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Chás, óleos, sêmen e veneno: cultura influencia desinformação sobre curas para Covid-19

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
09.jun.2020 | 10h00 |

Diferentes receitas caseiras sem qualquer comprovação científica têm sido indicadas no mundo todo como a “solução ideal” para tratar ou curar a Covid-19. Apenas de 1º de abril a 8 de junho, plataformas de checagem de 37 países diferentes desmentiram 84 tipos de tratamentos supostamente milagrosos contra a doença, causada pelo novo coronavírus. 

Algumas dessas receitas circulam por vários países, mas há substâncias indicadas de acordo com as preferências regionais. Na Índia, por exemplo, foram feitas seis verificações para desmentir os “benefícios” da inalação de óleo de mostarda contra a Covid-19. Bastaria aspirar a substância, bastante usada no país, para que o vírus fosse para o estômago, onde seria destruído pelos fluidos digestivos. Um dos autores dessa desinformação foi o guru de ioga Baba Ramdev. Não há, contudo, nenhuma prova de que isso evitaria que o vírus se ligue a células nasais e se espalhe pelo corpo.

A Índia teve o maior número de checagens de conteúdos desse tipo. Foram 34 verificações, das 156 produzidas sobre esse tema no período analisado. Tratamentos com diferentes tipos de chás de ervas medicinais viralizaram no país, ao lado de inalações de vapor de água quente ou até mesmo de pó de gengibre. De novo, não há qualquer embasamento científico que ateste a eficácia dessas receitas.

Em países da África, diferentes plantas medicinais também têm sido apontadas como soluções contra o coronavírus. Entre as escolhidas estão artemísia, hibisco, erva-de-santa-luzia, capim-limão, nim e erva do Sião. As peças de desinformação sugerem beber essas substâncias em infusões, uma recomendação geralmente associada aos supostos efeitos positivos da água quente contra o coronavírus. Mas não existem pesquisas que apontem algum benefício.

Receitas de chás com supostas propriedades terapêuticas contra o novo coronavírus foram muito compartilhadas no Brasil este ano. Em abril, quando a epidemia de Covid-19 ficou mais aguda no Pará e no Amazonas, surgiram posts nas redes sociais recomendando o consumo de chá de jambu, alho e limão. A eficácia foi desmentida, mas, em maio, outra infusão tomou o seu lugar: o chá de boldo, também sem qualquer evidência.

Uma das publicações compartilhadas por milhares de pessoas na França defendia o consumo do queijo roquefort no combate ao coronavírus. Segundo o post que circulou no Facebook, o fungo Penicillium roqueforti, usado na fabricação do produto, agiria como uma defesa natural no corpo humano, impedindo a disseminação do micro-organismo. Dias depois de publicar a mensagem, o próprio autor admitiu se tratar de uma informação falsa. Ele alegou que apenas quis fazer humor durante a quarentena, mas muita gente levou a recomendação a sério.

Não faltaram também indicações bizarras. Nas Filipinas, por exemplo, um suposto médico publicou um vídeo em seu canal no YouTube defendendo a ingestão de sêmen para matar o coronavírus. A peça de desinformação interpretou de forma errada um estudo sobre como os níveis de espermina e da espermidina, presentes no esperma, afetam os vírus da zika e da chikungunya. A pesquisa, no entanto, não analisou os efeitos da ingestão dessas substâncias. 

Circulou na Grécia uma peça de desinformação sobre um grande estudo na China, que teria demonstrado como o veneno de abelha protegeria contra a Covid-19. O texto checado afirmava que apicultores naquele país, situados na província de Hubei, costumavam se tratar com picadas do inseto. Com isso, nenhum deles havia desenvolvido sintomas da doença. Essa pesquisa, porém, jamais existiu. As informações saíram de uma carta publicada em uma revista científica, que expunha hipóteses não comprovadas.

Em abril, o curandeiro Mala Ali Kurdistani divulgou um vídeo no Facebook em que bebia leite de camelo misturado com urina do animal, uma receita que garantia ser eficiente para tratar a Covid-19. A gravação viralizou nos países do Oriente Médio e chegou a ultrapassar a marca de 2 milhões de visualizações. Mais uma vez, a “solução milagrosa” foi desmentida – não existe qualquer pesquisa que tenha mostrado benefícios no uso dessas substâncias.

Três bebidas alcoólicas também ilustraram peças de desinformação. Na Argentina e na Espanha, o vinho apareceu como solução contra o coronavírus. Tomar a bebida regularmente seria uma forma de higienizar a boca e a faringe, pois o vírus não sobreviveria no álcool. Nos Estados Unidos, circulou a informação de que a ingestão de uísque teria sido recomendada por um importante virologista alemão. E, na Ucrânia, a sugestão foi inalar os vapores de vodca, que conseguiriam matar o coronavírus. 

O teor de álcool presente nessas bebidas, no entanto, é muito baixo para que a substância possa ter o poder de desinfecção – seja por ingestão ou por inalação. Além disso, nenhum estudo amplo, revisado pela comunidade científica, endossou esse tipo de receita contra a Covid-19. Já a frase do virologista alemão que correu os Estados Unidos foi uma piada feita durante uma entrevista, que acabou tirada de contexto.

Esta coluna foi escrita pela Agência Lupa a partir das bases de dados públicas mantidas pelos projetos CoronaVerificado e LatamChequea Coronavírus, que têm apoio do Google News Initiative, e pela CoronaVirusFacts Alliance, que reúne 88 organizações de checagem em todo mundo. A produção das análises tem o apoio do Instituto Serrapilheira e da Unesco. Veja outras verificações e conheça os parceiros em coronaverificado.news

Editado por: Natália Leal e Chico Marés

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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