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#Verificamos: Vídeo de manifestação na Argentina é antigo e não tem relação com estatização de empresa do Grupo Vicentin

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
12.jun.2020 | 15h43 |

Circula pelas redes sociais um vídeo em que aparece uma multidão em ato em Buenos Aires, na Argentina. Segundo a legenda, seria uma “mega manifestação contra a política comunista do presidente Alberto Fernández”. De acordo com o texto, o protesto seria contrário à estatização de uma empresa do Grupo Vicentin, que atua no ramo de exportação de soja. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Mega manifestação contra a Política Comunista do presidente Alberto Fernández. Isso você não verá noticiado na grande mídia!
O povo argentino foi às ruas para protestar contra as políticas de estatização iniciadas pelo Presidente Alberto Fernández, poste de Cristina Kirchner, sua vice e amiga de Lula.
A revolta popular decorreu da tentativa de expropriação de uma empresa do grupo econômico Vicentin, que atua há cerca de 90 anos em diversos ramos, o 4º maior exportador de soja do país. O Governo alega que a empresa acumula dívidas”.
Vídeo publicado no Facebook que, até as 15h do dia 12 de junho de 2020, tinha sido compartilhado por cerca de 150 pessoas

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A ocasião retratada no vídeo, em que milhares de pessoas se reuniram nas ruas de Buenos Aires, não tem relação com um suposto protesto contra as políticas de estatização do atual governo do país. A gravação mostra, na verdade, um ato favorável à reeleição de Mauricio Macri à presidência da Argentina, que aconteceu em 19 de outubro de 2019. A chapa do atual presidente Alberto Fernández só tomou posse no dia 10 de dezembro daquele ano. A sugestão do governo argentino de assumir o controle da exportadora de grãos Vicentin, por sua vez, se deu somente em 08 de junho de 2020, quatro meses depois de a empresa decretar um processo preventivo de falência.

À época da gravação das imagens, Macri disputava o segundo turno das eleições contra Alberto Fernández e convocou seus apoiadores para a chamada “la marcha del millón”, “a marcha do milhão”, em português. Em resposta, milhares de pessoas tomaram a Avenida 9 de Julho, em Buenos Aires. No vídeo, é possível o grito “sí, se puede”, lema da campanha de reeleição de Macri, que também aparece no letreiro acima do palco principal. Na ocasião, a Televisión Pública, veículo público de notícias argentino, divulgou imagens da mesma multidão portando bandeiras da Argentina. Outros jornais nacionais e internacionais publicaram vídeos e fotos da marcha.

O processo de expropriação do Grupo Vicentín se deu após a empresa protocolar pedido de recuperação judicial por não conseguir realizar o pagamento de dívidas de US$ 1,5 bilhão, cerca de R$ 7,5 bilhões. Em entrevista para uma rádio local, compartilhada pelo jornal Estadão, Fernández diz que o processo foi “excepcional”, que o governo está assumindo uma empresa falida e que não tem como política a estatização de empresas privadas. O presidente ainda não encaminhou projeto de lei ao Congresso e se diz “aberto a buscar alternativas”.

Protestos contrários à decisão do governo foram registrados somente próximos à sede da empresa, no município de Avellaneda, Santa Fé, a 700 km de Buenos Aires. Na ocasião, a polícia impediu manifestantes de atacarem Luciano Zarich, um dos responsáveis por encaminhar o processo de intervenção estatal.

O vídeo foi publicado originalmente pela deputada Carla Zambelli (PSL-SP), em sua conta no Twitter. Após alertada sobre sua falsidade, ela apagou a publicação. Mesmo assim, o vídeo continua circulando nas redes sociais com a marca d’água da deputada.

Nota: esta reportagem faz parte do projeto de verificação de notícias no Facebook. Dúvidas sobre o projeto? Entre em contato direto com o Facebook.

Editado por: Chico Marés

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