A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

#Verificamos: É falso que Moro vendeu inquéritos da Polícia Federal para Doria

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
08.jul.2020 | 19h13 |

Circula nas redes sociais que o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro vendeu inquéritos da Polícia Federal para João Doria (PSDB), governador do estado de São Paulo, lucrando um total de US$ 23 milhões. O valor teria sido pago por empresas de Doria e João Amoedo (Novo). O texto diz, ainda, que o caso estaria sendo investigado pelo jornal americano Wall Street Journal e o italiano Gazzeta dello Sport e que Jair Bolsonaro (sem partido) teria descoberto o esquema e declarado a frase “Se as pessoas soubessem o que aconteceu no Ministério da Justiça, ficariam enojadas”. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira o trabalho de verificação da Lupa.

“MORO ENVOLVIDO ATÉ O PESCOÇO EM FALCATRUA
Talvez, isso explique a razão de Bolsonaro ter declarado a seguinte frase: “Se as pessoas soubessem o que aconteceu no Ministério da Justiça, ficariam enojadas”. Muitos brasileiros ficaram chocados e tristes pela saída de Moro do Ministério. Não deveriam. O que está exposto abaixo é a notícia em primeira mão que está sendo investigada por rádios e jornais de todo o Brasil e alguns estrangeiros, mais especificamente Wall Street Journal of Americas e o Gazzeta delo Sport e deve sair na mídia em breve, assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos.”
Trecho de publicação compartilhada no Instagram que, até o dia oito de julho, foi curtida por 1.706 pessoas

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O texto é uma adaptação de uma corrente de e-mail que circulou em 1998, durante a Copa do Mundo de Futebol e até hoje é adaptada a conteúdos falsos. À época, o professor de educação física Gunther Schweitzer encaminhou um email que começava com a frase atribuída ao jogador Leonardo: “Se as pessoas soubessem o que aconteceu na Copa do Mundo, ficariam enojadas”. Na sequência, a teoria da conspiração citava uma série de envolvidos que teriam pago um valor milionário para o Brasil perder a final do campeonato para a França. 

O texto, compartilhado posteriormente com a assinatura de Schweitzer, viralizou e se tornou um dos exemplos mais famosos de teorias da conspiração no Brasil. Com o tempo, o texto passou a ser compartilhado de forma satírica, servindo para retratar outros fracassos do Brasil na Copa do Mundo, por exemplo, assim como eventos sem ligação com o futebol. A ESPN e a Sportv, entre outros, chegaram a fazer reportagens sobre essa corrente de e-mails. Contudo, 22 anos depois, usuários de redes sociais continuam compartilhando versões desse texto como se fossem verdadeiras.

Versão atual

O texto falso sobre Sérgio Moro usa a mesma estrutura, e até alguns personagens, que o e-mail compartilhado por Gunther em 1998. A corrente atual apenas altera as informações para o suposto contexto em que Moro teria vendido inquéritos à João Doria. A frase supostamente dita pelo meio-campista Leonardo foi, agora, atribuída ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Não há qualquer registro público de que o presidente tenha afirmado que “se as pessoas soubessem o que aconteceu no Ministério da Justiça, ficariam enojadas”.

Já os jornais internacionais que teoricamente estariam investigando o caso são os mesmos citados na publicação original, incluindo a Gazzeta dello Sport, um veículo italiano que cobre apenas esporte. As propinas recebidas para perder o mundial e para vender inquéritos também se repetem. Os US$ 23 milhões que teriam sido pagos aos jogadores pela Nike deram lugar à mesma cifra supostamente paga a Moro por meio de empresas de Doria. 

Outras coincidências se mantêm. Um exemplo é o horário em que o ex-jogador Ronaldo teria afirmado à imprensa que não participaria da Copa por descobrir o esquema de corrupção: 13h30. A corrente mais recente também diz que o ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem foi informado da venda de inquéritos e pediu exoneração do cargo em anúncio à imprensa às 13h30. Na verdade, a exoneração de Ramagem se deu após ter sido indicado por Bolsonaro para assumir o comando da Polícia Federal. No conteúdo falso, até mesmo o nome do suposto representante da Nike, Ronald Rhovald, foi mantido, agora como “representante da CIA no Brasil”. 

Adaptada do mundo do esporte, outras correntes circulam pelas redes sociais usando a mesma estrutura e alguns dos personagens. Em 06 de junho, por meio do formulário de sugestões #LupaAqui, leitores pediram para a Lupa checar outro conteúdo falso que usa estrutura similar. Nesse, o jornalista e senador Jorge Kajuru (Cidadania/GO) teria declarado a frase “se as pessoas soubessem o que aconteceu em Juiz de Fora, ficariam enojadas”. O texto afirma que Bolsonaro forjou o atentado à faca contra si mesmo em setembro de 2018. Na assinatura, Gunther aparece como diretor de jornalismo da Reuters. Na realidade, quem ocupa o cargo é o americano Stephen Adler. 

Textos similares a este foram verificados por #FatoOuFake e Boatos.org.

Nota: esta reportagem faz parte do projeto de verificação de notícias no Facebook. Dúvidas sobre o projeto? Entre em contato direto com o Facebook.

Editado por: Chico Marés

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo