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#Verificamos: É falso que pacientes ‘trancados em casa’ se reinfectam com o próprio vírus

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
15.jul.2020 | 18h04 |

Circula nas redes sociais um texto que critica medidas de quarentena contra a Covid-19. A mensagem afirma que seria mais aconselhável a população circular livremente pela rua do que ficar em isolamento social. Segundo o autor do post, permanecer em casa resulta no aumento da carga viral absorvida, gerando uma “superdosagem” do novo coronavírus que tornaria a doença mais grave ou fatal. Fora de casa, por sua vez, o vírus circularia em baixa quantidade, o que imunizaria a população. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

 

“É tão óbvio isso e a Itália foi a maior prova de que as pessoas trancadas em casa respiram o próprio vírus aumentando a carga viral da Covid-19 gerando uma espécie de superdosagem, tornando a gripe chinesa que era leve em grave ou fatal”
Legenda de imagem em post publicado no Facebook que, até às 16h do dia 15 de julho de 2020, tinha sido compartilhado por quase 200 pessoas 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Segundo o pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e secretário da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, André Siqueira, essa afirmação não tem qualquer embasamento científico. “A pessoa não fica se reinfectando novamente [por ter contato com o vírus que ela mesmo expeliu], isso não leva a um aumento na carga viral”, afirma. 

Após a infecção, o novo coronavírus começa a se reproduzir dentro do corpo humano. Em uma primeira etapa, que dura alguns dias, a pessoa fica num estágio “pré-sintomático”, ou seja, ela não desenvolve sintomas da doença. Contudo, o vírus se reproduz dentro do corpo e a carga viral, ou a quantidade de vírus no organismo, aumenta nesse período. Ao longo do tempo, o sistema imunológico começa a reduzir a quantidade de vírus no organismo ao produzir anticorpos para combatê-lo.

O pesquisador ressalta que a carga viral no organismo depende de diversos fatores. Entre essas variantes, Siqueira cita o sistema imunológico do paciente, fatores genéticos e a quantidade de vírus que, inicialmente, infectou a pessoa. 

A quantidade de carga viral não é, tampouco, o único fator que determina a gravidade da doença. Estudo publicado na revista Annals of Internal Medicine demonstrou que não há diferença na carga viral entre pacientes assintomáticos e pacientes com sintomas graves. Outro estudo, da Universidade de Nova York, mostrou que pacientes em estado grave foram infectados inicialmente com uma carga viral menor, e não maior, do que os pacientes que tiveram sintomas leves ou moderados.

O texto que circula pelo Facebook cita a Itália, afirmando que o país teria adotado a quarentena e que infectados que permaneceram dentro de caso teriam aumentado a sua carga viral. No final de junho, um estudo feito pesquisadores italianos mostrou que pacientes examinados em maio tinham menos partículas do vírus do que aqueles atendidos em abril, um mês antes. Os pesquisadores teorizam que as medidas de isolamento podem ter diminuído a exposição dos pacientes ao vírus, o que contribuiu para uma carga viral inicial menor nos examinados.

Por fim, duas semanas após impor medidas severas de isolamento, a Itália interrompeu o avanço da doença no país. Em 22 de março, o país atingiu o pico da pandemia, chegando a 6.557 casos diários. Um mês depois, em 23 de abril, o número de casos caiu pela metade, para 2.779. Em 15 de julho, apenas 114 novos casos foram registrados.


Diferente é quando as pessoas estão circulando livremente, pois neste caso o vírus é disseminado em baixa quantidade em todos os locais contaminando minimamente todas as pessoas que se tornarão imunes com o decorrer do tempo através de uma contaminação leve, com baixa carga viral. Reafirmo o que digo a muito tempo, a quarentena mata!”
Legenda de imagem em post publicado no Facebook que, até às 16h do dia 15 de julho de 2020, tinha sido compartilhado por quase 200 pessoas 

FALSO

O pesquisador da Fiocruz André Siqueira afirma que o texto que circula pelo Facebook “não tem o menor fundamento” científico. Quando um indivíduo entra em contato com o novo coronavírus – mesmo que seja com uma carga viral baixa – o vírus entra no organismo e se multiplica. O paciente pode ou não desenvolver a doença. Como dito anteriormente, não há nenhuma evidência de que pessoas que se contaminam com uma carga viral baixa desenvolvam sintomas mais leves da Covid-19.

Junto com o texto, o usuário publicou uma imagem de uma reportagem que falava sobre “imunidade de rebanho”, muito usada para amparar o discurso de que o isolamento social não seria uma medida adequada atualmente. O termo “imunidade de rebanho” significa que uma parcela da população desenvolve anticorpos contra uma determinada doença, o que reduz e eventualmente impede a transmissão do vírus em uma comunidade. Especialistas acreditam que pelo menos 40% da população precisa ter os anticorpos do vírus para que essa imunidade de rebanho seja alcançada. 

Até o momento, autoridades apontam que nenhum país conseguiu atingir a imunidade de rebanho. O diretor do departamento de doenças transmissíveis da Organização Pan-americana da Saúde (Opas), Marcos Espinal, citou especificamente o caso do Brasil e da cidade de Manaus (AM). Segundo Espinal, uma pesquisa feita na capital do Amazonas, um dos primeiros focos da pandemia no país, mostrou que a prevalência de anticorpos na população é inferior ao que se espera para caracterizar essa situação. 

Enquanto essa imunidade coletiva não for alcançada, “circular livremente” colabora para o aumento de casos e óbitos da Covid-19, além de impactar nos sistemas de saúde que já estão sobrecarregados. Por essa razão, a recomendação das autoridades de saúde é manter o distanciamento social. Na última segunda-feira (13), o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, criticou governos por adotarem o retorno das atividades. “Não haverá retorno ao antigo ‘normal’ no futuro próximo. Mas há um roteiro para uma situação em que podemos controlar a doença e seguir com nossas vidas”, disse.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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