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Foto: Greg Rubenstein
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Alvo constante de desinformação, Bill Gates ganha fama de vilão na pandemia

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
07.jul.2020 | 08h00 |

Fundador da Microsoft, o bilionário americano Bill Gates tornou-se um dos principais alvos de desinformação durante a pandemia. Desde janeiro até o dia 5 de julho, checadores de todo o mundo fizeram 145 verificações de boatos ligando o nome do empresário à Covid-19, segundo as bases de dados Coronavirus Facts Alliance e CoronaVerificado. Informações falsas sobre Gates circularam em pelo menos 38 países. Checadores dos Estados Unidos (34), Espanha (12), Itália (12) e Argentina (7) foram os que mais verificaram conteúdos a seu respeito.

Pouco menos da metade dessas peças de desinformação (66) liga o bilionário a teorias da conspiração sobre vacinas. Desde que deixou o cargo de CEO da Microsoft, em 2008, Gates dedica-se à Fundação Bill & Melinda Gates, organização não-governamental que fundou junto com sua mulher. Uma das principais linhas de atuação da entidade é o desenvolvimento de vacinas e a universalização da imunização em países pobres.

Em abril, Gates anunciou que sua fundação financiaria uma das vacinas que estão sendo desenvolvidas contra a Covid-19, a INO-4800, da empresa farmacêutica Inovio. Após essa divulgação, as teorias da conspiração envolvendo o bilionário ganharam mais força.  A imunização, uma das 139 que estão sendo desenvolvidas ao redor do mundo, começou a ser testada em humanos no final de junho.

‘Patente pronta’

Uma das primeiras teorias da conspiração a viralizar surgiu ainda em janeiro, bem antes de a fundação financiar a Inovio. Um boato que circulou em países como Espanha, Polônia, Turquia, Itália e Dinamarca dizia que Gates já teria a patente de uma versão atenuada do novo coronavírus há anos, e teria espalhado a doença para vender a vacina. Nada disso, claro, é verdade. A patente que “provava” o boato era de um tipo de coronavírus que causa doenças apenas em aves. O Instituto Pirbright, proprietário da patente em questão, recebeu financiamento da fundação do bilionário para outra pesquisa, sem relação com esse vírus, em 2013.

Em abril, os boatos ganharam mais força. Uma das informações falsas que circularam em vários países é que a vacina de Gates seria um adesivo colocado na pele junto com um microchip, que serviria para monitorar a população. Era mais um conteúdo falso: a vacina que está sendo pesquisada é líquida e não há qualquer evidência de que contenha um microchip. Esse boato foi desmentido em meados de abril nos Estados Unidos, na Croácia e na Grécia, e circulou também na França, na Polônia e no Canadá. No Brasil, o conto ganhou mais um ponto: o suposto microchip seria ativado com a tecnologia 5G.

Outra peça de desinformação sobre o bilionário dizia que o médico francês Didier Raoult, que ganhou notoriedade por defender o uso de hidroxicloroquina contra a Covid-19, teria recomendado a população da África a não tomar a vacina contra o coronavírus produzida por Gates. O texto dizia que a vacina tinha veneno, e teria como objetivo dizimar a população do continente. Mas Raoult nunca se manifestou sobre a INO-4800, e, até o momento, a vacina está sendo testada nos Estados Unidos, não na África. O boato foi verificado por checadores do Senegal, França, Nigéria e Etiópia.

Antes mesmo de a vacina financiada por Gates ser testada em humanos, boatos de que seria letal também circularam na internet. Esse tipo de informação foi desmentida por checadores dos Estados Unidos (aqui e aqui), Polônia e Alemanha. Até mesmo o Vaticano entrou na onda de informações falsas sobre o tema. Nos Estados Unidos, checadores desmentiram a informação de que a Igreja Católica estaria em conluio com Gates para dizimar a população do planeta, e usariam a vacina para isso. Na Argentina, circulou pelas redes que Gates estaria enfrentando um processo por testar ilegalmente uma vacina na Índia. Já na Geórgia, Itália e Portugal, publicações diziam que a INO-4800 causaria infertilidade em homens. Tudo falso.

Problemas legais

Nem só todas as peças de desinformação sobre Gates, porém, falam sobre vacinas. Em maio, uma montagem “mostrando” o bilionário sendo preso foi compartilhada em diferentes partes do mundo, incluindo Nigéria, Itália, Filipinas e Espanha. Ele teria sido condenado por “terrorismo biológico” por, supostamente, ter criado o novo coronavírus. O empresário teria sido desmascarado por ativistas australianos contrários à tecnologia 5G. 

Uma carta aberta supostamente escrita por Gates chegou a ser publicada – e depois removida – pelo tabloide britânico The Sun. Nela, o empresário teria dito que o novo coronavírus tem um propósito espiritual e que a pandemia seria uma ótima forma de corrigir “os erros da sociedade”. Contudo, como muitos outros textos na internet, a autoria foi creditada ao bilionário sem que ele tivesse conhecimento do texto. A Fundação Bill & Melinda Gates veio a público informar que a carta não foi feita por Gates e pediu para os usuários pararem de publicar o artigo. Esse boato foi verificado nos Estados Unidos, e também foi checada por jornalistas de Hong Kong, Taiwan e Índia.

Itália

O impacto dessas e de outras notícias falsas contra o bilionário foi sentido até mesmo no Parlamento da Itália. Uma deputada chamada Sara Cunial fez um discurso pedindo para o primeiro-ministro do país, Giuseppe Conte, denunciar o bilionário à Corte Internacional Penal, em Haia. Ela acusou Gates de “crimes contra a humanidade”. Nenhum desses delitos era real, segundo checagens do site italiano Pagella Politica e do colombiano ColombiaCheck. Entre os “crimes”, por exemplo, estava causar uma epidemia de poliomielite na Índia, que teria afetado 500 mil crianças, e esterilizar “milhões de mulheres” na África.

O próprio discurso da deputada virou fonte para mais um boato. A partir dele, produtores de desinformação nos Estados Unidos, na Irlanda e na própria Itália divulgaram que o “governo italiano” teria denunciado formalmente o bilionário no Tribunal de Haia. Contudo, Conte preferiu não acatar a sugestão da deputada. Uma dor de cabeça a menos para Bill Gates.

Atualizado às 15h20 do dia 7 de julho de 2020: O título desta reportagem foi atualizado para fins de clareza.

Esta coluna foi escrita pela Agência Lupa a partir das bases de dados públicas mantidas pelos projetos CoronaVerificado e LatamChequea Coronavírus, que têm apoio do Google News Initiative, e pela CoronaVirusFacts Alliance, que reúne 88 organizações de checagem em todo mundo. A produção das análises tem o apoio do Instituto Serrapilheira e da Unesco. Veja outras verificações e conheça os parceiros em coronaverificado.news

Editado por: Chico Marés, Maurício Moraes e Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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