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Lupa na Ciência: Efeitos da Covid-19 são mais leves em crianças, mas elas podem ser vetores da doença

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
06.jul.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

– Dois grandes estudos publicados em junho indicam que crianças e jovens de até 18 anos têm menos probabilidade de desenvolver quadros graves da Covid-19

– Os levantamentos mostram, também, que a taxa de mortalidade nessa faixa etária é muito baixa, quando comparada com a de adultos e idosos

– Um terceiro estudo, no entanto, mostra que a carga viral em crianças e adolescentes infectados é semelhante à de pessoas mais velhas

– A pesquisa conclui que, assim, crianças e adolescentes têm grande potencial para transmitir a doença, ainda que não desenvolvam quadros tão graves

Dois grandes estudos publicados em junho mostram que a Covid-19 tende a ser mais leve em pessoas com menos de 18 anos. Feitas na Europa e nos Estados Unidos, essas pesquisas mostraram que crianças e adolescentes tendem a ter sintomas menos graves, e o risco de morte é consideravelmente menor do que em adultos. Os dados apresentados pelos pesquisadores são consistentes com o que se acreditava desde o início da pandemia, visto que, proporcionalmente, o número de mortes de pessoas nessa faixa etária é relativamente baixo. Contudo, um terceiro estudo, feito pela Universidade de Genebra, na Suíça, mostra que a carga viral em jovens infectados é comparável à de adultos. Isso significa que eles podem cumprir um papel importante na disseminação da doença.

Publicada no dia 25 de junho no periódico Lancet Child & Adolescent Health, uma das pesquisas avaliou 582 crianças e adolescentes com idade de três dias a 18 anos. Todos os pacientes foram atendidos em hospitais entre os dias 1º e 24 de abril e tiveram o quadro de infecção pelo novo coronavírus confirmado pelo teste PCR-RT. Os dados desses jovens vieram de 82 instituições de saúde especializadas em 25 países europeus. De acordo com a revisão dos protocolos de atendimento, 8% (48 crianças) desenvolveram uma forma grave da doença, necessitando de internação em terapia intensiva. Apenas quatro morreram (0,6%), todos com idade superior a 10 anos, sendo que dois deles já apresentavam problemas médicos anteriores.

Outro dado que chamou a atenção dos especialistas é que, do total de jovens que procuraram atendimento hospitalar, apenas 25% tinham problemas médicos preexistentes, uma taxa bem inferior à dos adultos que desenvolvem quadros mais graves da Covid-19. Uma das explicações pode ser o fato de que, em geral, as crianças têm menos problemas médicos crônicos do que o resto da população. Entre as quase 600 crianças analisadas, os pesquisadores descobriram que bebês com menos de um mês de idade tinham maior probabilidade de precisar de cuidados intensivos do que as crianças mais velhas. Além disso, a “coinfecção” com outro vírus – como influenza ou outra cepa de coronavírus – também parecia aumentar a gravidade da doença de algumas crianças. Esse dado é importante principalmente para os países que entram agora no período de inverno, quando a incidência de infecções no trato respiratório aumenta. 

Como o estudo levou em consideração apenas dados de jovens que foram a hospitais realizar o teste (em sua maioria já com algum sintoma), os autores da pesquisa indicam que a verdadeira taxa de letalidade e de casos graves nessa faixa etária deve ser muito menor do que a observada no estudo. Isso acontece porque é provável que muitas crianças e adolescentes assintomáticos não tenham sido testados. Assim, a proporção de jovens sem sintomas pode ser mais significativa do que mostram os dados levantados pelos pesquisadores. Entre os participantes do estudo, 16% não apresentaram sintomas. A maior parte desse grupo foi testada somente porque teve contato próximo com pessoas infectadas.

Outra pesquisa, que chegou a resultados semelhantes foi publicada também no final de junho na EClinicalMedicine, um dos periódicos da The Lancet. Neste trabalho, especialistas da Universidade do Texas reuniram dados de 131 estudos publicados entre 24 de janeiro e 14 de maio em 26 países e analisaram os efeitos da doença em mais de 7,5 mil crianças e jovens adolescentes que testaram positivo para a Covid-19. Os pesquisadores concluíram que 21% dos pacientes analisados apresentou alguma lesão tecidual nas radiografias pulmonares. Um estudo anterior já havia identificado que mesmo os assintomáticos – 19% dos analisados no estudo – podem ter alguma alteração pulmonar, detectável somente por exames de imagem.

