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Lupa na Ciência: Estudo sugere que tipo sanguíneo interfere no risco de contrair Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
29.jun.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Pesquisa da Universidade de Kiel, na Alemanha, mostra que pessoas com tipo sanguíneo A tem maior probabilidade de desenvolver Covid-19 do que pessoas do grupo O
  • No estudo, pesquisadores analisaram as diferenças no genoma de pacientes que contraíram a doença com pessoas que não foram afetadas. Genes que afetam o tipo sanguíneo estão entre as áreas com mais variação entre os dois grupos
  • Apesar disso, especialistas alertam que, embora a probabilidade de contrair a doença seja menor, isso não significa que pessoas com sangue tipo O são imunes à doença. Portanto, não devem relaxar nas medidas de proteção

Uma pesquisa liderada pela Universidade de Kiel, na Alemanha, e publicada em junho no New England Journal of Medicine mostrou que pacientes com sangue tipo A tem maior probabilidade de contrair Covid-19. Já pessoas com tipo O são menos propensas a ser infectadas pela doença. Segundo a pesquisa, o tipo sanguíneo também influi na possibilidade de o paciente desenvolver sintomas mais severos da doença, como insuficiência respiratória, ou morrer. A pesquisa confirma suspeitas levantadas em dois pre-prints divulgados no final de março e no início de abril na plataforma medRxiv. 

Uma menor probabilidade de contrair a Covid-19 não significa imunidade. Os pesquisadores ressaltam que as conclusões do estudo não devem gerar pânico em quem tem sangue tipo A, muito menos induzir quem não tem a relaxar os cuidados, pois é preciso avaliar mais detalhadamente a relação apontada no estudo. Outro grupo de cientistas que pesquisam o assunto, no Medical College of Wisconsin, defende o mesmo. Em entrevista à CBSNews, eles explicam que as informações do artigo publicado em junho são estatisticamente significativas, mas podem representar apenas uma pequena mudança no risco real de contrair a doença, já que outras circunstâncias devem ser observadas. A relação entre a doença e o tipo sanguíneo não exclui nem se sobrepõe a outros fatores de riscos já conhecidos. Idade avançada, obesidade, hipertensão e outras comorbidades continuam sendo motivo para preocupação, independentemente do tipo sanguíneo.

Em um comunicado emitido dias depois da publicação do estudo, Francis Collins, diretor do National Institutes of Health, nos Estados Unidos, afirmou que o teste genético e o tipo sanguíneo podem fornecer ferramentas úteis para identificar quem estaria em maior risco de desenvolver doenças graves. No entanto, há diversos outros fatores que, atualmente, são considerados mais determinantes para estimar em que intensidade um indivíduo pode ser afetado pela Covid-19. Idade, doenças cardíacas, hipertensão, obesidade e diabetes são alguns deles. “Esperamos que essas e outras descobertas ainda por vir apontem o caminho para uma compreensão mais completa da Covid-19”, concluiu Collins.

Genoma

No estudo, os pesquisadores alemães, com a ajuda de especialistas na Itália, Espanha, Dinamarca e outros países europeus, compararam o mapa genético de pacientes com quadros agudos da doença com o de pessoas saudáveis, ou que desenvolveram somente sintomas brandos. Ao todo, dados de 3,9 mil voluntários foram usados, 1,9 mil no primeiro grupo e 2 mil no segundo. O objetivo da pesquisa era verificar quais áreas do genoma apresentavam diferenças mais significativas na comparação entre esses dois grupos.

Uma das diferenças encontradas pelos cientistas foi na região onde estão genes que codificam o tipo sanguíneo. Isso permitiu aos pesquisadores confirmar “um potencial envolvimento do sistema de grupos sanguíneos ABO na Covid-19”, como afirmam no estudo. Entre os voluntários, aqueles com sangue tipo A tinham um risco 45% maior de contrair a doença do que a média. Já aqueles do grupo O, de acordo com a pesquisa, estariam menos predispostos a ficar doentes. As possibilidades de contrair o novo coronavírus seriam 35% menor do que a média, e a chance de desenvolver quadros graves também seria menos provável. Ou seja: ninguém está imune, mas há uma diferença significativa nas chances de desenvolver sintomas da Covid-19.

As explicações para essa associação ainda são especulativas. Os grupos sanguíneos (A, B, AB e O) são definidos pela presença ou ausência de proteínas específicas na superfície das células vermelhas, e pelos anticorpos que produzem no contato com outros tipos de sangue. Uma proteína presente na parte externa dessas células também define se o sangue é positivo ou negativo. Uma das possibilidades levantadas por pesquisadores em estudos sobre outras doenças é de que o organismo de pessoas com tipo sanguíneo O, devido às proteínas específicas presentes nas hemácias, teriam mais chance de reconhecer proteínas estranhas, como por exemplo aquelas que existem na superfície de vírus e bactérias, ajudando assim a combatê-las mais rapidamente. Pesquisas anteriores, realizadas durante surtos de outras doenças, já haviam sugerido que este grupo estaria menos suscetível a se contaminar. Há estudos apontando essa relação com a cólera, infecções no trato urinário e até o vírus da SARS, um “parente” do novo coronavírus. Outra questão já conhecida no meio científico é de que os genes associados ao tipo sanguíneo também interferem nos açúcares presentes na superfície das células, o que poderia interferir na capacidade de um vírus de infectá-la. 

Essa hipótese já tinha sido apontada em estudos anteriores, que avaliaram milhares de pacientes. Contudo, eles até agora não foram revisados por pares nem publicados em revistas científicas. Eles estão disponíveis no banco de dados medRxiv (artigos publicados em março e abril), e apontam para resultados semelhantes. 

Outros indícios

A diferença do efeito da Covid-19 em diferentes grupos sanguíneos não é o único fator encontrado no estudo. Os pesquisadores identificaram, nos pacientes que apresentavam quadros mais severos, alterações comuns em outras regiões do genoma, como por exemplo genes ligados à resposta imune nos pulmões. Essas diferenças podem colaborar para o processo chamado “tempestade de citocina”, que muitas vezes pode ser mortal para o paciente. Nesse processo, a resposta do sistema imunológico é tão forte que coloca em risco o funcionamento do próprio organismo.

Fontes:

New England Journal of Medicine. Artigo disponível em:
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2020283

National Institutes of Health. Documento disponível em:}
https://directorsblog.nih.gov/2020/06/18/genes-blood-type-tied-to-covid-19-risk-of-severe-disease/

Glycobiology. Artigo disponível em:
https://directorsblog.nih.gov/2020/06/18/genes-blood-type-tied-to-covid-19-risk-of-severe-disease/

MedRxiv. Artigos disponíveis em:
https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.04.08.20058073v1.full.pdf
https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.03.11.20031096v2

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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