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Foto: Prefeitura de Suzano, Divulgação
Foto: Prefeitura de Suzano, Divulgação

Hidroxicloroquina é o remédio mais citado em peças de desinformação no mundo

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
23.jul.2020 | 08h00 |

Entre os medicamentos apontados como tratamentos para a Covid-19 em peças de desinformação, a cloroquina e a hidroxicloroquina foram os mais citados em todo o mundo. As bases de dados Coronavirus Facts Alliance e CoronaVerificado mostram que os checadores desmentiram 161 conteúdos falsos sobre remédios de janeiro até o dia 20 de julho. Desses, 31,7% envolviam essas duas substâncias, o equivalente a 51 conteúdos. 

Usadas no tratamento de malária, lúpus e artrite, a cloroquina e a hidroxicloroquina começaram a ser apontadas como alternativa contra o novo coronavírus em fevereiro. Os boatos continuam sendo compartilhados até hoje, especialmente no Brasil, mas tiveram mais força nos meses de março e abril. 

Checadores da Nigéria foram os primeiros a desmentir um boato de que a cloroquina seria a cura para a Covid-19. A informação partiu de um post publicado no Twitter pela revista “China Science” no dia 17 de fevereiro. O tuíte dizia que a droga teria “certo efeito curativo na Covid-19”, o que desencadeou uma série de comentários sobre o remédio na Nigéria. Perfis usaram a hashtag “chloroquine”, dizendo que ela iria curar a doença. 

A informação, no entanto, estava incorreta. Na verdade, pesquisas feitas na China mostraram que a cloroquina e a hidroxicloroquina conseguiam eliminar o novo coronavírus de culturas de células. Esse é um primeiro passo na pesquisa médica, mas não o ponto final. O fato de um remédio funcionar em uma cultura de células não significa que ele seja eficaz dentro do organismo. 

Em março, o médico francês Didier Raoult disponibilizou publicamente um polêmico pre-print (estudo sem revisão por partes, que não está apto para publicação), no qual mostrou dados do tratamento de 20 pessoas com hidroxicloroquina. Apesar de severas falhas metodológicas apontadas por outros cientistas, incluindo a exclusão de pacientes que reagiram mal, o medicamento virou uma bandeira política para os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Brasil, Jair Bolsonaro (sem partido).

Nas semanas seguintes, notícias falsas sobre a eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina ganharam força, e circularam nas mais variadas partes do mundo, incluindo França, Índia, Estados Unidos, Filipinas, Venezuela, Dinamarca, Reino Unido, Irlanda, México, Alemanha, Tanzânia e Canadá. O Brasil foi o terceiro país que mais desmentiu boatos sobre esses medicamentos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da França.

A partir de maio, contudo, diversos estudos clínicos, com testes duplo-cegos, mostraram a ineficácia dessas substâncias no tratamento da Covid-19. Um deles, publicado pelo periódico The New England Journal of Medicine, mostrou que a hidroxicloroquina é ineficaz como profilaxia. Outro, publicado pelo Annals of Internal Medicine, que o remédio não funciona no tratamento de pessoas não hospitalizadas. Pesquisas dos projetos Recovery Trials, da Universidade de Oxford, e do Solidarity Trial, da Organização Mundial da Saúde (OMS), sobre o uso da droga no tratamento de pacientes internados em estado grave, foram interrompidas porque o medicamento não mostrou resultado.

Desde então, no resto do mundo, a desinformação sobre esses medicamentos perdeu força. Em junho, informações falsas sobre esse assunto foram verificadas somente por checadores do Brasil e da França.

Por aqui, notícias falsas sobre a hidroxicloroquina continuaram sendo compartilhadas em julho. Somente na semana passada, a Lupa verificou três conteúdos. Um deles dizia que o governador da Bahia, Rui Costa, teria recolhido o medicamento de farmácias do estado e proibido seu uso. Outro, que pacientes diagnosticados com Covid-19 poderiam “pedir a cassação do CRM [registro no Conselho Regional de Medicina]” de profissionais que se recusassem a prescrever a droga. Uma terceira peça de desinformação dizia, entre outras coisas, que a OMS “proibiu” o remédio. Nenhuma dessas informações é verdadeira. 

Fakes sobre ivermectina começaram na Espanha, mas são destaque no Brasil

Enquanto a cloroquina e a hidroxicloroquina foram usadas em peças de desinformação ao redor do mundo, a ivermectina, outra droga sendo usada contra Covid-19 sem eficácia comprovada, é mais citada especificamente no Brasil. De 10 conteúdos falsos checados, seis são de plataformas brasileiras.

Contudo, o primeiro boato sobre esse medicamento apareceu na Espanha, no início de abril. O texto dizia que a ivermectina era capaz de matar o novo coronavírus em 48 horas, curando o paciente infectado da doença. A publicação distorcia informações de um estudo publicado pela Universidade Melbourne, realizado com células in vitro

No Brasil, a Lupa verificou outras peças de desinformação sobre a ivermectina. Uma delas afirmava que a Marinha do Brasil havia estabelecido um protocolo de tratamento da Covid-19 para uso domiciliar com esse remédio. Outra, que um estudo comprovou que o uso da droga estava relacionado à diminuição do número de infectados por Covid-19 em Natal (RN). Nada é verdadeiro.

Ainda não há um remédio comprovadamente eficaz contra o novo coronavírus. Porém, em junho, pesquisadores do Recovery Trial publicaram um pre-print citando potenciais benefícios no uso de dexametasona no tratamento de casos graves de Covid-19. Essa substância não atua diretamente contra o vírus, e, portanto, não cura a doença. Contudo, pode ajudar na modulação da resposta imune do organismo, evitando o fenômeno chamado “tempestade de citocinas” – uma resposta exagerada do sistema imunológico que causa danos ao próprio organismo.

Assim que essa notícia saiu, começaram a circular peças de desinformação tratando esse medicamento como a cura da Covid-19, o que não é verdade. Boatos desse tipo foram verificados na Itália, nas Filipinas e na Ucrânia, entre outros países.

Esta coluna foi escrita pela Agência Lupa a partir das bases de dados públicas mantidas pelos projetos CoronaVerificado e LatamChequea Coronavírus, que têm apoio do Google News Initiative, e pela CoronaVirusFacts Alliance, que reúne organizações de checagem em todo mundo. A produção das análises tem o apoio do Instituto Serrapilheira e da Unesco. Veja outras verificações e conheça os parceiros em coronaverificado.news

 

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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