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Lupa na Ciência: Por que são positivos os resultados do primeiro teste em humanos da vacina chinesa contra Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
01.jun.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Resultados da fase 1 do estudo de uma vacina chinesa contra o SARS-Cov-2 mostraram que voluntários desenvolveram imunidade, sem efeitos adversos graves
  • Estes são os primeiros testes com humanos da pesquisa desenvolvida pela CanSino Biologics, que conta com 108 voluntários
  • A imunização testada é uma das 25 pesquisadas atualmente que utilizam outros vírus modificados geneticamente com fragmentos do novo patógeno
  • A pesquisa agora avança para a fase 2, um estudo clínico randomizado e com grupo controle, para fornecer dados mais robustos sobre os efeitos da imunização
  • Mesmo nos cenários mais otimistas, especialistas preveem que uma vacina só estará disponível à população em geral no final deste ano ou no início de 2021 

O periódico científico The Lancet publicou, no último dia 22, os resultados iniciais do primeiro teste em humanos de uma vacina chinesa contra a Covid-19. As conclusões são animadoras: depois de 28 dias aplicando a imunização em 108 voluntários saudáveis, cientistas concluíram que a vacina AD5-nCoV, da empresa CanSino Biologics, indica ser segura e gerou anticorpos e células de defesa nos voluntários. Contudo, esta é a primeira de três fases de testes em humanos – ou seja, ainda há um longo caminho pela frente para que o produto chegue ao mercado.

Essa primeira etapa de testes foi feita com um grupo não randomizado, sem grupo de controle (que recebe placebo). Nesta etapa, com um número limitado de participantes, é avaliado se há uma resposta do organismo e se há alguma reação adversa mais grave. Agora, os especialistas avançam para as fases seguintes de testes, a fim de confirmar os resultados em grupos maiores e esclarecer se e por quanto tempo os que recebem a dosagem ficam imunes ao SARS-Cov-2.  

O resultado da pesquisa chinesa aparece dias depois de a empresa americana Moderna Therapeutics ter sido criticada por emitir um comunicado informando que oito dos 45 voluntários testados para uma vacina de outro tipo, desenvolvida nos Estados Unidos, desenvolveram imunidade contra o vírus. Na ocasião, a empresa fez o anúncio com entusiasmo, porém não apresentou dados completos que comprovassem os resultados. No caso chinês, por ter sido publicada em uma revista de peso como a The Lancet, significa que o estudo passou por revisão de pesquisadores independentes, e que a metodologia e as avaliações estavam adequadas.

Vetores Virais Recombinantes

 A vacina AD5-nCoV é uma das 25 que estão sendo testadas no mundo usando Vetores Virais Recombinantes (VVR). Elas são compostas por vírus já conhecidos, porém modificados geneticamente. Neles, são inseridos fragmentos do patógeno que se deseja adquirir a imunidade. Eles são injetados no corpo humano (na sua forma enfraquecida) para induzir o organismo a criar a defesa. No caso da vacina chinesa, os pesquisadores usam uma versão de um adenovírus (aquele que causa o resfriado comum) como vetor. Em seu genoma, inserem um pedaço do novo coronavírus que contém a “receita” para produzir a proteína spike. Essa proteína é uma das principais características do SARS-Cov-2. Ela fica grudada na parte externa do vírus e serve para se ligar nas células do corpo humano. A ideia dos pesquisadores, que se mostrou eficaz, é que com o vírus modificado, o corpo aprenderá a reconhecer a proteína spike e desenvolverá imunidade contra ela.  

Nesta primeira fase do estudo, os voluntários foram divididos em três grupos iguais, que receberam diferentes doses da vacina. Os pesquisadores testaram o sangue deles em intervalos regulares durante as quatro semanas seguintes, e também avaliaram possíveis efeitos adversos. Eles buscaram analisar se a vacina estimulava as duas etapas do sistema imunológico: a chamada “resposta humoral”, que é mediada pelos anticorpos (que reconhecem e neutralizam o inimigo quando este está solto no corpo), e a resposta celular, que é composta por grupos de células T (linfócitos T) capazes de identificar e destruir o vírus quando ele já está em outras células do organismo. Uma vacina ideal deve gerar os dois tipos de imunidade. 

Nos resultados, ficou evidenciado que o nível de anticorpos neutralizadores do coronavírus aumentou significativamente no 14º dia, e chegou ao pico no 28º dia. Já a resposta dos linfócitos T chegou ao nível máximo no 14º dia após a vacinação. A quantidade de anticorpos e células de defesa foi mais significativa naqueles que receberam doses médias e altas da vacina. Ainda não se sabe, entretanto, qual quantidade de imunização é ideal para proteger do SARS-CoV-2. 

Após quatro semanas, os pesquisadores avaliaram também os efeitos colaterais das diferentes dosagens. Dor leve no local da injeção, febre e dor de cabeça foram alguns dos sintomas relatados. Entretanto, segundo eles, não houve eventos adversos graves.

Comemoração e cautela

Mesmo comemorando os resultados, os autores do estudo alertam que ainda é muito cedo para afirmar que já temos uma vacina contra a Covid-19. Esses resultados iniciais indicam apenas que os testes devem ser aprofundados. De acordo com os pesquisadores, a capacidade de desencadear as respostas imunes observadas não indica, necessariamente, que a vacina protege integralmente contra a Covid-19. Isso porque os voluntários não foram expostos ao coronavírus inteiro para validar a eficácia da medicação. 

Além disso, especialistas ainda estão começando a descobrir como o corpo humano se comporta quando entra em contato com o vírus. Já se sabe que o organismo tem a capacidade de criar imunidade quando a pessoa desenvolve sintomas da doença, porém ainda não se sabe exatamente o que ocorre com os assintomáticos. O tempo que dura essa memória de defesa do corpo ainda é uma incógnita. Especula-se que ela teria uma duração semelhante à de outros coronavírus. De acordo com um artigo publicado no Journal of Microbiology, Immunology, and Infection, isso representa cerca de dois anos.

A fim de esclarecer essas e outras dúvidas, a pesquisa chinesa agora avança para a fase 2, que será um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. O objetivo nesta etapa é verificar se o mesmo padrão se repete em um número maior de voluntários, e também se são observados novo efeitos adversos após seis meses de vacinação. Nesta etapa, 500 indivíduos saudáveis receberão a vacina. Destes, 250 serão imunizados com a dosagem média, 125 com a dose baixa e 125 receberão placebo. Pessoas acima de 60 anos estão entre os voluntários. Isso é importante para saber como esse grupo, um dos mais afetados pelo novo coronavírus, reage à vacina. 

Se os resultados forem positivos nesta etapa, a pesquisa então avança para a fase 3, com um grupo ainda maior de voluntários. Somente com a conclusão de todas essas fases é que a empresa estará autorizada a comercializar o produto. Isso significa que, mesmo nos cenários mais otimistas, ainda estamos meses distante de uma vacina. Pesquisadores estimam que, no melhor dos cenários, isso só será possível no final deste ano ou no início de 2021. 

Além dessa, 125 candidatas a vacina contra o coronavírus estão em desenvolvimento, segundo o mais recente levantamento feito pela Organização Mundial de Saúde (OMS), de 27 de maio. 10 delas estão na fase de testes com humano. Enquanto os resultados não saem, a melhor forma de se proteger segue sendo respeitar as recomendações de distanciamento social e higiene rigorosa. 

Fontes:

Journal of Microbiology, Immunology, and Infection. Artigo disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7141458/

The Lancet. Artigo disponível em:
https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31208-3/fulltext

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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