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Lupa na Ciência: Estudo mostra que grávidas são mais suscetíveis a sintomas graves da Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
17.jul.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Pesquisa americana apontou que mulheres grávidas tendem a desenvolver quadros mais graves da Covid-19 quando comparadas àquelas que não estão no período gestacional
  • Outros dois estudos, realizados nos Estados Unidos e na França, trouxeram fortes indícios de que a transmissão vertical da doença (da mãe para o feto) pode ocorrer, mesmo que raramente
  • Um quarto estudo, feito no Brasil e publicado em uma revista internacional, indicou que a taxa de mortalidade das brasileiras grávidas e puérperas contaminadas com o novo coronavírus é a mais alta do mundo
  • Os dados sobre a influência do novo coronavírus nestes grupos ainda são escassos, mas o que já se sabe sobre o assunto reforça a necessidade de um cuidado maior com as medidas protetivas durante e logo após a gestação

Quatro estudos publicados nas últimas semanas avaliaram o impacto do novo coronavírus em gestantes, puérperas e recém-nascidos. Infelizmente, essas pesquisas confirmam que, por mais de um motivo, mulheres grávidas devem ser consideradas um grupo de risco da Covid-19. Um dos estudos demonstrou que elas são consideravelmente mais suscetíveis aos quadros mais graves da doença, quando comparadas a pessoas da mesma faixa etária. Outras duas pesquisas demonstraram que existe a possibilidade de transmissão vertical do SARS-CoV-2 – isto é, uma gestante pode transmitir a doença para o feto. Por fim, um levantamento mostrou que o Brasil é o país onde mais mulheres grávidas morrem de Covid-19 no mundo.

Por ser uma doença nova, os dados sobre a influência da Covid-19 nas gestantes ainda são escassos, mas os estudos já começam a apontar uma tendência. Um deles, publicado no relatório semanal do Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, apresentou evidências de que as grávidas tendem a desenvolver quadros mais graves da doença. Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores avaliaram dados de mais de 8 mil pacientes gestantes e de 83 mil voluntárias não grávidas com idades entre 15 e 44 anos. Todas essas mulheres contraíram a Covid-19 nos Estados Unidos entre janeiro e junho de 2020. 

De acordo com os pesquisadores, dois importantes indicativos de quadros severos de Covid-19 foram registrados em uma porcentagem maior de gestantes quando comparados ao outro grupo. 1,5% das grávidas com Covid-19 tiveram que ser admitidas em unidades de tratamento intensivo (UTIs), e 0,5% precisaram de respiradores mecânicos. Entre as outras pacientes, esses porcentuais foram de 0,9% e 0,3%, respectivamente.

Esse foi um dos primeiros estudos que encontraram uma diferença significativa na gravidade da doença entre os dois grupos. Por isso, os próprios autores alertam que mais pesquisas são necessárias para confirmar essa tendência. No entanto, os números mostram que grávidas devem estar cientes dos potenciais riscos de contrair a doença, e por isso devem tomar as devidas precauções.

Vestígios do SARS-Cov-2 são encontrados na placenta

Outra questão que debatida por especialistas é a possibilidade da transmissão intrauterina da doença, ou seja, de uma mãe para filho, ainda durante a gestação. Em uma revisão de estudos sobre os efeitos do novo coronavírus publicada no início de julho na revista Nature Medicine, os autores já haviam dito que esse tipo de transmissão não poderia ser descartado, já que há dezenas de relatos de casos de bebês que testaram positivo para a Covid-19 logo após o nascimento. A dúvida era se essa contaminação ocorria ainda dentro da mãe ou somente durante o parto. 

No dia 10 de julho, um artigo publicado no The Pediatric Infectious Disease Journal indicou, pela primeira vez, vestígios do vírus na placenta da mãe, o que “sugere fortemente” que a infecção foi transmitida no útero, de acordo com os pesquisadores do Centro Médico do Sudoeste da Universidade do Texas. “Nosso estudo é o primeiro a documentar a transmissão intrauterina da infecção durante a gravidez, com base em evidências imuno-histoquímicas e ultraestruturais da infecção por SARS-CoV-2 nas células fetais da placenta”, comentou a médica Amanda Evans, uma das autoras da pesquisa. 

