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Três propostas concretas para combater a desinformação com educação midiática

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
05.ago.2020 | 12h59 |

A diretora de conteúdo da Agência Lupa, Natália Leal, participou da audiência pública realizada virtualmente nesta quarta-feira pela Câmara dos Deputados para falar sobre a educação midiática no âmbito do Projeto de Lei 2630/2020, conhecido como PL das Fake News. Em sua fala, Leal defendeu três propostas concretas de trabalho para consolidar o que o projeto LupaEducação já faz no Brasil desde 2017 e defendeu a necessidade de colaboração no tema entre diferentes setores da sociedade.

Leia a manifestação da diretora de conteúdo da Lupa na íntegra:

Agradeço a oportunidade de participar na sessão sobre educação midiática promovida hoje pela Câmara dos Deputados. É hora de apresentar e destrinchar propostas objetivas para serem incluídas no PL 2630, popularmente conhecido como “projeto de lei das fake news”. São três. 

Sou jornalista, diretora de conteúdo da Agência Lupa, uma das plataformas brasileiras que verificam a veracidade de informações que circulam em redes sociais e também as que são disseminadas a partir de discursos de atores políticos. Atuo contra a desinformação de notícias falsas, como checadora de fatos, desde 2017, mas tenho uma experiência de mais de 10 anos em jornalismo – todos eles dedicados à luta por informação de qualidade e por um ambiente social saudável e participativo. 

Nos últimos dois anos, dedico boa parte do meu tempo de trabalho ao ensino no LupaEducação, um programa lançado pela Lupa em 2017 com foco na disseminação das técnicas usadas na checagem de fatos. Nosso objetivo inicial era capacitar jornalistas e estudantes de jornalismo para que atuassem com mais precisão no manejo de dados públicos e levassem informação de qualidade aos seus leitores, ouvintes e telespectadores. Acreditamos que pessoas bem informadas tomam decisões mais acertadas e vemos no LupaEducação uma ferramenta para que conteúdos verificados cheguem à sociedade. 

Desde seu surgimento, o LupaEducação formou uma rede de mais de 7 mil pessoas, muitas delas, sim, jornalistas e estudantes de jornalismo. Mas também muitos médicos, advogados, engenheiros, professores e estudantes do ensino básico – público e privado, que nos procuraram a partir de inquietações pessoais sobre o momento que vivemos digitalmente e o avanço da desinformação.

No LupaEducação, entendemos que qualquer um pode ser um verificador de fatos. Por isso, atuamos em palestras, debates, oficinas e treinamentos para diferentes públicos. 

Em quatro anos, chegamos a todas as regiões do Brasil e a países na Europa e na África, em cerca de 700 horas de capacitação. Usamos a tecnologia para levar as técnicas de verificação de fatos e o debate sobre desinformação a milhares de pessoas em treinamentos online, intensificados durante a pandemia de Covid-19. Neste ano, já capacitamos servidores de cerca de 20 tribunais regionais eleitorais para que lutem contra a desinformação no contexto eleitoral. 

Todos os nossos treinamentos são permeados pelo fato de que é fundamental desenvolver o pensamento crítico e entender o papel que temos como cidadãos na luta contra a desinformação. Por isso, temos a convicção de que a educação midiática é a nossa principal arma e de que precisamos incluí-la neste projeto de lei de forma ampla, embasada e definitiva.

A Lupa empenha todos seus esforços nesta briga, mas reconhece que a necessidade de capacitação está além do que pode fazer sozinha. Por isso, acreditamos que a colaboração é chave neste tema. 

A partir da nossa experiência em escolas da educação básica, reafirmo que é evidente que precisamos discutir a desinformação, o consumo e a produção de conteúdo nos meios digitais desde os primeiros anos da aprendizagem. Precisamos, sim, fazer isso nas escolas. E já podemos, de acordo com as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular. 

Entre as competências gerais estabelecidas pela Base está: “Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva”.

Também está: “Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta”. 

Assim, vemos com clareza que os trabalhos de alfabetização midiática já estão amparados pela legislação brasileira e suas diretrizes. Só precisamos trabalhar nisso de forma horizontal e interdisciplinar, contemplando as quatro áreas temáticas previstas na nossa Base Nacional Comum Curricular, se quisermos obter sucesso real na alfabetização midiática.

Sabemos que há países, como a Finlândia, onde a educação midiática é uma realidade nos planos de educação. Desde muito cedo, crianças e adolescentes aprendem os riscos do ambiente digital, identificam informações falsas e são ensinados sobre onde devem buscar os fatos e os dados para conferir se o que leem é ou não verdadeiro. A realidade finlandesa em nada se parece com a nossa, mas não precisamos atravessar o oceano para ver exemplos como esse na prática. 

A partir de oficinas do LupaEducação, nós já vimos muitos projetos ganharem vida em escolas brasileiras. Projetos que tratam do desenvolvimento de uma escuta crítica no ambiente digital, da responsabilidade que devemos ter com as informações que passamos adiante e do nosso papel individual neste contexto. Isso é educação midiática e já está em prática por aqui, com o apoio da Lupa e de outras entidades que fomentam a alfabetização midiática. Há outras formas de fazer isso. Na Argentina, por exemplo, é premiado o modelo no qual checadores simulam com jovens sessões da Organização das Nações Unidas para explicar como elas funcionam e mostrar onde e como é possível verificar informações que circulam nessas esferas. 

