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Lupa na Ciência: Estudos sugerem que plasma convalescente é seguro e pode ajudar no tratamento da Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
22.jun.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Estudos recentes sugerem que a transfusão de plasma convalescente é um procedimento seguro e que pode ajudar o organismo dos pacientes em estado grave a combater o novo coronavírus
  • Apesar de ser um tratamento antigo e já utilizado em outras pandemias e epidemias, ele ainda não tem eficácia comprovada pela ciência
  • Diversos países estão realizando testes, porém ainda não há resultados completos dos estudos que garantam sua eficácia no combate à nova pandemia
  • Especialistas acreditam que este tratamento pode ajudar a conter os estragos causados pela doença até que se encontre um medicamento ou uma vacina

Na busca por um tratamento eficaz contra o novo coronavírus, dois estudos recentes animaram os defensores de um antigo método de combate a doenças infecciosas: a transfusão de plasma convalescente. Uma das pesquisas, que observou o comportamento de milhares de voluntários após receberem o tratamento, concluiu que é uma técnica segura a ser aplicada nos pacientes com Covid-19. Os autores do estudo, publicado no Journal of Clinical Investigation, explicam que esse é um passo importante antes de se confirmar a eficácia do método na atual pandemia. Outra pesquisa, publicada no The American Journal of Pathology, indicou, além da segurança do tratamento, uma melhora no quadro de 76% dos pacientes graves que receberam plasma convalescente. Ela contou, no entanto, com um número pequeno de voluntários. 

Esses resultados se somarão às dezenas de pesquisas que estão sendo realizadas em diferentes países para avaliar a eficácia desse tipo tratamento. Ainda que sugiram resultados promissores, os estudos já publicados derivam de análises não controladas e/ou com tamanho limitado de amostras. Por isso, ainda são insuficientes para a comprovação definitiva sobre a eficácia potencial do tratamento. Especialistas alertam que é preciso aguardar os resultados dos estudos clínicos de grande porte e randomizados, controlados para respostas mais definitivas.

Técnica já foi usada no passado 

A transfusão de plasma convalescente parte de uma premissa simples: o sangue de uma pessoa que já se recuperou de uma infecção possui anticorpos, moléculas que aprendem a reconhecer e combater o vírus ou bactéria. Essas tropas de defesa circulam na corrente sanguínea. Médicos podem extrair uma porção do sangue dessas pessoas, separar o plasma (a parte líquida, que contém os anticorpos), e aplicá-lo naqueles que estão atualmente combatendo a doença. A transfusão de plasma é feita como qualquer transfusão de sangue: o líquido é injetado por via venosa e, para isso, o sangue do receptor precisa ser compatível com o do doador. O procedimento pode ajudar o sistema imunológico de quem recebe a rejeitar o patógeno com mais eficiência. Seria útil, assim, para dar um impulso imunológico ao doente e ajudar a acelerar o processo de recuperação. 

A ideia de transferir a defesa de um paciente curado para um doente foi introduzida pela primeira vez no final do século 19, quando uma dupla de cientistas descobriu que podia usar anticorpos presentes no soro (outro componente do sangue) para tratar a infecção por difteria. Desde aquela época, médicos estudaram e aprimoraram esse tipo de tratamento para reduzir a gravidade de vários surtos de doenças infecciosas. Isso ocorreu antes do desenvolvimento da terapia antimicrobiana na década de 1940. 

Um dos momentos em que o procedimento ganhou mais evidência foi durante pandemia de gripe espanhola, em 1918. Um artigo publicado em 2006 no Annals of Internal Medicine, que revisou oito estudos feitos no século passado com quase 2 mil pessoas para avaliar os efeitos do tratamento na pandemia, mostrou que o plasma convalescente teria diminuído a taxa de mortalidade dos que contraíram a gripe espanhola. Os autores fizeram essa revisão para avaliar se a transfusão da substância seria uma boa alternativa no combate à gripe aviária. Concluíram que, apesar dos resultados positivos, as metodologias de pesquisa aplicadas à época não tinham o mesmo rigor científico de hoje. Portanto, seriam necessários ensaios clínicos nos padrões atuais para confirmar a eficácia. 

Posteriormente, o tratamento também foi usado para combater o coronavírus responsável pelo surto de SARS na China, em 2003, além do H1N1, ebola, meningite e pneumonia. Os estudos feitos para essas doenças são, em sua maioria, pequenos. Apesar de indicarem resultados benéficos, não podem ser considerados conclusivos. Por isso, esse é um tratamento que, apesar de antigo, não possui evidências científicas suficientes. Além disso, os cientistas acreditam que um dos fatores determinantes para o potencial sucesso ou fracasso do procedimento é a quantidade e a qualidade de anticorpos coletados no sangue do doador, e isso depende de como se comporta o sistema de defesa dessa pessoa.

