A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

#Verificamos: É falso que real será substituído por moeda chamada DIM

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
29.jul.2020 | 11h27 |

Circula pelas redes sociais que o real deixará de existir em 30 de novembro de 2020 e será substituído por uma nova moeda, chamada DIM. A publicação indica ainda que esta seria uma estratégia de Jair Bolsonaro (sem partido) para “acabar com a corrupção”, já que todo o dinheiro sem comprovação de origem deverá ser confiscado. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:

“Art. 2º O Real, a partir de 30 de novembro de 2.020 deixará de integrar o Padrão Monetário Amazônia, entrando em circulação imediata como meio de pagamento as cédulas e moedas do DIM; com a troca de cédulas e moedas de Real durante o prazo de 30 (trinta) dias; observada a paridade cambial entre o Real e o DIM, fixada pelo Banco Central do Brasil.
§
1º Após o dia 30 de novembro de 2020, os cheques, as notas, promissórias, os carnês e todo e qualquer papel representativo de valor monetário emitido em Real, serão acolhidos pelas instituições”
Texto publicado no Facebook que, até as 11h do dia 29 de julho, tinha sido compartilhado por 127 pessoas

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não existe nenhum projeto oficial em tramitação que extingue o real para a criação de uma unidade chamada DIM. Esse texto, na verdade, é um trecho de um projeto de lei ficcional assinado por um blogueiro defensor da ditadura militar chamado Célio Evangelista. Nesse texto, que ele assina como “Jurista Estadista Chefe de Estado”, ele propõe a criação de uma moeda chamada DIM com lastro nas “riquezas minerais brasileiras”.

Evangelista foi preso em 21 de maio, acusado de ameaçar de morte juízes e promotores de Brasília, mas acabou sendo liberado por um habeas corpus e responde ao processo em liberdade. Defensor da “intervenção militar constitucional”, ele mantém um blog no qual se apresenta como “presidente constitucional do Brasil” e defende um golpe de estado em seu próprio favor. Textos publicados nesse blog incitam, por exemplo, que a população mate políticos, incluindo o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e todos os governadores, e médicos.

Nesse site, Evangelista publica diversos textos sobre o que seria seu mandato como governo do Brasil, com referências a diversas teorias da conspiração. Entre essas propostas está a criação do DIM, mas em outros momentos também defende uma moeda chamada “ouro”. Ambas as moedas teriam “lastro em riquezas minerais”, que, no texto de onde o trecho foi retirado, comporiam um “valor imobiliário estimado em um quatrilhão e duzentos trilhões de dólar (sic) americano”. O PIB do mundo em 2019 era de de US$ 87,8 trilhões, segundo o Banco Mundial.

Mudanças de moeda

A Constituição Federal prevê que a única instituição com competência para emissão de moeda no país é o Banco Central do Brasil. Em nota, a assessoria de imprensa do Banco Central confirmou que as afirmações são falsas. Também não há qualquer projeto em tramitação no Congresso Federal ou no Senado que pretenda substituir o real por uma moeda chamada DIM.

Também não há qualquer indício de que Bolsonaro teria sugerido a criação de uma moeda com o nome DIM. A única vez que ele sugeriu a criação de uma nova moeda foi em junho de 2019. Na época, ele aventou publicamente a possibilidade de criar uma moeda integrada entre Argentina e Brasil, apelidada de “peso-real”.

A sigla DIM é utilizada pelo governo federal e pelo Banco Central para indicar os Depósitos Interfinanceiros de Microcréditos, que são títulos privados de renda fixa negociados entre os bancos e instituições financeiras.

Desde 1833, quando a primeira lei definindo o padrão monetário do Brasil pós-independência foi estabelecida, o país já teve nove padrões monetários distintos, segundo o Banco Central. Oito deles foram criados ao longo do século 20.

Afirmações similares a esta foram verificadas pelo Projeto Comprova.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

 

Editado por: Chico Marés

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo