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Lupa na Ciência: O que se sabe sobre a transmissão da Covid-19 pelo ar

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
13.jul.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Um grupo de pesquisadores publicou, na última semana, uma carta aberta direcionada a entidades de saúde com evidências de que o novo coronavírus pode permanecer no ar em microgotículas e contaminar outras pessoas
  • Até então, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e outras autoridades de saúde reconheciam apenas gotículas maiores, expelidas por tosse ou espirro, e contaminação de superfícies como vias de transmissão da doença
  • A OMS disse que vai revisar os estudos sobre assunto para avaliar se passa a considerar essa uma forma de transmissão significativa na atual pandemia
  • Caso positivo, é possível que a entidade mude algumas diretrizes de mitigação e passe a incluir medidas mais restritivas em locais fechados.

Na última semana, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a admitir, após o apelo de centenas de pesquisadores em todo o mundo, que não se pode descartar a possibilidade de o novo coronavírus ser transmitido pelo ar. A entidade disse que irá analisar as novas evidências que vêm sendo reunidas sobre possibilidade de que a taxa de contaminação por micropartículas que flutuam no ar seja significativa na atual pandemia. Até então, a OMS considerava o contato com superfícies contaminadas e gotículas por tosse e espirro como as principais vias de dispersão do vírus. 

O pedido veio a partir de uma carta aberta, publicada em 6 de julho no periódico Clinical Infectious Diseases, dirigida a autoridades internacionais de saúde pública. Assinada por 239 especialistas de 32 países, entre eles virologistas, físicos, químicos e epidemiologistas, o documento alerta para a necessidade de mudança nos protocolos de contenção do vírus, principalmente os que dizem respeito aos cuidados em lugares fechados. 

Até a publicação desta carta, a OMS e autoridades de saúde de diversos países, incluindo o Brasil, argumentavam que o coronavírus se espalhava principalmente pelas grandes gotículas respiratórias (com cerca de 500 micrômetros de diâmetro). Essas, uma vez expelidas por pessoas infectadas ao tossir ou espirrar, caem rapidamente e se grudam em superfícies. Por isso, as medidas para contenção da pandemia indicadas por essas autoridades são a higiene constante das mãos (para evitar contaminação pelo contato), o uso de máscara e o distanciamento de 2 metros, já que essa seria a distância máxima que essas grandes partículas podem percorrer.

Contudo, neste novo documento, os especialistas sugerem que o novo coronavírus pode ser transportado também, de forma viável (ou seja, permanecendo ativo e com potencial de infecção), por gotículas muito menores (com menos de 5 micrômetros). Essas micropartículas são expelidas não somente quando uma pessoa sintomática tosse ou espirra, mas também quando aqueles com ou sem sintomas respiram ou falam. Também chamadas de aerossóis, elas são tão leves que permanecem flutuando no ar por mais tempo e se dispersam por longas distâncias. Em estudos experimentais, foi comprovado que elas ficam de 3 a 4 horas flutuando no ar, podendo viajar por dezenas de metros. 

Essa capacidade do vírus de permanecer vivo por mais tempo no ar seria, segundo os pesquisadores, uma das características que o torna mais contagioso, e poderia justificar por que ele se espalhou tanto e tão rapidamente. Além disso, poderia ajudar a entender o início de alguns pequenos surtos de contaminação, como os que ocorreram em frigoríficos e igrejas em alguns países.  A OMS só reconhece casos de transmissão desse tipo em alas de hospitais com procedimentos geradores de aerossóis. Por isso, recomendam o uso de máscaras N95 para profissionais da sáude. Mas até então esses eram considerados casos muito específicos. Agora, os especialistas defendem que isso pode ocorrer de forma mais ampla. 

  Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores citam alguns estudos retrospectivos com outros coronavírus, como por exemplo aqueles realizados após a epidemia de SARS-CoV-1 e MERS-CoV, demonstrando que a transmissão aérea era o mecanismo mais provável que explicaria as contaminações. Em relação ao SARS-CoV-2, os cientistas ilustram a questão a partir de um estudo de caso ocorrido em um restaurante chinês, em que um indivíduo infectado parece ter contaminado outras cinco pessoas de duas famílias diferentes. As câmeras do estabelecimento não indicaram evidências de contato direto ou indireto entre os três grupos, mas conseguiu modelar como a transmissão do vírus poderia ter ocorrido pelo ar. O paciente já contaminado teria liberado o vírus em micropartículas no ar por meio da respiração e da fala. Essas micropartículas teriam se espalhado pelo ambiente por causa do sistema de ar-condicionado do local.

Especialistas apontam a necessidade de mudanças

Uma das questões que ainda não está clara é com que frequência alguém pode se contaminar dessa forma. Também não se sabe se esse modo de contaminação é significativo quando comparado com as demais vias de contaminação já conhecidas. Um estudo anterior, publicado em maio na The Lancet Respiratory Medicine, avaliou que uma pessoa infectada com o SARS-CoV-2 pode liberar em um minuto de fala mil micropartículas (aerossóis) no ar. Já uma tossida pode gerar cerca de 3 mil gotículas com um vírus. Como os aerossóis são menores, eles contêm muito menos vírus do que as gotículas maiores. Já se sabe que para uma pessoa se infectar com o novo coronavírus ela precisa entrar em contato com uma quantidade razoável do patógeno, e por isso ainda há dúvidas sobre a quantidade de aerossóis que alguém teria que inalar para se contaminar. 

Mesmo sem dados conclusivos, os especialistas decidiram publicar o documento por acreditar que já existem informações suficientes para levantar o alerta e mudar algumas diretrizes de proteção, principalmente no momento em que diversos países estão reabrindo seus comércios, restaurantes e escolas. Caso a transmissão por micropartículas realmente ocorra, os ambientes fechados seriam os mais afetados, principalmente porque há menos circulação de ar, e o distanciamento entre as pessoas acaba sendo menor. Por isso, os especialistas indicam novas precauções que devem ser tomadas e incentivadas pelos órgãos de saúde a fim de mitigar os riscos de transmissão. 

A primeira medida seria garantir ventilação suficiente e eficiente em lugares públicos. O ideal seria a implementação de ventilação com capacidade de filtrar o ar, mas outras medidas como manter as janelas abertas já ajudam. A instalação de mecanismos de controle de infecção aérea, como luzes ultravioletas germicidas, que destroem o material genético do vírus, também seria importante para neutralizar o vírus. Por fim, os especialistas sugerem que a OMS recomende evitar a superlotação, principalmente em transportes públicos e locais de grande circulação, como edifícios comerciais.

Em uma entrevista concedida na última semana, Tarik Jasarevic, porta-voz da OMS, afirmou que a organização considera a possibilidade da transmissão pelo ar, mas que a questão ainda não está apoiada em evidências sólidas. Por isso, a entidade está revisando suas diretrizes e deverá comunicar sobre possíveis mudanças nos próximos dias. Enquanto isso, de acordo com os autores da carta, as pessoas devem seguir considerando o distanciamento físico e a higienização das mãos como medidas importantes para evitar o contágio, mas não suficientes. Eles alertam que o uso de máscaras o maior tempo possível e o cuidado com a ventilação em locais fechados são igualmente importantes.

Fontes:

Clinical Infectious Diseases. Artigo disponível em:
https://academic.oup.com/cid/article/doi/10.1093/cid/ciaa939/5867798

Organização Mundial da Saúde. Documento disponível em:
https://www.who.int/news-room/commentaries/detail/transmission-of-SARS-cov-2-implications-for-infection-prevention-precautions

Ministério da Saúde. Documento disponível em:
https://coronavirus.saude.gov.br/sobre-a-doenca#transmissao

The Lancet Respiratory Medicine. Artigo disponível em:
https://www.thelancet.com/pdfs/journals/lanres/PIIS2213-2600(20)30245-9.pdf

New England Journal of Medicine.Artigo disponível em:
https://www.nejm.org/doi/10.1056/NEJMc2004973

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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