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Lupa na Ciência: Estudo sobre máscaras caseiras mostra quais são mais eficazes na prevenção da Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
03.jul.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Um novo estudo mostra que as máscaras caseiras mais eficazes para proteção contra o novo coronavírus são aquelas feitas de algodão, com duas ou mais camadas e corretamente ajustadas ao rosto
  • Os modelos com somente uma camada e no estilo bandana são os que menos protegem
  • Os autores do estudo afirmam que, mesmo com as máscaras, existe risco de contaminação e, por isso, o distanciamento social é necessário
  • As conclusões da pesquisa são consistentes com uma revisão de 172 estudos sobre o assunto publicada no mês de junho, na revista The Lancet
  • Nesta revisão, os autores afirmam que, até que se descubra uma vacina eficaz, somente medidas de proteção combinadas poderão evitar a propagação do vírus

Elas vêm em todas as cores, formatos e modelos. As máscaras de proteção facial se tornaram, em poucos meses, um adereço indispensável (e em muitos locais obrigatório) para ajudar a conter a pandemia do novo coronavírus. No entanto, ainda há muitas dúvidas sobre o grau de eficácia dos produtos caseiros e qual seria o melhor material e formato para a proteção. Pesquisadores da Universidade Atlântica da Flórida, nos Estados Unidos, trouxeram algumas respostas. Em um estudo publicado nesta semana no periódico Physics of Fluids, eles demonstraram que máscaras de algodão bem ajustadas, com duas ou mais camadas de tecido e em forma de cone são as mais eficazes em reduzir o alcance das partículas respiratórias. Já aquelas no estilo bandana oferecem capacidade mínima de barrar a dispersão. 

Este não é o primeiro estudo que demonstra o grau de proteção das máscaras caseiras. Testes com diferentes tipos do item de proteção foram realizados em epidemias de outros vírus respiratórios. No entanto, a pesquisa publicada nesta semana traz de forma mais clara evidências sobre a proteção que os tecidos e formatos fornecem quando consideradas as características de transmissão do novo coronavírus. De acordo com Siddhartha Verma, um dos autores da pesquisa, identificar a eficácia desses produtos é fundamental durante a atual pandemia. Tecidos como algodão são materiais amplamente disponíveis ao público, e, por isso, não prejudicam o fornecimento de equipamentos especiais de proteção aos profissionais da saúde. 

Para chegar às conclusões do estudo, os pesquisadores realizaram diversas simulações e analisaram os resultados que foram captados por imagem e disponibilizados em vídeo. Eles adaptaram a cabeça de um manequim, simulando as cavidades nasais e bucais de um adulto, conectadas a um propulsor de jatos de ar com água destilada e glicerina. Assim, conseguiram imitar a projeção de partículas contaminadas pelo novo coronavírus que saem da boca e do nariz das pessoas quando tossem, espirram e falam. O teste foi repetido diversas vezes sem nenhuma proteção e com diferentes tipos de máscaras: uma costurada com duas camadas de tecido de algodão (com 70 fios por polegada) e bem ajustada; uma feita com lenço de algodão, mais frouxa e com apenas uma camada; uma vendida em farmácias em formato de cone; e uma em formato de bandana, com camada única e feita com material de camiseta comum. 

Os resultados mostraram que as gotículas expelidas pela tosse sem proteção alcançam até 4 metros em menos de um minuto. Com diferentes tipos de máscara, essa distância é reduzida para apenas alguns centímetros em média. No caso da máscara de algodão, bem ajustada e com duas camadas, as partículas viajaram no máximo 1 centímetro. Com as máscaras em formato de cone à venda em farmácias, a distância foi de 20 centímetros. Já os dois outros modelos, que ficam menos ajustados ao rosto, apresentaram os piores resultados. No caso do lenço de algodão dobrado frouxamente, as partículas alcançaram 30 centímetros de distância. E com as bandanas de camada única, as gotículas viajaram até 1 metro. 

Nas conclusões do estudo, os autores ressaltam que as análises se dão a partir das gotículas possíveis de serem captadas nas imagens coletadas, e que não se pode ignorar que o novo coronavírus também se espalha por meio de partículas microscópicas, que podem viajar por distâncias ainda maiores. Por isso, o uso de máscaras deve ser considerado uma medida adicional às demais recomendações, como o distanciamento social. 

Combinação de medidas

As conclusões deste estudo são consistentes com uma pesquisa publicada em junho na revista The Lancet. Pesquisadores canadenses revisaram 172 estudos observacionais sobre medidas protetivas realizados a partir das características do novo coronavírus e de outras doenças respiratórias, como a síndrome respiratória no Oriente Médio (MERS). Os autores indicam que o uso de máscaras, em geral, reduz em 85% o risco de infecção. Eles avaliaram que as proteções hospitalares têm um grau maior de efetividade (96%), enquanto as caseiras eram consideradas 67% efetivas. Destas, as que mais protegiam eram as que tinham duas ou mais camadas, quando corretamente ajustadas ao rosto. 

Mas os especialistas alertaram que somente o uso delas não é suficiente. Eles destacam que é fundamental manter o distanciamento social, principalmente porque estudos experimentais demonstraram que o SARS-Cov-2 tem maior propensão de se espalhar por gotículas de aerossol (partículas minúsculas) do que outros vírus respiratórios, e pode ficar por mais tempo no ar. Na revisão, os autores afirmaram que o risco de contaminação é reduzido em 82% com um metro de distanciamento físico, e que a cada metro adicional, a proteção aumenta exponencialmente. 

Na conclusão da revisão dos pesquisadores canadenses, uma das mais completas até o momento, se reitera que nenhuma medida é, sozinha, totalmente eficiente. A combinação do uso de máscaras corretamente produzidas e ajustadas, do distanciamento social mínimo de um metro e de outras medidas de higiene seguem sendo as melhores formas de evitar a Covid-19 até que se tenha uma vacina. 

Fontes:

Physics of Fluids. Artigo disponível em:
https://aip.scitation.org/doi/10.1063/5.0016018

The Lancet. Artigos disponíveis em:
https://www.thelancet.com/pdfs/journals/lancet/PIIS0140-6736(20)31142-9.pdf

Emerging Infectious Diseases. Artigo disponível em:
https://wwwnc.cdc.gov/eid/article/26/7/20-0885_article

Florida Atlantic University. Vídeo disponível em:
https://www.youtube.com/watch?time_continue=143&v=evATiHUejxg&feature=emb_logo

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio d Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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