Estudos mais completos

Essas dúvidas não devem permanecer após a atual pandemia, já que diferentes centros de pesquisa em todo o mundo têm colaborado para alcançar respostas rápidas, confiáveis e robustas para reduzir o número de mortes provocadas pelo novo coronavírus. São mais de 80 estudos em andamento em todo o mundo. Foi o resultado inicial de uma dessas colaborações que saiu na última semana no Journal Of Clinical Investigation. A pesquisa, chamada “Projeto Nacional de Plasma Convalescente Covid-19” está sendo feita por um grupo de cientistas e médicos de 57 instituições nos Estados Unidos, incluindo a Universidade Johns Hopkins, a Faculdade de Medicina Albert Einstein e a Escola de Medicina Icahn Monte Sinai. Os especialistas estão investigando e aplicando a terapia com plasma convalescente em milhares de pacientes com a Covid-19. 

Neste primeiro estudo, avaliaram a segurança do tratamento em 5 mil deles, considerados com alto risco de desenvolver o quadro grave da doença. De acordo com os pesquisadores, os efeitos colaterais graves relacionados à transfusão foram inferiores a 1%, e a incidência de mortes ficou em 14,9%, o que indicaria a “ausência de sinais de toxicidade além do esperado no uso do plasma em pacientes gravemente doentes”. Infecções e alergias são os efeitos colaterais mais comuns, mas, em casos raros, o procedimento pode provocar problemas respiratórios e complicações cardiovasculares. A eficácia do tratamento não foi avaliada neste estudo, mas os coordenadores da pesquisa indicaram que a taxa de mortalidade entre os voluntários, se comparada com a de outros grupos em estágio crítico da doença, pode sinalizar um resultado positivo.

Sobre a capacidade de a transfusão ajudar os pacientes a se recuperar, o que se tem de dados disponíveis são estudos com pequeno número de voluntários. Um deles, citado no início desta reportagem e publicado no American Journal of Pathology, avaliou 25 pacientes que receberam 300 mililitros de plasma convalescente, uma única vez. Os resultados mostraram que até o sétimo dia após a transfusão, 9 dos 28 pacientes (36%) melhoram o quadro clínico. Após 14 dias, 19 dos 25 pacientes (76%) expressaram substancial melhora clínica e 11 foram liberados do hospital –, uma taxa significativamente maior do que a observada naqueles que recebem tratamentos padrão, porém semelhante à dos pacientes tratados com o antiviral remdesivir. A terapia foi bem tolerada pelos pacientes e nenhum evento adverso associado à transfusão foi observado. 

Esses resultados foram semelhantes aos de outros pequenos estudos já publicados, que analisaram a eficácia do mesmo tratamento. No entanto, uma pesquisa chinesa publicada no início de junho no The Journal of the American Medical Association (JAMA) com 103 pacientes em estado grave não encontrou benefícios no tratamento feito com plasma convalescente em comparação com os que receberam tratamento padrão. Os autores alertam, no entanto, que a pesquisa teve que ser interrompida precocemente, e por isso os dados coletados podem ser insuficientes para indicar ou não uma diferença clínica significativa. 

Países já adotaram a técnica

Enquanto as respostas definitivas não chegam, a terapia com plasma convalescente para tratar a Covid-19 já foi aprovada como tratamento experimental em diversos países. Somente nos Estados Unidos, mais de 20 mil infectados pelo novo coronavírus receberam a transfusão desde que a Food and Drug Administration (FDA) aprovou o procedimento em pacientes em estado grave. Na Europa, a organização European Blood Alliance anunciou que pelo menos 20 países já iniciaram os testes, e os resultados devem ser publicados futuramente. 

Aqui no Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) também considera o procedimento experimental. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) orienta que o plasma convalescente seja utilizado em protocolos de pesquisa clínica com os devidos cuidados e controles necessários. Alguns hospitais já estão aplicando a técnica em pacientes infectados pelo novo coronavírus. 

Se os resultados dos estudos em andamento forem positivos, o plasma convalescente pode servir como uma tática para conter os estragos da Covid-19 enquanto não se descobre um remédio antiviral específico ou uma vacina. Esta última seria a opção ideal, pois ensina o corpo a combater o inimigo antes de a pessoa ser infectada, evitando que ela desenvolva a doença. 

Fontes:

European Blood Alliance. Informações disponíveis em:
https://europeanbloodalliance.eu/activities/convalescent-plasma-cpp/

The American Journal of Pathology. Artigo disponível em:
https://ajp.amjpathol.org/article/S0002-9440(20)30257-1/fulltext

Journal of Clinical Investigation. . Artigo disponível em:
https://www.jci.org/articles/view/140200

Annals of Internal Medicine. Artigo disponível em:
https://www.acpjournals.org/doi/10.7326/0003-4819-145-8-200610170-00139

Springer Link. Artigo disponível em:
https://link.springer.com/article/10.1007/s10096-004-1271-9

The Journal of the American Medical Association. Artigo disponível em:
https://jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/2766943

Food and Drug Administration (FDA). Documento disponível em:
https://www.fda.gov/vaccines-blood-biologics/investigational-new-drug-ind-or-device-exemption-ide-process-cber/recommendations-investigational-covid-19-convalescent-plasma

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Documento disponível em:
http://portal.anvisa.gov.br/documents/219201/4340788/Nota+Conjunta+MS+Anvisa+Orientacoes+Plasma+convalescente+COVID+19.pdf/aed6438d-8e44-4611-add9-82be10652b2f

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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