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Foto: Bruno Concha, Secom
Foto: Bruno Concha, Secom

Lupa na Ciência: Estudos indicam que pacientes que voltaram a testar positivo para Covid-19 não foram reinfectados

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
25.maio.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Na Coreia do Sul, em meados de abril, pacientes recuperados da Covid-19 voltaram a testar positivo para o novo coronavírus
  • Estudos indicaram que eles, na verdade, tinham fragmentos mortos do vírus, ou seja, não estavam doentes e não podiam contaminar outras pessoas
  • Apesar das boas notícias, pesquisadores ainda não descartam a possibilidade de reinfecção
  • Não se sabe com precisão o grau de imunidade que as pessoas desenvolvem ao se contaminarem com o novo coronavírus, nem por quanto tempo ela dura 

Em meados de abril, autoridades de saúde da Coreia do Sul divulgaram relatórios informando que centenas de pacientes já recuperados da Covid-19 voltaram a testar positivo para a doença, indicando a possibilidade de uma pessoa ser infectada duas vezes. A informação preocupou a comunidade internacional e motivou pesquisadores a estudarem o assunto. Contudo, na última semana, um novo relatório divulgado pelo governo sul-coreano mudou a perspectiva inicial. Todos os indícios mostrados no levantamento apontam que os testes deram positivo porque fragmentos do vírus já morto foram detectados, ou seja, não houve uma segunda infecção. Dois outros estudos, publicados também na última semana, convergiram para os mesmos resultados. 

O Centro de Prevenção e Doenças sul coreano acompanhou, por cerca de um mês, 285 pacientes que haviam testado positivo depois de terem se recuperado. Também foram monitoradas 790 pessoas que tiveram contato próximo com esses pacientes. Apenas três delas foram infectadas, e as três confirmaram contato com outros familiares ou amigos doentes – que não estavam entre os 285 pacientes acompanhados. Então, os pesquisadores concluíram que os 285 voluntários não eram mais capazes de transmitir a doença, ou seja, não tinham o vírus ativo no corpo. Os coreanos também tentaram cultivar amostras de vírus coletadas desses pacientes em laboratório, mas não tiveram sucesso. Mais um indício de que os patógenos já estavam mortos.  

Os resultados corroboram a suspeita levantada anteriormente pela epidemiologista e líder técnica no combate ao novo coronavírus da Organização Mundial da Saúde (OMS), Maria van Kerkhove. A um programa de TV americano, ela disse que muitos recuperados testaram positivo novamente em função do processo de cura da doença, e não porque haviam sido contaminados outra vez. 

A especialista explicou que fragmentos de células mortas do pulmão que contêm material genético já inativo do vírus podem permanecer por semanas e até meses no corpo, mesmo depois de o paciente estar totalmente recuperado. Aos poucos, esse material emerge para as vias respiratórias superiores para ser expelido. O exame mais comum para detectar o coronavírus é o RT-PCR (sigla em inglês para transcrição reversa seguida de reação em cadeia da polimerase), que parte da coleta de secreção do nariz e garganta para, em uma série de reações, ampliar o material genético e identificar se há sinais da carga viral no corpo. Entretanto, este exame não consegue precisar se os fragmentos encontrados correspondem ao vírus ativo ou morto, por isso a dúvida sobre os resultados.

Com essas novas informações, a Coreia do Sul mudou a classificação dos pacientes que voltam a testar positivo. Ao invés de “re-positivos”, eles agora são classificados como pacientes com “PCR re-detectado depois de liberado do isolamento”. Contudo, ainda que essa notícia seja bastante positiva, esses indícios não são suficientes para afirmar que uma pessoa recuperada da Covid-19 está protegida de futuras infecções. 

Estudos recentes trazem boas notícias sobre a imunidade

Há muitas dúvidas sobre a imunidade que pode ser desenvolvida ao novo coronavírus, mas dois estudos recentes trouxeram novas e boas evidências sobre o assunto. Um artigo produzido por pesquisadores americanos e publicado na revista Cell, em meados de maio, comparou o sistema imunológico de 10 voluntários recuperados da Covid-19 com o de 11 pessoas que não foram infectadas com o vírus. Essa pesquisa mostrou que, além de desenvolver os anticorpos contra o SARS-Cov-2, os pacientes recuperados produziram quantidades significativas de células T, que formam um complexo e eficiente mecanismo de combate à doença.

De acordo com o co-autor do estudo, Florian Krammer, a partir desses dados é razoável supor que a maioria das pessoas que tiveram a Covid-19 tem menos probabilidade de ser reinfectada ou sofrer quadros graves da doença em uma segunda infecção.

Outro estudo, divulgado na última semana na revista Science, reforçou as evidências de uma imunidade pós-infecção ao expor por duas vezes um grupo de macacos ao vírus.  Uma semana após se recuperarem da primeira infecção induzida pela pulverização de partículas do novo coronavírus em seus narizes, os animais foram novamente expostos ao patógeno. Entretanto, não desenvolveram nenhum quadro da doença. 

Os dados são animadores, porém não são definitivos. Pesquisadores ainda não sabem dizer com certeza se todas as pessoas que são infectadas desenvolvem imunidade suficiente para protegê-las de uma próxima exposição ao vírus. Também não é possível precisar por quanto tempo a memória imunológica permanece no corpo. Enquanto isso, a recomendação para quem já se recuperou da Covid-19 é manter as medidas de proteção recomendadas pela OMS.

Fontes:

Revista Cell. Artigo disponível em:
https://www.cell.com/cell/pdf/S0092-8674(20)30610-3.pdf

Science Magazine. Artigo disponível em:
https://science.sciencemag.org/content/early/2020/05/19/science.abc4776?rss=1&utm_source=STAT+Newsletters&utm_campaign=01409f17f6-MR_COPY_01&utm_medium=email&utm_term=0_8cab1d7961-01409f17f6-149680977

British Medical Journal. Artigo disponível em:
https://www.bmj.com/content/369/bmj.m1498

Korea Centers for Disease Control and Prevention. Documento disponível em:
https://www.cdc.go.kr/board/board.es?mid=a30402000000&bid=0030

Organização Mundial da Saúde (OMS). Documento disponível em:
https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/advice-for-public

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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