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Foto: LEGADO Lima 2019
Foto: LEGADO Lima 2019

Lupa na Ciência: Cérebro, rins, pele e coração também são alvos do novo coronavírus

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
15.jul.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Uma grande revisão de estudos sobre a Covid-19 comprovou que o novo coronavírus ataca direta e indiretamente diferentes órgãos do corpo humano, e que esta deve ser considerada uma doença multissistêmica
  • De acordo com os autores do artigo, alguns dos órgãos mais afetados pelo vírus, depois do pulmão, são coração, rins, pele e cérebro
  • Especialistas destacam que o novo coronavírus tem o potencial de infectar diretamente essas regiões do corpo, mas que algumas das manifestações da doença ocorrem em decorrência da resposta imunológica exacerbada do organismo ao tentar combater o vírus
  • As descobertas sobre os mecanismos de ação do vírus podem ajudar a aprimorar os tratamentos e a salvar vidas, dizem os autores da revisão

Desde o início da pandemia, médicos e profissionais da saúde observaram que a infecção pelo novo coronavírus causava danos muito mais amplos do que as síndromes respiratórias comuns, indicando que ela poderia afetar diversos órgãos do corpo humano além do pulmão. Essa suspeita foi reforçada por pesquisas ao longo dos últimos meses, e sintetizada em um artigo publicado na última semana na revista Nature Medicine. No estudo, feito por médicos da Universidade Columbia e outras instituições dos Estados Unidos, os especialistas apresentam a revisão mais completa sobre os efeitos extrapulmonares da Covid-19. A partir da análise de trabalhos e estudos de caso, identificaram que o novo coronavírus ataca praticamente todos os principais sistemas do corpo humano. Pele, intestino, cérebro e coração são alguns dos órgãos que podem ser afetados. Grande parte desses efeitos se dá porque o vírus se conecta a um receptor específico, o ECA2, que está presente em células do sistema respiratório, do intestino, dos rins e nos vasos sanguíneos. Nessas áreas, o efeito do invasor para destruir as células é direto e localizado. Porém, nessas e em outras regiões do corpo humano, a própria reação exagerada do organismo para tentar combater o vírus pode causar danos. 

Em um comunicado feito pelo grupo de pesquisa após a publicação do artigo, a cardiologista Aakriti Gupta, uma das coordenadoras do estudo, alertou: “Os médicos precisam entender que a Covid-19 é uma doença multissistêmica”. A Lupa reuniu algumas das principais conclusões da revisão nesta reportagem.

Coágulos sanguíneos resultam em danos a diversos órgãos

Uma das primeiras observações feitas por médicos em diferentes países foi o potencial do novo coronavírus de formar um número excessivo de coágulos no sangue dos pacientes infectados, gerando os mais variados quadros, como amputação de membros, embolia pulmonar, acidente vascular cerebral, entre outros. 

 De acordo com a revisão publicada na última semana, complicações decorrentes desses quadros alcançam taxas que variam entre 20% a 60% dos pacientes internados em estado grave. Isso ocorre por dois motivos principais: o primeiro é o ataque direto do vírus às células que revestem os vasos sanguíneos, ricas na proteína ECA2. Isso gera uma inflamação que resulta na formação dos coágulos. O segundo diz respeito à resposta exagerada do sistema imunológico, que leva a uma “tempestade” de citocinas (substâncias naturalmente produzidas para regular a ação imunológica). Essas, em excesso no organismo, também podem causar inflamações e resultar na formação de coágulos nos vasos, que acabam atrapalhando ou bloqueando a passagem do sangue. 

 Há uma série de estudos em andamento com medicamentos anti-coagulantes e anti-inflamatórios que buscam definir qual é a melhor forma de utilizá-los no tratamento de pacientes infectados pelo novo coronavírus. Até agora, a droga que se mostrou mais eficaz para conter essa reação, em casos graves da doença, é o corticoide dexametasona. A cardiologista Aakriti Gupta explica, no entanto, que o vírus atua de muitas outras formas no organismo, e é preciso aprofundar os estudos sobre elas. “Há muitas informações sobre os processos de coagulação relacionados à Covid-19, mas é igualmente importante entender que uma porcentagem grande de pacientes sofre também de problemas direto nos rins, no coração, no cérebro, e que as equipes médicas precisam tratar essas condições junto com as demais”, comentou.

Sistema nervoso central tem sido alvo comum do SARS-Cov-2

Assim como já havia sido registrado nos surtos das síndromes respiratórias aguda grave (SARS) e do Oriente Médio (MERS), ambas com tipos diferentes de coronavírus, o SARS-Cov-2 também traz consequências para o sistema nervoso. Atualmente, mais de 300 estudos avaliam esses efeitos, e já indicam que entre os sintomas leves mais comuns estão dores de cabeça, perda de olfato (anosmia) e sensações de formigamento. Já nos casos mais graves, são relatados quadros de confusão mental, derrames e convulsões.  No final de junho, um artigo publicado na revista Annals of Neurology indicou que cerca de 30% a 40% dos infectados podem desenvolver sintomas neurológicos. De acordo com a atual revisão, acidentes vasculares cerebrais (AVC) causados por coágulos sanguíneos ocorrem em até 6% dos casos graves, e quadros de confusão mental foram relatados em até 9%. Além disso, os estudos identificaram que os distúrbios cerebrais graves desencadeados pelo coronavírus são capazes de afetar até mesmo aqueles que mostram apenas sintomas leves da Covid-19. 

