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Lupa na Ciência: Nova pesquisa indica que adolescentes podem ser um vetor importante na transmissão do novo coronavírus

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
22.jul.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Estudo realizado na Coréia do Sul indicou que crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos são vetores importantes na transmissão do novo coronavírus
  • Esta pesquisa se soma a outros estudos menores que indicam que a reabertura das escolas pode provocar novos surtos da doença 
  • No entanto, outras pesquisas têm apontado para o sentido oposto, indicando que em determinadas regiões, onde a taxa de contágio é baixa, a volta às aulas não representou um aumento de casos
  • De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o papel das crianças e adolescentes na transmissão da doença ainda é incerto, e a decisão de reabrir escolas deve levar em consideração dados epidemiológicos e condições sanitárias de cada região
  • No Brasil, onde a doença ainda não está controlada, oito estados preveem a volta às aulas presenciais nos próximos meses e o Amazonas autorizou a reabertura de escolas privadas no início de julho 

Enquanto diversos países seguem debatendo a possibilidade de reabertura das escolas, a ciência busca trazer respostas mais precisas sobre as implicações desse movimento na atual pandemia. Na última semana, um estudo realizado na Coreia do Sul trouxe mais elementos para o debate. Publicado no periódico Emerging Infectious Diseases, ele mostrou que crianças entre 10 e 19 anos podem espalhar o vírus na mesma intensidade que os adultos. Já aquelas com menos de 10 anos também são vetores da doença, mas ainda não está claro com qual intensidade. Os resultados, de acordo com os autores do estudo, sugerem que, à medida que as escolas forem reabrindo, há uma grande possibilidade de surgirem novos focos de contaminação.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores utilizaram o sistema de rastreamento de contatos para casos de coronavírus, que é muito eficaz no país. A Coreia do Sul é um dos países que têm mostrado uma política satisfatória e precisa no combate à pandemia, tanto pela testagem em massa quanto pelo rastreamento dos casos. No estudo, esse sistema ajudou a identificar as primeiras 5.706 pessoas que relataram sintomas de coronavírus entre janeiro e março, quando as escolas foram fechadas, e os 59.073 contatos desses pacientes. Os pesquisadores testaram todos aqueles que moravam junto com os contaminados, independentemente de terem apresentado sintomas. Já em relação aos milhares de contatos fora de casa, examinaram somente os que apresentaram sintomas. A seguir, dividiram todos em grupos conforme a faixa etária e avaliaram, estatisticamente, os que mais transmitiram a doença. 

A partir desses dados, crianças e adolescentes com entre 10 e 19 anos foram o grupo que mais transmitiu a doença fora do ambiente doméstico. Crianças menores, com entre 0 e 9 anos, tiveram as taxas de transmissão mais baixas. De acordo com os autores, isso significa que adolescentes podem ser um vetor mais significativo da transmissão do vírus do que adultos. Isso acontece porque nessa faixa etária há mais casos de assintomáticos, que podem circular e transmitir a doença sem saber que estão infectados. Além disso, segundo os pesquisadores, os adolescentes são quase tão desenvolvidos quanto uma pessoa adulta, porém possuem hábitos de higiene mais próximos aos de crianças, além de serem muito sociáveis. Apesar de o estudo ter avaliado os casos de contaminação depois do fechamento das escolas, os especialistas acreditam que os adolescentes continuaram interagindo com colegas após essa restrição. 

O estudo foi considerado um dos mais completos sobre o tema, já que outras pesquisas feitas até agora avaliaram grupos menores de voluntários. No entanto, os autores afirmam que existem algumas limitações nessa abordagem. Uma delas é que a primeira pessoa da família a desenvolver sintomas não é necessariamente a primeira a ser infectada, e por isso não há como afirmar com certeza qual foi a origem dos casos dentro do ambiente doméstico. Além disso, como as crianças também são menos propensas a apresentar sintomas do que os adultos, o estudo pode ter subestimado o número de crianças que iniciam a cadeia de transmissão em suas famílias.

Estudos apresentam resultados contraditórios

A publicação sul-coreana soma-se a dezenas de outras investigações sobre o mesmo tema. Contudo, há resultados contraditórios entre as publicações. Um dos estudos realizados recentemente foi feito na Alemanha, na cidade de Dresden e em duas localidades próximas, Bautzen e Gorlitz. Os pesquisadores do Hospital Universitário de Dresden analisaram amostras de sangue de 1.500 alunos (entre 14 e 18 anos) e 500 professores (entre 30 e 66 anos) colhidas em maio, mês em que as aulas foram reiniciadas na região. A pesquisa, que foi divulgada pela instituição – porém ainda não saiu publicada em revista científica mostrou que apenas 0,1%, ou 12 pessoas, apresentaram anticorpos contra o vírus – ou seja, foram infectadas antes ou durante a volta às aulas. A conclusão é de que não houve disseminação da Covid-19 com a reabertura das escolas. Reinhard Berner, um dos autores da pesquisa, ressaltou que o estudo é representativo para o estado da Saxônia, que tem um nível de contágio relativamente baixo em relação a outras partes do país, mas sugere que outros estados com baixas taxas de infecção também possam reabrir sem desencadear novos surtos.