Os pesquisadores analisaram um caso de uma mulher de 37 anos, diagnosticada com Covid-19, e seu filho recém-nascido. Durante toda sua estadia no hospital, inclusive durante o parto, seu trato respiratório foi isolado com uma máscara retangular, e não houve contato da sua saliva com o bebê. Contudo, a criança, que nasceu prematura, testou positivo para o novo coronavírus em dois testes, realizados 24 horas e 48 horas depois do nascimento. Os médicos encontraram vestígios do SARS-CoV-2 na placenta – mais uma pista de que a doença pode ter sido transmitida ainda no útero. O recém-nascido foi internado em uma UTI e chegou a apresentar febre e dificuldade de respirar. Felizmente, ele sobreviveu.

Alguns dias depois da divulgação desse estudo, outro grupo de pesquisadores publicou conclusões semelhantes. Disponível na revista Nature Communications, a pesquisa foi feita a partir do nascimento de um bebê cuja mãe havia se contaminado no último trimestre da gestação, na França. Os pesquisadores demonstraram por investigações virológicas e patológicas que a contaminação ocorreu dentro do útero. Logo, a soma das evidências que se tem até o momento indica que, ainda que rara, esta é uma forma viável de transmissão da doença. 

Gravidas brasileiras morrem mais

Também no início de julho, uma pesquisa nacional, publicada no periódico International Journal of Gynecology and Obstetrics, trouxe mais um sinal de alerta para as gestantes brasileiras. Os pesquisadores avaliaram todos os casos de grávidas e puérperas contaminadas pela Covid-19 registrados no país de 26 de fevereiro de 2020 a 18 de junho de 2020, usando um sistema de monitoramento do Ministério da Saúde, o SIVEP-Gripe (Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe). No total, o estudo incluiu 978 voluntárias, mas os autores alertaram que esse número, por causa da subnotificação, não representa a soma de todos os casos. O Brasil atualmente não possui uma política universal de testes para a população obstétrica, então somente as mulheres com sintomas graves são testadas. 

No grupo avaliado, foram registradas 124 mortes. Isso significa que a taxa de mortalidade atual é de 12,7% na população obstétrica brasileira, um número muito superior às taxas relatadas até o momento na literatura em outros países. Mesmo que essa taxa seja relativizada devido à subnotificação, ainda parece ser a mais elevada do mundo. 

A maior parte das mortes aconteceram durante o puerpério, ou seja, até 42 dias depois do nascimento do bebê, e não na gestação, alerta a publicação. De acordo com os autores do estudo, o risco aumentado pode estar relacionado à imunodeficiência relativa associada a adaptações fisiológicas maternas, mas também a fatores como o atendimento pré-natal de baixa qualidade, falta de recursos para cuidados críticos e de emergência, disparidades raciais no acesso aos serviços de maternidade, entre outras barreiras adicionais que agravam o quadro no Brasil. Mais um motivo para os cuidados redobrados durante a gestação neste período de pandemia.

Grupo de risco

Em abril – antes, portanto, de essas pesquisas serem publicadas –, gestantes e puérperas foram incluídas no grupo de risco para Covid-19 pelo Ministério da Saúde. Estudos clínicos anteriores à Covid-19 já mostravam que mulheres grávidas tinham mais risco de desenvolver outras infecções do trato respiratório. O sistema imunológico sofre alterações durante o período gestacional, e pode continuar menos agressivo até seis semanas depois do parto. Além disso, a própria mudança física no corpo da mulher pode deixá-la mais vulnerável. À medida que o útero cresce, ele pressiona outros órgãos e diminui a capacidade de expansão da cavidade torácica – o que pode agravar quadros de dificuldade respiratória. 

Fontes:

Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Artigo disponível em:
https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/69/wr/pdfs/mm6925a1-H.pdf

 

Nature Medicine. Artigo disponível em:
https://www.nature.com/articles/s41591-020-0968-3.pdf

Nature Communications. Artigo disponível em:
https://www.nature.com/articles/s41467-020-17436-6.pdf

The Pediatric Infectious Disease Journal. Artigo disponível em:
https://journals.lww.com/pidj/Abstract/9000/INTRAUTERINE_TRANSMISSION_OF_SARS_COV_2_INFECTION.96099.aspx

International Journal of Gynecology and Obstetrics. Artigo disponível em:
https://obgyn.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/ijgo.13300

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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