A pesquisa americana apontou, ainda, que os sintomas mais comuns identificados nas crianças foram febre e tosse, como ocorre com os adultos. Na análise, 3,3% das crianças foram internadas em terapia intensiva. Como já era esperado, o vetor de contaminação mais comum entre as crianças foi o contato próximo com familiares infectados ou moradores de áreas com grande quantidade de casos confirmados. Os autores do estudo indicam que esta pesquisa, por compilar dados de outros estudos – muitos deles com baixo número de crianças –, possui limitações metodológicas. Contudo, os resultados trazem fortes evidências de que as crianças diagnosticadas com a Covid-19 têm, em geral, um bom prognóstico.

Ciência ainda não esclarece o fenômeno

Os fatores biológicos que levam as crianças a serem mais resistentes ao novo coronavírus ainda não são totalmente esclarecidos pela ciência. Contudo, algumas hipóteses já foram levantadas. Uma delas é que as crianças teriam uma menor quantidade da enzima ACE-2 do que os adultos. E a essa enzima que o coronavírus se liga para infectar as células. Por isso o vírus teria mais dificuldade de penetrar no organismo de jovens e adolescentes. 

Outras hipóteses estão ligadas às diferenças entre o sistema imune de um jovem e de um adulto. As crianças, por exemplo, têm uma imunidade inata mais forte. Essa característica, que permite que o organismo combata o vírus mais rapidamente, vai desaparecendo ao longo da vida e fica mais fraca em adultos.

Outra hipótese diz respeito aos quadros mais graves da doença. Grande parte dos adultos em tratamento intensivo pela Covid-19, por exemplo, é internada porque experimenta uma resposta imune desproporcional no combate ao vírus. É a chamada tempestade de citocina, que acaba causando danos graves ao organismo e pode provocar a falência múltipla de órgãos. Nas crianças, como o sistema de defesa ainda é imaturo, eles teriam menos capacidade de desenvolver essa resposta exagerada.  

Vetores da doença

Além dos efeitos da doença nas crianças e adolescentes, também é importante entender qual o papel desse grupo na disseminação da doença. Ainda não há consenso científico sobre esse aspecto. Contudo, estudos recentes, ainda que com baixo número de voluntários, vêm mostrando que os mais jovens podem ter a mesma capacidade dos adultos de transmitir o vírus. Uma pesquisa da Universidade de Genebra, na Suíça, publicada na revista Emerging Infectious Diseases em 30 de junho, aponta para essa conclusão. Os pesquisadores coletaram material da região nasofaríngea de 638 voluntários com idade inferior a 16 anos. Destes, 23 (incluindo um bebê de uma semana) apresentaram resultado positivo para a Covid-19, sendo que 15 tinham sintomas como febre e pneumonia. O material coletado foi isolado e cultivado em laboratório. A partir desses dados, os autores do estudo concluíram que a carga viral (quantidade/concentração de vírus nos corpos) nessas crianças era comparável à dos adultos no momento do diagnóstico. Assim, elas teriam a mesma capacidade de espalhar o vírus na comunidade. 

 Com essas novas informações, países que estão vivendo o pico da pandemia ou começando a reabertura gradual podem contar com mais dados para definir algumas estratégias de tratamento e de políticas públicas que envolvam essa parcela da população. Isso inclui, por exemplo o momento certo para retomar as aulas da educação básica, com menos riscos de gerar uma segunda onda de contaminações. 

Fontes:

Emerging Infectious Diseases
https://wwwnc.cdc.gov/eid/article/26/10/20-2403_article

EClinicalMedicine
https://www.thelancet.com/pdfs/journals/eclinm/PIIS2589-5370(20)30177-2.pdf

Lancet Child & Adolescent Health
https://www.thelancet.com/journals/lanchi/article/PIIS2352-4642(20)30177-2/fulltext

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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