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Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasl
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Nem doutorado, nem pós-doutorado: Decotelli atualiza currículo após ser desmentido por universidades

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
26.jun.2020 | 21h43 |

Esta publicação foi corrigida às 17h53 do dia 29 de junho de 2020. Veja abaixo.

O novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli da Silva, sustentou informações falsas em seu currículo Lattes. Decotelli afirmava até o início da noite da última sexta-feira (26) que havia recebido a titulação como doutor em Administração pela Universidade Nacional de Rosário (UNR), na Argentina. Ele também dizia ter feito um pós-doutorado na Universidade de Wuppertal, na Alemanha. As duas instituições informaram, contudo, que as informações estavam incorretas. Após o caso ser exposto, Decotelli editou as informações na plataforma acadêmica. A posse de Decotelli, prevista para terça-feira (30), foi adiada.

 

Na sexta-feira (26), o atual reitor da UNR, Franco Bartolacci, revelou que o ministro não entregou a tese necessária para obter o doutoramento. Bartolacci expôs o caso ao publicar em sua conta no Twitter um post feito pelo presidente Jair Bolsonaro anunciando a nomeação do novo ministro da Educação. Bolsonaro listou os títulos acadêmicos de Decotelli, ao que Bartolacci respondeu: “Vemos a necessidade de esclarecer que Carlos Alberto Decotelli da Silva não obteve na Unros a titulação de doutor mencionada nesta comunicação”. 

Segundo o reitor da UNR, Decotelli cumpriu os créditos obrigatórios da pós-graduação, mas a tese entregue inicialmente não foi aprovada. Ele não entregou um novo trabalho. Pelo WhatsApp, Bartolacci reafirmou que o atual ministro da Educação não concluiu o doutorado. “Para finalizar o doutorado é necessário ter a tese aprovada, o que aqui não aconteceu. Portanto, não recebeu o título de referência”, disse.

No currículo Lattes, Decotelli indicava que teria obtido o título de doutor pela UNR em 2009, com a tese “Gestão de Riscos na Modelagem dos Preços da Soja”. Contudo, um documento da universidade mostra que em 2016 foi feita uma chamada para que o brasileiro apresentasse o trabalho. A tese não consta em bancos de dados acadêmicos.

Já a Universidade de Wuppertal informou em nota que Decotelli “não adquiriu um título” na entidade. Segundo a instituição, o novo ministro realizou uma pesquisa de três meses em janeiro de 2016 com a professora Brigitte Wolf. Em seu site pessoal, a orientadora afirma que o economista passou “vários meses” realizando pesquisas de pós-doutorado na Faculdade de Design e Arte do Departamento de Design Industrial. O documento final, no qual estuda o design de máquinas agrícolas, foi publicado no repositório digital da FGV.

Após a publicação de reportagens sobre o caso, Decotelli editou seu currículo e substituiu o título da tese, que acompanhava a titulação de “doutor”, pela expressão “créditos concluídos”. Também alterou o nome de seu suposto orientador, registrado como Dr. Antonio de Araujo Freitas Jr. Agora, o currículo aponta apenas para a frase “sem defesa de tese”. Ele também removeu referências ao pós-doutorado.

Em nota publicada no sábado, o Ministério da Educação disse que Decotelli apresentou a tese de doutorado, mas ela foi rejeitada por uma banca preliminar, e teria que ser refeita. Segundo a instituição, por causa de compromissos no Brasil e o esgotamento de “recursos financeiros pessoais”, o ministro não entregou a tese. “O ministro já efetuou os devidos ajustes em seu currículo, que, em breve, estarão refletidos nas principais plataformas de divulgação de dados profissionais.”

FGV

A Lupa verificou ainda outras informações do currículo do novo ministro. Decotelli diz ter se graduado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e ter feito mestrado na Fundação Getúlio Vargas (FGV). 

A assessoria de imprensa da UERJ não soube informar detalhes sobre a graduação de Decotelli. A documentação que mostra o histórico dos alunos está em microfilmes no Departamento de Administração Acadêmica (DAA). Como as atividades estão suspensas no campus, a entidade não conseguiu verificar a informação solicitada pela Lupa. O currículo lattes do ministro informa que ele se formou em 1980 em Ciências Econômicas.

Depois da graduação, Decotelli fez mestrado em gestão empresarial na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Essa informação foi confirmada pela assessoria de imprensa da entidade. Realizando uma busca pela biblioteca digital da FGV foi possível encontrar a dissertação apresentada pelo ministro da Educação em 2008 para obter o grau de Mestre. O trabalho falava sobre as ações estratégicas na gestão empresarial do Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Banrisul).

Casos anteriores

Essa não é a primeira vez que um ministro da Educação do governo Bolsonaro publica uma informação falsa em seu currículo lattes. Em 2019, o jornal o Nexo identificou 22 erros no currículo do professor Ricardo Vélez, primeiro ministro da Educação de Bolsonaro. No mesmo ano, o jornal Folha de S Paulo informou que o então ministro da pasta, Abraham Weintraub, publicou um mesmo artigo em duas revistas, o que é considerado um desvio de conduta pela academia. 

Veículos de imprensa também encontraram erros nos currículos do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves e do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel.

Atualização feita às 11h do dia 29 de junho de 2020: Essa reportagem foi atualizada com as notas enviadas pela Universidade de Wuppertal e pelo Ministério da Educação. 

Correção às 12h do dia 29 de junho de 2020: Ao contrário do que foi informado inicialmente, Decotelli estudou Ciências Econômicas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), e não na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Editado por: Natália Leal e Chico Marés

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