento. Colômbia (412), Argentina (402) e Peru (401) estiveram atrás em leitura e Argentina (379) em matemática. Apenas na disciplina de ciências o Brasil esteve em último lugar, empatado com Argentina (404) e Peru (404).

Os números são corroborados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Apesar de apresentar baixo desempenho escolar, o país não fica em último lugar em nenhuma das competências avaliadas. A prova é aplicada por amostragem em grupos de estudantes de 15 anos de idade. 

Vale pontuar que nem todos os países do mundo estão sujeitos a essa avaliação. Na América do Sul, por exemplo, apenas metade deles participam. Em outros continentes, a proporção é ainda menor. Em 2018, por exemplo, Marrocos foi a única nação africana avaliada. Ou seja, mesmo que os estudantes brasileiros ficassem em último lugar em alguma disciplina, isso não significaria ter a pior educação do mundo. 


“O vírus vai pegar 70% da população, não adianta fugir, meu Deus do céu”
Presidente Jair Bolsonaro, em entrevista à Rádio Jovem Pan em 22 de maio de 2020

INSUSTENTÁVEL

Não existe nenhum indicativo de que 70% da população vai, necessariamente, contrair Covid-19. Principalmente no leste asiático, há países que registraram milhares de casos da doença e, posteriormente, deixaram o estágio de transmissão comunitária. É o caso da China, que registrou apenas 13 novos casos segundo o boletim diário da OMS desta sexta-feira (22), e da Coreia do Sul, que teve 20. Os dois países tiveram, respectivamente, 84,5 mil e 11,1 mil casos confirmados desde o início da pandemia. No Vietnã, que teve apenas 374 pacientes com a doença, há três dias não é registrado nenhum caso novo.

Segundo a Universidade Johns Hopkins, 70% da população infectada seria, hipoteticamente, a proporção necessária para que se atingisse a chamada “imunidade de rebanho”. Contudo, especialistas ainda não sabem se todas pessoas que contraem Covid-19 de fato ficam imunes e, caso fiquem, por quanto tempo essa imunidade dura. 


“A bolsa [de valores de São Paulo] reagiu, o dólar caiu imediatamente [após a reunião com os governadores na quinta-feira (21)]”
Presidente Jair Bolsonaro, em entrevista à Rádio Jovem Pan em 22 de maio de 2020

VERDADEIRO, MAS

Na quinta-feira (21), Jair Bolsonaro fez uma reunião online com os governadores brasileiros. Naquele dia, o índice Ibovespa iniciou o pregão com 81.320 pontos e, após as negociações, fechou em 83.027 pontos, um alta de 2,10%. Porém, nesta sexta-feira, o Ibovespa voltou a cair e fechou o dia em 82.173 pontos – queda de 1,03%. O dólar, por sua vez, teve queda de quinta para sexta-feira. Na quinta, a moeda americana fechou o dia cotada a R$ 5,6019. Na sexta, valia R$ 5,5808 no fechamento, segundo o Banco Central.


“Deu 50 milhões de pessoas [recebendo auxílio da COVID-19]”
Presidente Jair Bolsonaro, em entrevista à Rádio Jovem Pan em 22 de maio de 2020

VERDADEIRO

Segundo a Caixa Econômica Federal, responsável por fazer o pagamento do auxílio emergencial liberado a trabalhadores informais e desempregados durante a pandemia, foram efetuados 51,1 milhões de cadastros no sistema. Até o início de maio, 50 milhões de pessoas, de fato, receberam o benefício. 

Editado por: Natália Leal

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INSUSTENTÁVEL
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FALSO
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