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#Verificamos: É falso que Emílio Odebrecht disse que ‘não havia brechas para propinas’ durante a ditadura

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
17.jul.2020 | 17h49 |

Circula pelas redes sociais que o empresário Emílio Odebrecht disse, em delação premiada, que “nunca ganhou um centavo” ilegalmente durante a ditadura militar, de 1964 a 1985. Emílio é ex-presidente do Conselho de Administração da Odebrecht. No âmbito da Operação Lava Jato, ele foi um dos delatores dos esquemas de corrupção que a construtora Odebrecht manteve com o governo federal. Esse conteúdo, que já circulou no passado, foi compartilhado pelo ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) na última quinta-feira (16). Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:

“Nunca ganhei um centavo durante o governo dos militares, não havia como ganhar! Não havia brechas para propinas Dr… Certa vez foi propor a um major da cobal uma vantagem ele colocou um 38 em cima da mesa (risos).. Eu achei que iria morrer.. Eles eram assim Dr…. (risos)”
Texto publicado pelo ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) no Twitter que, até o dia 17 de julho, tinha sido retuitado por cerca de 750 pessoas

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Na delação que prestou ao Ministério Público Federal (MPF), em 2016, o empresário Emílio Odebrecht não afirmou que não recebeu propinas durante a ditadura militar. Em outro depoimento, em 2017, Odebrecht disse que esquemas de caixa-dois “sempre existiram”, desde a fundação da empresa, em 1944 – 20 anos antes do início da ditadura.

Ex-presidente do Conselho Administrativo da Odebrecht, o empresário prestou depoimento em dezembro de 2016 por causa de um acordo de delação premiada no âmbito da Operação Lava Jato sobre esquema de corrupção envolvendo a empreiteira e o governo federal. Em 2017, ele depôs como testemunha de defesa de seu filho, Marcelo Odebrecht, ex-presidente da organização e investigado pela Lava Jato. Em novembro de 2018, ele foi novamente interrogado  pela Lava Jato, desta vez sobre o caso do sítio de Lula em Atibaia. Em nenhum dos depoimentos ele negou a existência de corrupção na ditadura.

Nestes depoimentos, Emílio contou detalhes sobre sua relação com o governo durante a ditadura apenas uma vez, ao narrar uma conversa que teve com o então ministro-chefe do Gabinete Civil da Presidência, o general Golbery de Couto e Silva. Odebrecht conta que, na ocasião, procurou auxílio de Golbery para encaminhar questões referentes a um contrato com a União Soviética em Angola. O empresário acreditava que seria necessário o envolvimento de um espião do Exército para viabilizar o acordo. Golbery ocupou a pasta no governo de 1974 a 1981. 

Durante a delação prestada ao Ministério Público, Emílio mencionou que o sistema de corrupção é institucional no Brasil e existe há décadas. Já em 13 março de 2017, o empresário foi ouvido pelo ex-juiz Sérgio Moro como testemunha de defesa de seu filho, Marcelo Odebrecht, ex-presidente da organização e investigado pela Lava Jato. Nessa oportunidade, Emílio afirmou que o esquema de caixa dois sempre existiu na construtora, fundada em 1944. “Sempre existiu. Desde a minha época, da época do meu pai [Norberto, que presidiu a empresa durante todo o regime militar] e também de Marcelo”, diz.

O grupo Odebrecht, inicialmente uma construtora que, ao longo do tempo, expandiu sua atuação para outros setores, foi fundada em 1944 por Norberto Odebrecht, que dirigiu a companhia até 1991. Emílio, seu filho, e, posteriormente, Marcelo, seu neto, o sucederam. A empresa cresceu significativamente a partir dos anos 1970, durante a ditadura, quando ficou responsável pela reforma do Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, e pela construção da Usina Nuclear Angra I.

Ainda nos anos 1970, os primeiros casos de corrupção envolvendo a companhia vieram a público. Em 1978, uma reportagem do jornal alemão Der Spiegel denunciou um possível esquema de favorecimento em licitações envolvendo a Odebrecht na construção da usina de Angra. À época, uma Comissão Parlamentar de Inquérito foi instaurada para avaliar o envolvimento do ministro da Indústria e Comércio Ângelo Calmon de Sá no caso.

Este conteúdo falso circula desde 2017, época em que o depoimento de Emílio foi divulgado. Na época, foi averiguado por Boatos.org, E-Farsas e pela TV Band. Nesta quinta-feira (16), o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, resgatou a peça de desinformação em sua conta pessoal do Twitter. “Fui deputado federal a partir do General João Figueiredo, não havia corrupção. O vício da redemocratização foi a roubalheira. Ouçam Emílio Odebrecht”, disse.

A Lupa ligou para todos os telefones listados do PTB nacional e do diretório estadual do Rio de Janeiro. Também entrou em contato por Whatsapp com a secretaria de comunicação do partido. Contudo, não houve resposta. Após a publicação desta reportagem, Jefferson excluiu o tuíte. Esta checagem será atualizada caso Jefferson queira se pronunciar sobre o assunto. 

Atualização às 19h45 do dia 17 de julho: essa checagem foi atualizada para informar que Jefferson apagou o tuíte.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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