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Foto: melvil/Wikimedia Commons
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Lupa na Ciência: Dexametasona pode ser promissora em casos graves de Covid-19, mas exige cautela

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
19.jun.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • A divulgação dos resultados de uma pesquisa com um corticoide barato e comum para pacientes graves da Covid-19 animou a comunidade científica
  • O estudo sugere que a droga pode reduzir com sucesso as mortes em até um terço. Porém, os dados da pesquisa ainda não foram publicados em revista científica, somente divulgados em comunicado
  • A dexametasona não atua combatendo o vírus, mas ajuda a regular o sistema imunológico dos pacientes que sofrem uma “tempestade de citocina” por causa da infecção com o novo coronavírus
  • A Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu cautela, alertando que é um tratamento específico para pacientes graves

Na última terça-feira (16), pesquisadores do projeto Recovery Trial, da Universidade de Oxford, anunciaram que o medicamento dexametasona reduz a incidência de mortes pela Covid-19. Trata-se de uma boa notícia, mas que deve ser encarada com cautela. Os dados da pesquisa que levou a esses resultados ainda não foram publicados em revistas científicas de peso nem revisados por pares, apenas divulgados parcialmente pela equipe que coordenou o estudo. Além disso, a droga só se mostrou eficaz em casos graves da doença, e seu uso sem orientação médica pode causar mais danos do que benefícios. Entender os limites e avanços que se têm até agora sobre o uso dessa droga no combate ao novo coronavírus é essencial para que a tomada de decisões, tanto da população quanto de órgãos públicos, seja sensata, e para evitar situações perigosas como as que aconteceram há poucos meses com a cloroquina.

A dexametasona não é um antiviral, e sim um corticoide (anti-inflamatório esteroide, derivado sintético de um hormônio natural chamado cortisol, produzido nas glândulas suprarrenais). Isso significa que o remédio não atua diretamente contra o novo coronavírus. O que ele faz é regular a resposta imune do corpo quando ela sofre uma desregulação e fica exagerada, a ponto de causar danos ao organismo. Este é o motivo pelo qual ela pode ser benéfica nos pacientes com a Covid-19 em estado grave. Estudos recentes (publicados em revistas como Journal of Clinical Investigation e The Lancet) sugerem que parte dos pacientes que contraem o vírus acabam sofrendo uma  “tempestade de citocinas”, que nada mais é do que uma resposta do sistema imunológico tão aguda que acaba agredindo o corpo. Essa “tempestade” leva os pacientes a desenvolverem quadros severos como falência múltipla de órgãos e síndrome respiratória. Esse processo, quando desencadeado no organismo, é difícil de ser controlado, de acordo com um documento divulgado pelo médico Maximilian Konig, da Universidade Johns Hopkins. E este é um dos motivos pelos quais o novo coronavírus tem causado tantas mortes.

 Portanto, a dexametasona não tem efeitos benéficos se administrada antes da infecção pelo SARS-CoV-2 ou em pacientes que não desenvolveram quadros graves da doença. Ela pode, nesses casos, atrapalhar o funcionamento das células de defesa, facilitando a replicação do vírus dentro do corpo.  Por isso, nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a Covid-19, há um alerta sobre os perigos do uso de esteroides sem recomendação médica. 

A dexametasona é um medicamento aprovado para uso clínico desde 1961, e é comumente usada para combater crises asmáticas, alergias, doenças dermatológicas, reumáticas e alguns processos infecciosos. Trata-se de um remédio produzido em larga escala, barato e disponível em diferentes partes do mundo – uma vantagem importante quando falamos em uma pandemia global.

Estudo faz parte do Recovery Trial

Apesar de o efeito do medicamento ser limitado a casos específicos de pacientes com a Covid-19, a pesquisa inglesa animou a comunidade científica. Primeiro, porque esta seria a primeira droga que comprovadamente reduz a incidência de mortes pela Covid-19.  Até então, o único medicamento que havia demonstrado benefício aos pacientes infectados com o novo coronavírus em um grande ensaio clínico randomizado e controlado (ou seja, com metodologia rigorosa) havia sido o remdesivir. Só que ele apenas diminuiu o tempo de internação dos pacientes, e não baixou a taxa de mortalidade de forma estatisticamente significativa. 

As evidências desse novo estudo com a dexametasona sugerem que a droga pode reduzir com sucesso as mortes pelo vírus em até um terço quando usada em pacientes gravemente doentes. Para chegar a esses resultados, pesquisadores selecionaram 2.104 voluntários aleatoriamente (todos infectados), que receberam o medicamento por via oral ou intravenosa. Eles foram comparados a outros 4.321 pacientes que receberam tratamentos convencionais. O estudo mostra que a redução de mortes foi de 35% para pacientes que precisavam de auxílio de respiradores e de 20% para os que respiravam com suporte de oxigênio. Como esperado, o medicamento não teve efeito significativo em pacientes com casos leves da doença. 

A pesquisa da Universidade de Oxford faz parte do Recovery Trial, projeto lançado em março, considerado um dos maiores ensaios clínicos randomizados e controlados para tratamentos contra o novo coronavírus. Entre as drogas testadas pelo grupo está a cloroquina. Os testes com o medicamento, no entanto, foram interrompidos pela preocupação com os seus efeitos colaterais. 

Entidades pedem cautela e orientação sobre o uso da droga

Logo após a divulgação dos resultados, o governo do Reino Unido anunciou que havia autorizado imediatamente o uso de dexametasona em pacientes hospitalizados com a Covid-19 que necessitavam de oxigênio. A OMS, no entanto, fez um comunicado no dia seguinte pedindo cautela com o medicamento e alertando que não é preciso “correr para alterar protocolos médicos”. Um representante da entidade falou, ainda, que a OMS começou a coordenar uma análise de dados de vários ensaios clínicos para aumentar a compreensão sobre como e quando a dexametasona deve ser usada para tratar os pacientes com a Covid-19. 

A Universidade de Oxford afirmou que pretende publicar os resultados deste estudo rapidamente, mas que já está compartilhando suas descobertas porque acredita que elas podem salvar vidas. Enquanto isso, no Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou que, assim como qualquer remédio tarjado, o corticoide dexametasona só deve ser utilizado com prescrição médica. Ele ainda não foi incluído nos protocolos nacionais de tratamento para a Covid-19.

Fontes:

Recovery Trial. Informações disponíveis em:
https://www.recoverytrial.net/

The Lancet. Artigo disponível em:
https://www.thelancet.com/journals/lanres/article/PIIS2213-2600(20)30216-2/fulltext

Howard Huges Medical Institute. Documento disponível em:
https://www.hhmi.org/news/preventing-cytokine-storm-may-ease-severe-covid-19-symptoms

Journal of Infection. Artigo disponível em:
https://www.journalofinfection.com/article/S0163-4453(20)30165-1/pdf

Journal of Clinical Investigation. Documento disponível em:
https://www.jci.org/articles/view/139642

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés, Maurício Moraes e Natália Leal

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