Pesquisadores já encontraram diferentes formas de o novo coronavírus afetar o sistema nervoso, e chegaram a elaborar um esquema de classificação chamado “NeuroCovid”, em que exemplificam como o patógeno pode interferir nessa região. Elas vão desde o acesso do vírus ao sistema nervoso central por meio da mucosa nasal até sua entrada no núcleo desse sistema por meio de danos na barreira hematoencefálica, que é a camada protetora da massa cinzenta.

Coração e rins podem ser atacados de diferentes maneiras 

A inflamação sistêmica que ocorre em alguns casos também afeta e danifica o músculo cardíaco. Mas as consequências do SARS-Cov-2 tanto ao coração quanto aos rins também têm causas diretas. Acredita-se que isso ocorre porque esses órgãos possuem grande quantidade da proteína ECA2, facilitando o alojamento do vírus nesses locais. 

Estudos apontaram a incidência de complicações cardíacas em entre 20% a 30% dos pacientes hospitalizados com a Covid-19, e em até 55% daqueles com doenças cardiovasculares pré-existentes. Contudo, de acordo com a cardiologista Aakriti Gupta, até o momento “não se sabe com clareza” como funciona essa interação entre o vírus e as células do tecido cardíaco.

 A revisão indicou, ainda, que o novo coronavírus está causando insuficiência renal aguda a uma taxa surpreendentemente alta dos pacientes internados. Estudos preliminares estimam que entre 14% e 30% dos que apresentam quadros mais severos da doença sofrem com esse sintoma. Nos casos em que houve danos renais, uma taxa de 5% a 10% dos pacientes precisou de diálise, o que é, segundo os autores, também um número muito alto. Em pesquisas feitas diretamente no tecido renal, especialistas encontraram indícios de que o vírus tenha penetrado diretamente no órgão, porém ainda são necessários mais estudos para precisar a sua ação na região. 

Distúrbios gastrointestinais se tornaram sintomas comuns

Uma das constatações mais recentes é que o novo coronavírus pode afetar direta ou indiretamente o trato gastroinstestinal. Ao longo dos últimos meses, sintomas como náusea, vômitos, dor abdominal e anorexia vêm sendo relatados por pacientes com a Covid-19.  De acordo com a revisão da revista Nature Medicine, a incidência dessas manifestações variou entre 12% a 61% nos diferentes estudos, e esteve associada a uma maior duração da doença, mas não a um aumento na mortalidade. Sintomas graves nessas regiões, como sangramento gastrointestinal, foram raramente observados.  Os motivos que levam a esses quadros, segundo os autores, são multifatoriais. Acredita-se que o vírus pode causar um dano direto na região gástrica, já que são encontradas proteínas ECA2 nas células glandulares do intestino. Além disso, a resposta imunológica exacerbada do corpo ao novo coronavírus seria outra causa de inflamações e complicações na região. A revisão dos estudos também gerou um alerta: pesquisas identificaram a presença do vírus em fezes de pessoas contaminadas, e mesmo naquelas que já estavam recuperadas da doença. Essas descobertas devem ser estudadas mais a fundo para se entender se esta é uma forma de transmissão da Covid-19. 

Coronavírus pode deixar marcas na pele

Seja por meio de frieiras, pequenas bolhas, manchas, lesões avermelhadas ou urticária, o novo coronavírus parece estar causando reações também na pele. Um desses sintomas, que têm despertado a curiosidade de pesquisadores, foi chamado de “dedos de Covid”. Trata-se de uma erupção cutânea que aparece nos pés dos pacientes, mesmo na ausência de outros sintomas. Segundo os médicos que observaram essa manifestação, elas tendem a aparecer em pessoas mais jovens e duram vários dias. As informações sobre esse quadro ainda são escassas, mas há vários estudos em andamento.  

Outras manifestações dermatológicas a partir da infecção pelo novo coronavírus foram relatadas em pesquisas de diferentes países, porém ainda sem resultados conclusivos. Um deles, publicado no Journal of the European Academy of Dermatology, que apontou a incidência de problemas na pele em 20% dos pacientes hospitalizados. Ainda não se sabe o que leva a esses quadros, mas os especialistas acreditam que isso pode ser resultado do processo inflamatório do corpo. Existe a possibilidade, também, de que problemas dermatológicos sejam uma consequência do uso de alguns medicamentos que vêm sendo testados para tratar a doença. 

Na conclusão da revisão, os autores alertam que ainda há muitas questões importantes a serem esclarecidas sobre o novo coronavírus, e que são necessárias diretrizes e padrões comuns nas práticas de pesquisas em diferentes partes do mundo a fim de se chegar a resultados cada vez mais precisos, com qualidade e confiabilidade. Só dessa forma, explicam, será possível ter sucesso global no combate à atual pandemia. 

Fontes:

Nature Medicine. Artigo disponível em:
https://www.nature.com/articles/s41591-020-0968-3.pdf

Journal of the European Academy of Dermatology. Artigo disponível em:
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/jdv.16387

Journal of the American College of Cardiology. Artigo disponível em:
https://www.onlinejacc.org/content/75/23/2950

Annals of Neurology. Artigo disponível em:
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/ana.25807

Journal of Alzheimer’s Disease. Artigo disponível em:
https://content.iospress.com/articles/journal-of-alzheimers-disease/jad200581

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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