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Foto: NIAID
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Lupa na Ciência: Estudos indicam relação entre coronavírus e danos neurológicos

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
26.jun.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Um novo estudo estima que entre 30% e 40% dos pacientes com a Covid-19 apresentam algum tipo de sintoma neurológico
  • Estes sintomas podem ir desde perda do olfato até derrame cerebral
  • Especialistas acreditam que os danos estejam relacionados à “tempestade de citocina”, mas os mecanismos de ação do vírus no sistema nervoso não estão claros
  • Danos pulmonares também podem interferir na oxigenação do cérebro, aumentando os problemas neurológicos
  • O aumento no número de AVCs em pacientes jovens e sem comorbidades em alguns países pode estar relacionado ao novo coronavírus

Há alguns meses, especialistas vêm alertando para o fato de que o novo coronavírus é muito mais do que uma doença respiratória, já que afeta com frequência outros órgãos, entre eles o cérebro. Na última semana, um artigo publicado na revista Annals of Neurology reforçou essa ideia ao indicar que cerca de 30% a 40% dos infectados podem desenvolver sintomas neurológicos, que vão desde a perda de olfato até tonturas e acidentes vasculares cerebrais (AVC). No caso de pacientes internados, essa porcentagem sobe para 50%. De acordo com os autores, em uma vasta revisão de estudos sobre o tema, o novo coronavírus pode ser considerado uma “ameaça global” para todo o sistema nervoso, incluindo o cérebro, a medula espinal e os nervos. Os pesquisadores alertam, ainda, que muitos pacientes podem desenvolver problemas neurológicos antes mesmo de apresentar os sintomas mais comuns da Covid-19, como febre e tosse seca. Em outros casos, esses problemas podem aparecer semanas depois de a pessoa ser considerada recuperada. 

A suspeita de que a pandemia estava causando danos também ao sistema neurológico surgiu logo no início do ano, quando pesquisadores de Wuhan notaram sinais de “encefalopatia” (o termo geral para danos ao cérebro) em diversos pacientes internados pela Covid-19. A partir daí, estudos foram sendo realizados em diferentes partes do mundo. Atualmente, são mais de 300 pesquisas que apontam a prevalência de anormalidades neurológicas em pacientes da Covid-19, incluindo sintomas leves como dores de cabeça, perda de olfato (anosmia) e sensações de formigamento. Em casos mais graves, são relatados problemas como afasia (incapacidade de falar), derrames e convulsões. 

A forma como o novo coronavírus afeta o sistema nervoso ainda não está totalmente esclarecida pela ciência, mas algumas descobertas importantes vêm sendo feitas nos últimos meses. Em um artigo publicado no início de junho na revista Journal of Alzheimer’s Disease, um grupo de cientistas sugeriu três principais mecanismos de ação do vírus que podem resultar em danos neurológicos. Eles nomearam o esquema de classificação como “NeuroCovid”. 

O primeiro deles, que ocasionaria efeitos mais leves como perda temporária de olfato e paladar, diz respeito ao efeito do vírus no tecido em que os neurônios olfatórios agem, localizados no nariz e da boca – as primeiras vias de acesso do patógeno. Uma segunda manifestação ocorreria quando o vírus se espalha por outras partes do corpo, como o pulmão, gerando uma reação excessiva do organismo. Isso resultaria em uma “tempestade de citocinas”, que tem como uma das principais consequências a formação de microcoágulos no sangue. Eles aumentam significativamente o risco de infarto e derrame cerebral, por exemplo. Já um terceiro mecanismo de ação seria também resultado dessa resposta imune exacerbada do organismo, que de tão extrema poderia ocasionar danos na barreira hematoencefálica, que é a camada protetora da massa cinzenta. Essa camada costuma bloquear a entrada de vírus e outros patógenos no cérebro, mas quando ela falha, o microorganismo pode penetrar no núcleo do sistema nervoso central e causar danos imediatos, ou permanecer ali com potencial de retornar anos depois.

No artigo publicado na última semana no Annals of Neurology, os pesquisadores indicam ainda que os danos causados no pulmão pelo novo coronavírus podem contribuir para os problemas neurológicos, já que diminuem a oxigenação do cérebro. De acordo com o estudo, além dos danos causados diretamente no núcleo cerebral, a doença pode afetar o sistema nervoso periférico, provocando lesões musculares, a síndrome de Guillain‐Barré (um distúrbio autoimune), entre outros.

Jovens sem comorbidades

Estudo publicado em maio na revista Radiology, no qual pesquisadores da Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos, e quatro instituições italianas revisaram exames de imagem em pacientes graves com Covid-19, revelou que alterações do estado mental e derrame cerebral foram os sintomas neurológicos severos mais comuns naqueles internados pelo novo coronavírus. Isso ajudaria a explicar por que, em alguns países, o número de jovens sem comorbidades vítimas de derrame tem aumentado. Essa condição é mais comum em pacientes idosos e com condições pré-existentes, como hipertensão e diabetes.

O estudo revisou os protocolos de 725 pacientes hospitalizados com infecção confirmada por Covid-19 entre 29 de fevereiro e 4 de abril que fizeram exames por imagem do crânio e da espinha. 108 deles apresentaram sintomas neurológicos. Destes, 59% relataram um estado mental alterado e 31% tiveram AVC.  O estudo apontou, ainda, que entre os que tiveram sintomas neurológicos, 47% apresentaram anormalidades agudas nos exames de neuroimagem, como infarto isquêmico agudo, hemorragia intracraniana e trombose venosa cerebral.

De acordo com os especialistas, esses e outros padrões de comportamento do vírus recentemente descobertos podem ajudar os médicos a reconhecer as associações com a doença e iniciar as intervenções mais cedo. Além disso, a soma de evidências sobre a relação entre o novo coronavírus e o sistema nervoso têm contribuído para profissionais em todo o mundo revisarem os protocolos de atendimento e tratamento para a Covid-19.

Fontes: 

Journal of Alzheimer’s Disease. Artigo disponível em:
https://content.iospress.com/articles/journal-of-alzheimers-disease/jad200581

Annals of Neurology. Artigo disponível em:
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/ana.25807

New England Journal of Medicine. Artigo disponível em:
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMc2008597

Radiology. Artigo disponível em:
https://pubs.rsna.org/doi/10.1148/radiol.2020201933

The Lancet. Artigo disponível em:
https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31282-4/fulltext

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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