Já em países e regiões com índices médios e altos de infecção, a abordagem deveria ser diferente, sugerem outros estudos. Um deles, publicado no final de junho na revista Science, indicou que uma criança é até três vezes menos susceptível à infecção pelo novo coronavírus, porém apresenta três vezes mais oportunidades de ser infectada e transmitir a doença. Isso ocorre por causa do seu comportamento e grau de sociabilidade em ambientes populosos, com as escolas. Com base em dados que foram coletados por meio de entrevistas realizadas em Wuhan e Xangai, além de análises estatísticas, os pesquisadores estimaram que, durante um surto em determinada região, fechar escolas não bastaria por si só para interromper os contágios, mas poderia reduzir o aumento de casos em cerca de 40% a 60% e retardar o curso da epidemia.

Outra pesquisa, realizada  pela Universidade de Genebra, na Suíça, e publicada na revista Emerging Infectious Diseases em 30 de junho, apontou para conclusões semelhantes a partir de outra metodologia. Os pesquisadores coletaram material da região nasofaríngea de 638 voluntários com idades inferiores a 16 anos. Destes, 23 (incluindo um bebê de uma semana) apresentaram resultado positivo para a Covid-19, sendo que 15 tinham sintomas como febre e pneumonia. O material coletado foi isolado e cultivado em laboratório. A partir desses dados, os autores do estudo concluíram que a carga viral (quantidade/concentração de vírus nos corpos) nas crianças era comparável à dos adultos no momento do diagnóstico. Assim, elas teriam a mesma capacidade de espalhar o vírus na comunidade. 

A própria experiência prática da reabertura das escolas tem gerado mais dúvidas do que certezas. Alguns países, como Dinamarca e Finlândia, reabriram as escolas com sucesso a partir da implementação de algumas medidas de segurança. Outros, como China e a própria Coreia do Sul, tiveram que voltar a fechá-las, devido ao aumento no número de casos.

Brasil ensaia volta às aulas mesmo sem ter controlado a pandemia

Enquanto as pesquisas apontam para diferentes caminhos, especialistas ao redor do mundo alertam que não se pode ignorar a possibilidade de aumento de transmissão da doença com a reabertura das escolas. O quão grande será, no entanto, ainda é incerto. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o papel de crianças na transmissão do vírus ainda não está totalmente esclarecido. Por isso a decisão de reabrir escolas deve ser tomada a partir da situação epidemiológica de cada região e das condições de segurança disponíveis em cada local. Entre elas, a possibilidade de afastar profissionais com idade superior a 60 anos, o uso de máscaras, distanciamento entre alunos, ventilação das salas de aula, entre outros. 

De fato, um levantamento feito pela Science Magazine, a partir da reabertura das escolas em países como África do Sul e Finlândia, sugeriu que algumas medidas, como manter grupos pequenos de estudantes em cada sala de aula, exigir o uso de máscaras e o distanciamento, podem ser bastante eficazes na contenção da propagação do vírus durante a volta às aulas. Além disso, eles alertam que a reabertura deve partir de uma análise da quantidade de vírus circulando na comunidade. 

No Brasil, onde a doença ainda está muito longe de ser controlada, a retomada das aulas está sendo planejada em diversos estados e municípios. Segundo levantamento da Federação Nacional de Escolas Particulares (Fenep), Acre, Alagoas, Distrito Federal, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e São Paulo pretendem retornar em agosto ou setembro. Marabá (PA) e Belém (PA) podem voltar nesse período também, enquanto no Rio de Janeiro (RJ) apenas as escolas particulares devem voltar em agosto. No Amazonas, o governo autorizou a retomada do funcionamento de creches, escolas e faculdades da rede privada desde o dia 6 de julho. 

Fontes:

Organização Mundial da Saúde (OMS). Informações disponíveis em:
https://www.who.int/news-room/q-a-detail/q-a-schools-and-covid-19

Emerging Infectious Diseases. Artigos disponíveis em:
https://wwwnc.cdc.gov/eid/article/26/10/20-1315_article
https://wwwnc.cdc.gov/eid/article/26/10/20-2403_article

Science Magazine. Artigos disponíveis em:
https://www.sciencemag.org/news/2020/07/school-openings-across-globe-suggest-ways-keep-coronavirus-bay-despite-outbreaks
https://science.sciencemag.org/content/368/6498/1481.full

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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