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#Verificamos: É falso que hidroxicloroquina, defendida em vídeo por médica nos EUA, funcione contra Covid-19

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
29.jul.2020 | 14h34 |

Circula pelas redes sociais o vídeo com um depoimento de uma médica chamada Stella Immanuel em frente à Suprema Corte, em Washington, nos Estados Unidos. Cercada por outros médicos, ela defende na gravação o uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19. No depoimento, Immanuel diz que a cura da doença consiste em usar o remédio em conjunto com zinco e zithromax (azitromicina). A cena ocorreu em 27 de julho, em um evento organizado pelo grupo conservador Tea Party Patriots. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:

“Esse vírus tem cura e se chama hidroxicloroquina, zinco e zithromax (azitromicina)”
Frase da médica Stella Immanuel em vídeo publicado no Instagram, que, até as 13h30 de 29 de julho de 2020, tinha mais de 7,3 mil visualizações

FALSO

A afirmação da médica Stella Immanuel analisada pela Lupa é falsa. Não há cura para a Covid-19. Estudos científicos feitos com centenas de pacientes concluíram que a hidroxicloroquina não funciona contra a doença, sozinha ou em combinação com outras drogas. Essas pesquisas adotaram uma metodologia rigorosa para testar a eficácia do medicamento, que consiste no uso de três técnicas principais: randomização (ou seja, a escolha aleatória dos participantes que vão tomar o remédio), grupo controle (que não recebe a droga) e duplo-cego (quando não se revela aos envolvidos qual parte dos pacientes recebeu placebo e qual parcela foi, de fato, medicada).

O estudo mais recente, feito por brasileiros, foi publicado em 23 de julho no New England Journal of Medicine. Usando essa metodologia rigorosa, os cientistas recrutaram 667 pessoas em 55 hospitais, das quais 504 tiveram diagnóstico confirmado para Covid-19. Todos apresentavam sintomas leves ou moderados. Os pacientes foram divididos em três grupos: o primeiro recebeu hidroxicloroquina com azitromicina (217 pessoas, Grupo 1); outro foi tratado apenas com hidroxicloroquina (221 pessoas, Grupo 2); e o último tomou placebo, ou seja, não recebeu nenhuma droga (229 pessoas, Grupo 3). O índice de mortes ficou em 3% nos três grupos, ou seja, a hidroxicloroquina não fez nenhum efeito no tratamento.

O desempenho do medicamento em pacientes nos estágios iniciais da Covid-19 também foi analisado em um estudo randomizado e com duplo-cego publicado no Annals of Internal Medicine, em 16 de julho. Os cientistas tentaram identificar se a hidroxicloroquina conseguia reduzir a gravidade da doença em pacientes adultos. Participaram 491 pessoas nos Estados Unidos e no Canadá. Mais uma vez, não se encontrou qualquer benefício no tratamento com a droga. A hidroxicloroquina não contribuiu para aliviar a gravidade dos sintomas no grupo testado. 

Outra pesquisa, publicada no The New England Journal of Medicine, em 3 de junho, avaliou a adoção da hidroxicloroquina para prevenir a infecção do novo coronavírus. A análise contou com 821 participantes nos Estados Unidos e no Canadá. Os resultados, também randomizados e com duplo-cego, mostraram que a droga não conseguiu evitar que as pessoas ficassem doentes quando expostas a um risco moderado ou alto de contágio. 

Casos graves

Estudos também comprovaram que a hidroxicloroquina não ajuda a tratar casos graves do novo coronavírus. Um dos maiores ensaios clínicos que estão sendo realizados para identificar possíveis tratamentos para a Covid-19 chegou a essa conclusão em 5 de junho. O projeto Recovery, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, anunciou que não encontrou nenhum benefício no uso da hidroxicloroquina contra a doença em pacientes hospitalizados e suspendeu os testes com o remédio. Não houve nenhuma diferença na taxa de mortalidade. A conclusão veio da análise de 1.542 pacientes tratados com a droga, ao lado de outros 3.132 que tiveram o tratamento hospitalar padrão. Os resultados ainda não foram publicados.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) também suspendeu um grande estudo sobre a eficácia do medicamento, após a divulgação das conclusões do Recovery de que a hidroxicloroquina não reduz as mortes dos infectados pelo novo coronavírus. Posteriormente, pesquisadores encerraram testes com o medicamento de forma definitiva

Em 15 de junho, a Food and Drug Administration (FDA), que regula o uso dos medicamentos nos Estados Unidos, retirou a autorização para uso de emergência da droga em pacientes hospitalizados. Segundo informações disponíveis na página do órgão, a decisão baseou-se no resultado de um estudo randomizado que comprovou a ineficácia do remédio.

Essa afirmação também foi desmentida por Politifact, FactCheck.org e AFP.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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