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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Desinformação sobre vacinas ganhou força no Brasil após anúncio de testes de produto chinês

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
09.jul.2020 | 18h10 |

O anúncio dos testes com uma vacina chinesa contra a Covid-19 no Brasil fez aumentar a desinformação sobre o tema nas redes sociais. Embora as imunizações já fossem assunto constante entre os conteúdos falsos que circulam relacionados ao novo coronavírus, a CoronaVac virou protagonista no último mês. Cerca de 40% das informações verificadas pela Lupa sobre vacinas na pandemia têm relação com ela.  

Essa onda de desinformação começou quando o governador João Doria (PSDB) anunciou, em 11 de junho, que o Instituto Butantan realizaria testes da CoronaVac no Brasil, em parceria com a farmacêutica Sinovac. Está prevista a participação de 9 mil voluntários na terceira e última etapa de testes clínicos da vacina. Caso ela se mostre eficaz e segura, o Butantan irá produzi-la.

Uma das teorias da conspiração mais compartilhadas sobre esse tema foi a de que Doria teria assinado o acordo com a empresa chinesa em agosto de 2019, ou seja, antes mesmo de o vírus ser descoberto. Conteúdos sugeriam que o tucano sabia tudo sobre a doença e faria parte de uma “conspiração chinesa”. A informação é falsa. O que o governador de São Paulo disse, de fato, é que a parceria entre o Instituto Butantan e a companhia chinesa se tornou possível por causa da abertura de um escritório comercial em Xangai, em 2019.

Outra publicação que viralizou afirmava que a Sinovac só tinha testado a vacina em macacos e usaria “9 mil paulistas como cobaias”. Na verdade, isso ocorreu nos ensaios pré-clínicos. Os testes clínicos, divididos em três fases, são feitos em humanos. As duas primeiras etapas estão sendo realizadas com voluntários na China e apenas a terceira fase será feita no Brasil

A Sinovac não foi a primeira empresa a anunciar que realizaria testes de uma vacina contra a Covid-19 no Brasil. Em 3 de junho, a Universidade Oxford, em parceria com a farmacêutica britânica AstraZeneca, confirmou a realização de ensaios clínicos da ChAdOx1 nCoV-19 no país. Mas poucos conteúdos falsos envolvendo essa vacina se espalharam pelas redes sociais, diferentemente do ocorrido com a parceria chinesa.

Conteúdos desinformativos sobre vacinas circulam no Brasil desde o início da pandemia. O primeiro boato a ser desmentido falava sobre uma organização britânica, o Instituto Pirbright, que já teria patenteado uma versão inativa do vírus em 2018. Na verdade, a patente em questão era de um “parente” do novo coronavírus que afeta somente aves. Essa mesma peça de desinformação apareceu também na Irlanda e na Índia.

Na época, a confusão entre o SARS-CoV-2 e outros tipos de coronavírus alimentou outras teorias da conspiração. Em março, circulou um vídeo no qual um usuário de redes sociais “provava” que o patógeno não era uma novidade, pois até mesmo seu cachorro tinha recebido uma vacina “contra coronavírus”. Logicamente, o novo coronavírus e o CCov, que afeta somente cachorros, não são a mesma coisa.

Também em março, uma suposta vacina cubana contra a Covid-19 que teria salvado 1,5 mil pessoas na China foi bastante comentada nas redes. Na verdade, a tal “vacina” era um remédio, chamado Interferon Alfa 2B – apenas um entre muitos medicamentos testados contra a Covid-19. A mesma publicação se espalhou em Portugal e na Espanha.

Brasil “importou” desinformação sobre vacinas dos EUA 

No mundo todo, desde janeiro, mais de 360 checagens foram publicadas sobre vacinas contra a Covid-19, em mais de 60 países. Os checadores dos Estados Unidos foram os que mais trabalharam neste tema. De janeiro a junho deste ano, foram ao menos 63 peças desmentidas, que vão desde uma imunização alemã que teria sido roubada por Donald Trump até uma vacina para bois que também funcionaria em seres humanos

Algumas das peças de desinformação que circularam no Brasil surgiram nos Estados Unidos, incluindo a teoria da conspiração envolvendo o Instituto Pirbright. Circulou ainda entre os norte-americanos que Israel teria uma vacina pronta contra a Covid-19, no mês de março. Essa peça de desinformação também foi “importada” para cá. Na verdade, um instituto de pesquisa israelense anunciou apenas que estava desenvolvendo uma imunização, sem apresentar qualquer resultado.

Em outras partes do mundo, testes com vacinas contra a Covid-19 foram alvo de desinformação. Em vários países da África, por exemplo, circulou em abril um boato dizendo que sete crianças morreram em Senegal após participarem de um ensaio clínico. Mas nenhuma imunização foi testada no país africano até o presente momento.

Ainda não existe uma vacina contra a Covid-19. Segundo o relatório mais recente da Organização Mundial de Saúde (OMS), publicado em 6 de julho, há 19 candidatas na fase de ensaios clínicos, ou seja, que já estão sendo testadas em humanos. Outras 130 estão em estudos pré-clínicos.

Apesar de ter ganhado força durante a pandemia, a desinformação sobre vacinas não é uma novidade no Brasil. Estudo publicado em novembro de 2019 pela Sociedade Brasileira de Imunizações, em parceria com a Avaaz, mostrou que aproximadamente 67% dos brasileiros acreditam em, pelo menos, uma informação falsa sobre vacinação. 

Esta coluna foi escrita pela Agência Lupa a partir das bases de dados públicas mantidas pelos projetos CoronaVerificado e LatamChequea Coronavírus, que têm apoio do Google News Initiative, e pela CoronaVirusFacts Alliance, que reúne organizações de checagem em todo mundo. A produção das análises tem o apoio do Instituto Serrapilheira e da Unesco. Veja outras verificações e conheça os parceiros em coronaverificado.news

Editado por: Chico Marés

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