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Como a desinformação fez do 5G ‘causa’ da Covid-19 em diferentes países

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
23.jun.2020 | 08h00 |

Desde o início da pandemia de Covid-19, a tecnologia 5G está no centro das teorias da conspiração sobre a doença. Entre janeiro e junho deste ano, pelo menos 116 publicações envolvendo os dois assuntos foram desmentidas por plataformas de checagens de 37 países. A suposta relação entre o vírus e o 5G varia: alguns dizem que a rede de transmissão de dados está sendo usada, junto com a doença, em um grande plano para monitorar a população mundial. Outros sugerem que ela é a causa da doença. Nada disso, claro, é verdadeiro.

Rumores sobre supostos riscos à saúde trazidos pela tecnologia 5G já circulavam nos submundos da internet desde antes da pandemia do novo coronavírus – ainda que essas teses já tenham sido desmentidas por inúmeros estudos científicos. Mas nos últimos meses, a desinformação sobre o assunto cresceu a ponto de a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicar um comunicado esclarecendo que a rede 5G não propagava a Covid-19. Em seguida, foi a vez da União Internacional de Telecomunicações, agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU), fazer o mesmo. 

Uma das primeiras checagens sobre o assunto foi publicada na Alemanha, no fim de janeiro deste ano. O texto dizia que Wuhan, cidade na China onde a doença surgiu, teria sido também o primeiro lugar no país com cobertura completa pela tecnologia 5G. Segundo a publicação, a rede afetava o sistema imunológico das pessoas, o que teria contribuído para a propagação do vírus. Nada disso é verdadeiro. As primeiras redes no país asiático foram instaladas em outras cidades, como Pequim, Xangai, Guangzhou e Hangzhou. Também não há indício de que o 5G afete o sistema imunológico. Mas a falsa informação se espalhou por outros países europeus, e também teve de ser verificada por checadores de Bélgica, Croácia e Portugal.

Neste último também circulou, em abril, que outras tecnologias estariam ligadas ao surgimento de doenças. Além de relacionar a rede 5G com a Covid-19, os textos diziam que a MERS teria coincidido com o início do 4G, a gripe A (H1N1) com a rede 3G e a SARS com o início de antenas 2G. Os boatos creditavam o surgimento da gripe asiática ao “início de antenas de televisão na China”, e a gripe espanhola ao “início das antenas de rádio na América e Europa”. Porém, nem mesmo a coincidência temporal é verdadeira – e muito menos, claro, a relação entre as tecnologias e as doenças. Vale ressaltar que Portugal ainda não tem cobertura 5G – há apenas testes no país –, mas acumula 39 mil casos de contaminação pelo novo coronavírus.

Contudo, o país onde os boatos envolvendo o 5G e a Covid-19 mais circularam foi os Estados Unidos. Ao menos 22 verificações foram feitas por lá. Uma das peças de desinformação que circulou no país mostrava um suposto equipamento de transmissão 5G com a inscrição “COV-19”. O tal equipamento era apenas o circuito interno de um receptor de TV a cabo, sem nenhuma relação com as redes de quinta geração. A inscrição era apenas um adesivo. Espanha, Polônia, Austrália e Geórgia também viram esse boato se espalhar.

América Latina

Conteúdos falsos sobre o 5G também se difundiram pela América Latina. Na Colômbia, pelo menos sete conteúdos foram desmentidos pelas plataformas de checagem locais. Na cidade de Cali, por exemplo, surgiram boatos de que a Covid-19 era uma invenção para manter as pessoas em casa enquanto o governo instalava antenas 5G no município.

Já no México, publicações afirmavam que antenas de transmissões 5G em formato de cactus emitiam ondas de frequência eletromagnéticas propagadoras da Covid-19. A forma peculiar teria sido adotada para que as pessoas não percebessem as antenas radioativas. Tudo era falso. As imagens usadas como “prova” tinham sido feitas em 2009, e não tinham qualquer relação com o 5G – menos ainda com a pandemia. 

No Brasil, os boatos envolvendo as redes de quinta geração não ganharam tanta força, mas uma teoria bem complexa viralizou por aqui. Bill Gates, o fundador da Microsoft, estaria criando uma vacina “não líquida” para Covid-19, em formato de selo, que poderia ser usada para controlar todos os usuários através da rede 5G. Depois de vacinadas, as pessoas só conseguiriam acessar suas redes sociais se digitassem ou escaneassem o código do selo da vacina. Gates financia uma vacina, mas ela não é adesiva – e não tem nada a ver com 5G. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) teve de emitir um comunicado, em abril, dizendo que não há comprovação científica da relação entre as tecnologias para comunicações móveis (3G, 4G e 5G) e a Covid-19 no Brasil. 

Por mais absurdas que sejam,  essas teorias da conspiração têm consequências reais. Neste ano, pessoas queimaram torres de transmissões de redes 5G na Europa. Em abril, a BBC publicou uma reportagem sobre uma investigação do Reino Unido de casos que vinham ocorrendo na região. No texto, trabalhadores de uma operadora de celular também relataram ter sido alvos de agressões verbais de desconhecidos.

Tecnologia 5G

O 5G, ou quinta geração da internet móvel, é uma nova tecnologia de transmissão de dados sem fio, já disponível comercialmente em 38 países e territórios. Trata-se de uma evolução das redes 4G, atualmente usadas no Brasil. O 5G tem uma banda mais larga, e permite uma velocidade de download consideravelmente mais alta do que a de seu antecessor, além de transmissões mais estáveis.  

Esta coluna foi escrita pela Agência Lupa a partir das bases de dados públicas mantidas pelos projetos CoronaVerificado e LatamChequea Coronavírus, que têm apoio do Google News Initiative, e pela CoronaVirusFacts Alliance, que reúne 88 organizações de checagem em todo mundo. A produção das análises tem o apoio do Instituto Serrapilheira e da Unesco. Veja outras verificações e conheça os parceiros em coronaverificado.news

Editado por: Chico Marés, Maurício Moraes e Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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