Que fique claro: Nós não queremos criar, a partir de agora, uma disciplina de educação midiática para o currículo escolar. Como mostramos, os planos que embasam a educação no Brasil já nos permitem fazer esse trabalho desde os primeiros anos escolares. O que nós precisamos é tratar deste tema de forma institucionalizada e sistemática. E precisamos, sim e sempre, olhar com atenção para os nossos professores, pois eles são fundamentais nesta transformação necessária. 

É urgente que a educação midiática integre os currículos de cursos universitários, para que os professores que estão em formação no ensino superior conheçam o assunto e possam trabalhá-lo em seu lugar de direito, que é a sala de aula das diferentes fases de ensino público e privado. 

Eu tive o prazer de crescer guiada por uma professora. Minha mãe preparava aulas ao meu lado quando eu era pequena e estimulou, desde muito cedo e com o apoio do meu pai, que eu questionasse tudo. Neste ambiente, construí minha ética pessoal e profissional, meu senso de certo e errado e aprendi, também, o meu papel como cidadã. E também vi de perto o empenho da minha mãe para levar a alunos dela esses conhecimentos. Tenho certeza de que o pensamento crítico é um aprendizado desenvolvido durante toda a vida e para toda a vida, que não se restringe ao ambiente escolar. 

Nos tempos atuais, parte desse conhecimento é adquirido no convívio do ambiente digital e das redes sociais, onde todos somos consumidores e produtores de conteúdo. 

No LupaEducação, vemos esses ambientes como uma oportunidade de falar a diferentes públicos e de diferentes formas. Mais uma vez, digo que a colaboração é chave neste processo. Uma das soluções que enxergamos aqui é fomentar o desenvolvimento da educação midiática também a partir das plataformas digitais e redes sociais. Não podemos apenas criticar esses ambientes, essas empresas. Precisamos de estratégias para chegar ao maior número de pessoas possível também através delas. Essa é uma forma de dar escala a esforços gigantescos, como o da Lupa, mas que ainda se apresentam pequenos diante da imensa demanda.

Nos Estados Unidos, plataformas de verificação de fatos trabalham com adolescentes para propagar conteúdos verificados em redes como o TikTok e o Instagram. Eles aprendem a identificar informações potencialmente falsas e a construir conteúdos que explicam e esclarecem os fatos. Os checadores, como especialistas em educação midiática, atuam com as plataformas e não contra elas. No Brasil, essas empresas também precisam ser chamadas ao incentivo à alfabetização midiática. Uma discussão possível e que pode estar contemplada inclusive nesta lei é a destinação obrigatória de recursos financeiros desses agentes para projetos de media literacy. 

Sabemos que essa legislação que debatemos existirá, a despeito de muitas discordâncias entre as entidades envolvidas na discussão deste PL. Sendo assim, essa legislação precisa falar amplamente sobre educação midiática. Sem essa discussão e esse marco legal, será impossível escalar massivamente nossos esforços e atingir se não a totalidade da população, a parcela dela que pode se transformar em multiplicadora deste conhecimento. 

Acompanhei com atenção as discussões anteriores sobre os outros temas concernentes a este projeto de lei. Acredito que há avanços e muitos ainda serão feitos no que diz respeito à responsabilidade das plataformas digitais e das redes organizadas de desinformação e às investigações sobre este tema. Mas eu tenho certeza de que esta lei pode ser transformadora no que tange o desenvolvimento do pensamento crítico e a educação midiática. 

O artigo 33 merece ser amplamente desenvolvido. Ele hoje trata da destinação das multas aplicadas com base nesta possível lei ao Fundeb, mas ele deve ser revisto. Expandido. Deve trazer um melhor detalhamento das ações de educação midiática – e não digital, como consta atualmente no texto. 

Acreditamos que neste artigo seja possível prevermos ações de incentivo como as já citadas anteriormente, ou seja, o trabalho interdisciplinar em sala de aula de acordo com as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular, a reforma de currículos universitários visando a formação de professores capazes de alfabetizar digitalmente outros brasileiros, e a destinação de recursos financeiros das plataformas para ações massivas em redes sociais para projetos de alfabetização midiática.

Concluo aqui com um pedido a cada político que ouve ou venha a ouvir esta audiência. A educação midiática deve ser vista como uma ação de Estado, parte integrante da política pública de educação. Todos os senhores e senhoras, parlamentares, podem contribuir individualmente nesta discussão, porque ela está acima de ações partidárias ou de mandatos específicos. Nós contamos com os senhores legisladores para que atentem para a importância desta discussão e da presença deste tema nesta legislação e na sociedade brasileira. Agradeço, mais uma vez, a oportunidade de estar com todos e todas nesta manhã e fico à disposição para questionamentos e considerações. Obrigada.

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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