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Ondas de desinformação sobre Covid-19 no Brasil vão de curas a caixões vazios

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
02.jul.2020 | 08h00 |

Desde o início da pandemia de Covid-19, o Brasil registrou ao menos cinco ondas de desinformação sobre a doença. A origem do novo coronavírus e falsos tratamentos e meios de se prevenir se espalharam antes mesmo de ele chegar ao país. Já os boatos sobre caixões enterrados vazios, vídeos de hospitais sem pacientes e distorções de dados oficiais brotaram conforme a pandemia avançava.

As ondas de desinformação se caracterizam pela intensa aparição em redes sociais de conteúdos falsos sobre um mesmo tema em um curto período de tempo. De 24 de janeiro a 30 de junho, a Lupa desmentiu 229 conteúdos relacionados ao novo coronavírus. Desses, 36% versavam sobre os temas identificados como tendências desinformativas sobre o novo coronavírus. Algumas delas se espalharam pelo mundo e foram verificadas também em outros países.

Embora o Brasil ainda não registrasse casos de Covid-19 em janeiro, publicações já questionavam a origem do vírus. Entre as mais populares, acusações de que ele tinha sido criado em laboratório na China, o que foi desmentido também no Canadá e nos Estados Unidos. Dois vídeos viralizaram como sendo de um mercado em Wuhan, onde a doença teria surgido. As imagens eram da Indonésia, de locais famosos pela venda de carne de animais exóticos.

Outra falsa teoria sobre o tema indicava que um laboratório britânico tinha a patente de uma vacina para a Covid-19 já registrada e, por isso, teria espalhado o vírus em busca de lucro. O documento, no entanto, mostrava a patente de uma versão inativada de outro coronavírus, que afeta somente aves. 

No início de março, quando o Brasil via os primeiros casos da doença, uma nova onda de desinformação surgiu. Textos sugeriram as mais variadas receitas milagrosas para derrotar o vírus. Um dos primeiros a ganhar força dizia que o vinagre era mais eficiente do que o álcool em gel para desinfetar superfícies e partes do corpo. A informação falsa era creditada a um “químico autodidata” e ganhou força no WhatsApp.

Também circularam conteúdos sobre chás, como alho, jambu, limão, erva-doce e boldo, que atuariam contra o vírus. O Ministério da Saúde chegou a emitir notas desmentindo as informações. As falsas terapias são uma tendência mundial, fortemente influenciada pela cultura. Em Madagascar, a cura viria da artemísia, na França, do queijo roquefort, e na Ucrânia, dos vapores de vodka. Nenhum dos ingredientes, de fato, funciona. 

Em abril, pelo menos oito checagens sobre “curas” foram feitas pela Lupa. O foco, agora, eram medicamentos cuja eficácia contra Covid-19 até hoje não foi comprovada. A cloroquina e a hidroxicloroquina, usadas no tratamento da malária, foram destaque, ganhando espaço após anúncio favorável do presidente americano, Donald Trump. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) comprou a ideia, dividindo partidários e oposição entre defensores ou não do remédio, que, até agora, não se provou eficaz. Um dos maiores estudos clínicos com a droga, na Universidade de Oxford, inclusive, foi interrompido após a constatação de que não havia benefícios.

Os conteúdos falsos sobre remédios coincidiram com a terceira onda de falsidades: os caixões que, supostamente, eram enterrados vazios para inflar os números da pandemia. Fotos e vídeos de um caixão vazio, supostamente desenterrado em Manaus (AM), circularam em abril. As cenas tinham sido registradas em 2017, em São Carlos (SP), quando estelionatários simularam um enterro para aplicar golpe em uma seguradora.

Outras peças de desinformação sobre enterros simulados para espalhar pânico na população circularam no fim de abril e início de maio. Em uma delas, uma imagem sugeria que uma pessoa carregava um caixão apenas com os dedos. Da foto, editada, tinha sido suprimida uma mesa, onde o caixão repousava. Uma das consequências dessa  onda foi vista na Bahia. Em maio, cinco pessoas de uma mesma família contraíram a Covid-19 após abrir o caixão de um parente morto pela doença.

A lógica de que a pandemia não era tão grave inspirou outra tendência de conteúdos falsos. Na segunda semana de abril, um homem foi ao Hospital Leonardo da Vinci, dedicado a pacientes com Covid-19 em em Fortaleza (CE), e fez imagens que mostravam pouco movimento na recepção. O hospital vazio seria prova de que a mídia espalhava pânico sobre a doença. Na verdade, a recepção estava vazia porque os pacientes eram encaminhados por outras unidades de saúde e diretamente internados. 

Esta foi a primeira de 15 checagens feitas pela Lupa sobre o tema em diferentes estados. Nenhum dos vídeos retratava a realidade. A tendência não foi exclusividade do Brasil: nos Estados Unidos, negacionistas criaram a hashtag #FilmYourHospital para promover conteúdos semelhantes. Na França e na Dinamarca também houve gravações. Checadores mostraram que as informações eram falsas nos três países.

Em maio, a quinta onda surgiu, distorcendo dados oficiais de contaminações e mortes pelo novo coronavírus para, mais uma vez, negar a gravidade da pandemia. Foram 24 checagens de conteúdos que deturpavam informações ou usavam números inventados sobre a Covid-19 e outras doenças, como a H1N1. Um dos métodos mais comuns comparava, de forma equivocada, dados do Portal da Transparência do Registro Civil.

Com o avanço da pandemia e das pesquisas científicas sobre o tema, uma nova onda de boatos já começa a se desenhar, envolvendo vacinas e alguns tratamentos em teste para a Covid-19. A CoronaVac, desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac e testada no Brasil a partir de julho, foi alvo de cinco verificações no mês passado. Também começaram a surgir conteúdos falsos sobre a ivermectina, remédio que está sendo estudado para o tratamento da doença. Na última publicação sobre o tema, a droga foi associada a um protocolo que não está em uso pela Marinha do Brasil. 

Esta coluna foi escrita pela Agência Lupa a partir das bases de dados públicas mantidas pelos projetos CoronaVerificado e LatamChequea Coronavírus, que têm apoio do Google News Initiative, e pela CoronaVirusFacts Alliance, que reúne 88 organizações de checagem em todo mundo. A produção das análises tem o apoio do Instituto Serrapilheira e da Unesco. Veja outras verificações e conheça os parceiros em coronaverificado.news

Editado por: Natália Leal, Chico Marés e Maurício Moraes

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