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Lupa na Ciência: Estudos são inconclusivos sobre transmissão sexual da Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
03.jun.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Um estudo chinês com 38 pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 identificou a presença do vírus no sêmen de seis voluntários
  • Os pesquisadores não acompanharam os pacientes para saber se eles poderiam transmitir o vírus pelo ato sexual
  • Ainda não se sabe se o novo coronavírus pode ser transmitido sexualmente, porém a proximidade com outras pessoas não é recomendada durante a pandemia
  • Para os solteiros, entidades de saúde de diversos países recomendam outras alternativas, como a masturbação e sexo virtual. Para os que têm um parceiro fixo, é recomendado reforçar os hábitos de higiene antes e depois da relação sexual

Um estudo publicado no início de maio deixou muita gente confusa ao afirmar que o novo coronavírus havia sido encontrado no sêmen de pacientes que testaram positivo para a Covid-19. Notícias sobre a possibilidade de a doença ser transmitida sexualmente começaram a se espalhar, gerando dúvida e levando entidades ao redor do mundo a se posicionar sobre o assunto. Os especialistas convergem: até o momento, não há evidências de que a Covid-19 possa ser transmitida por fluidos vaginais ou pelo sêmen. No entanto, a proximidade durante o ato sexual, assim como demonstrações de afeto como beijos e abraços, são vetores de contaminação e devem ser evitados. 

O principal estudo que trouxe a questão à tona, publicado no The Journal of the American Medical Association (JAMA), foi realizado na China com 38 pacientes que testaram positivo para o SARS-CoV-2. Destes, 23 voluntários estavam recuperados clinicamente e 15 permaneciam no estágio agudo da doença. Todos tiveram amostras de sêmen coletadas. Os testes mostraram presença do vírus em seis (15,8%) pacientes, sendo quatro entre os que ainda estavam com doença ativa e dois entre os que já haviam se recuperado. Não houve diferença significativa entre as amostras positivas e negativas em relação à idade dos voluntários. 

Esta não foi a primeira vez que cientistas testaram a presença do novo coronavírus nos fluidos corporais. Pesquisas anteriores, também com um baixo número de voluntários, buscaram identificar o patógeno no sêmen de voluntários, sem sucesso. Já um estudo publicado em abril na revista Clinical Infectious Diseases analisou o trato genital de 10 mulheres que apresentavam sintomas graves da Covid-19. O estudo não identificou o vírus na secreção vaginal. 

O resultado da pesquisa publicada no JAMA não chegou a surpreender os cientistas. É sabido que os testículos são abundantes na enzima ACE2, usada pelo novo coronavírus para infectar as células. Esta é, inclusive, uma das hipóteses que pode explicar por que homens são mais vulneráveis à Covid-19 do que as mulheres. Além disso, estudos anteriores indicaram que outros vírus podem viver no trato reprodutor masculino. Em pacientes contaminados com Ebola e Zika, por exemplo, foi identificado que os vírus podem permanecer no sêmen por meses ou até anos após a recuperação do paciente. Ainda não é claro para a ciência por que o sistema imunológico não consegue eliminá-lo nesses lugares.

Encontrar evidências de vírus em determinado sistema do corpo humano não significa necessariamente que há risco de infecção, afirmam os autores do estudo chinês. Isso depende de diversos fatores, como a quantidade de vírus concentrado ou se ele está ativo ou inativo. Essas questões não foram avaliadas na pesquisa. Na publicação, os pesquisadores destacam que o estudo traz dados interessantes, porém limitados, já que o número de voluntários foi muito pequeno. Além disso, os pacientes não foram acompanhados nas semanas seguintes para determinar a por quanto tempo o coronavírus permaneceu no sêmen e se os homens o espalharam a doença para seus parceiros sexuais.

A transmissão durante o ato sexual, portanto, não está totalmente esclarecida. Mas é bom lembrar que o sexo não se resume à penetração ou ao contato com os genitais. Estudos já encontraram o SARS-CoV-2 nas fezes de alguns pacientes, o que sugere outras possíveis vias de transmissão a serem investigadas. Esta descoberta serve de alerta para o sexo anal e indica que, até segunda ordem, o contato com essa região do corpo deve ser evitado durante o período da pandemia.

Mesmo com o pouco que se sabe sobre a transmissão do novo coronavírus durante o sexo, algumas entidades ao redor do mundo já emitiram comunicados orientando as pessoas sobre as melhores práticas no período de pandemia. O Ministério da Saúde da Argentina, por exemplo, recomendou que as pessoas evitem manter relações sexuais com desconhecidos. Porém, com os devidos cuidados, o sexo está liberado entre os que têm parceiros estáveis e sem sintomas da doença. Para os solteiros, o ministério recomendou outras formas de prazer, como sexo virtual e masturbação. Já nos Estados Unidos, o Departamento de Saúde de Nova York divulgou um guia com orientações para relações sexuais em tempos de pandemia. No documento, os especialistas também afirmam que não é recomendado o contato com novos parceiros, e que é preciso lavar as mãos e os brinquedos sexuais com água e sabão por pelo menos 20 segundos antes e depois de usá-los. 

Aqui no Brasil, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) recomenda que as pessoas tomem banho antes e depois da prática sexual, e que reforcem as medidas e proteção durante o ato, como o uso de camisinha. A Organização Mundial da Saúde (OMS) explica que a proximidade entre as pessoas durante o ato sexual não é recomendada, já que o vírus pode ser transmitido pelo contato e pelo ar. Além disso, a organização ressalta a importância do uso de camisinha e demais métodos contraceptivos para evitar transmissão de outras doenças e gravidez indesejada. 

Fontes:

The Journal of the American Medical Association (JAMA). Artigo disponível em:
https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2765654?utm_source=For_The_Media&utm_medium=referral&utm_campaign=ftm_links&utm_term=050720

Clinical Infectious Diseases. Artigo disponível em:
https://academic.oup.com/cid/advance-article/doi/10.1093/cid/ciaa375/5815295?searchresult=1

New England Journal of Medicine. Artigo disponível em:
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1511410

Ministério da Saúde da Argentina. Informações disponíveis em:
https://www.argentina.gob.ar/salud/coronavirus-COVID-19?utm_source=alerta_20200424&utm_medium=web&utm_campaign=campana_coronavirus

Departamento de Saúde de Nova York. Documento disponível em:
https://www1.nyc.gov/assets/doh/downloads/pdf/imm/covid-sex-guidance.pdf

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Informações disponíveis em:
https://www.febrasgo.org.br/pt/covid19/faq

Organização Mundial da Saúde (OMS). Informações disponíveis em:
https://www.who.int/news-room/q-a-detail/q-a-for-adolescents-and-youth-related-to-covid-19

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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