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Foto: NIAID
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Lupa na Ciência: Pesquisas sobre imunidade contra o novo coronavírus avançam por caminhos diferentes

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
05.ago.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Estudos publicados no último mês indicam que a concentração de anticorpos contra o novo coronavírus no sangue cai drasticamente poucos meses após a infecção
  • Outros estudos sugerem que as células T, componente importante do sistema imunológico, podem permanecer ativas por anos no organismo, e fornecer algum tipo de proteção a longo prazo
  • As pesquisas mais recentes indicam, também, que pessoas que tiveram contato com outros coronavírus podem ter desenvolvido um tipo de imunidade cruzada com o SARS-Cov-2, o que as deixa protegidas, pelo menos parcialmente, da atual pandemia
  • Enquanto a ciência não encontra respostas definitivas, entidades como a OMS seguem afirmando que não se pode depositar todas as esperanças em uma vacina, já que seu efeito a longo prazo ainda é desconhecido

Pessoas infectadas pelo novo coronavírus ficam imunes à doença? Por quanto tempo? Na última semana, artigos publicados em revistas científicas buscaram responder essas duas perguntas, mas a partir de elementos distintos do sistema imunológico. Estudos feitos na China e no Reino Unido mostraram que a concentração de anticorpos contra o SARS-Cov-2 na corrente sanguínea caiu para níveis muito baixos poucos meses depois da cura – um mau sinal. Contudo, pesquisadores de Singapura identificaram que as células T de indivíduos recuperados continuam reconhecendo o vírus. E mais: eles também testaram amostras de ex-pacientes da SARS, doença causada por um “parente” do responsável pela Covid-19, e verificaram que, 17 anos depois, elas também eram capazes de reagir ao vírus. Isso seria um indício da existência de imunidade a longo prazo.

Apesar dessas conclusões parecerem contraditórias, elas não são. Para a maioria das doenças infecciosas, os termos “imune” e “não imune” não são binários, mas graduais. O sistema de defesa do corpo humano envolve uma série de células e componentes que podem atuar sozinhos ou em conjunto, por curtos ou longos períodos, protegendo o corpo de diferentes formas e com intensidades distintas. 

Uma vacina contra o sarampo, por exemplo, é suficiente para proteger uma pessoa durante a vida toda. Isso só foi descoberto após décadas testando a imunização e acompanhando os que se recuperaram da doença. Já a defesa que adquirimos quando entramos em contato com uma gripe comum tem prazo de validade. O corpo esquece dela rapidamente. Por isso, estamos constantemente sujeitos a ficar gripados. 

Normalmente, são necessários anos de pesquisa para compreender como esse sistema funciona frente a um novo vírus ou bactéria. No caso do SARS-Cov-2, a ciência ainda está começando a entender como nosso sistema de defesa funciona quando entra em contato com ele. Até agora, infelizmente, o que se sabe não é suficiente para trazer respostas definitivas. 

Sistemas de defesa

Antes de explicar as pesquisas, é preciso entender o nosso complexo sistema imunológico. De forma resumida, o corpo reage diariamente aos ataques de bactérias, vírus e outros micróbios em duas etapas. A primeira é o mecanismo de defesa que temos desde o nascimento, a imunidade inata. Ele é composto, entre outras coisas, por células que ficam circulando em nossa corrente sanguínea e agem rapidamente para combater qualquer corpo estranho. Quando ela consegue conter o patógeno, a infecção é resolvida rapidamente e, em geral, sem que a pessoa apresente sintomas e sem guardar memória desse invasor. Só que, em muitos casos, incluindo o SARS-Cov-2, a imunidade inata pode ser insuficiente para nos proteger. Por causa disso, existe o segundo tipo de resposta: a imunidade adquirida. Ela é o foco dos principais estudos que buscam responder se uma pessoa fica protegida de determinada doença após uma primeira infecção. 

A resposta imune adquirida é formada basicamente por dois tipos de glóbulos brancos (ou linfócitos), chamados células B e T, que detectam detalhes moleculares específicos do vírus ou bactéria em questão e produzem uma resposta direcionada contra ele. Durante esse processo, as células aprendem a atacá-lo e guardam memória de suas características para poder combatê-lo de forma ainda mais rápida e eficaz no próximo encontro. No primeiro encontro, a resposta é mais demorada, uma vez que os linfócitos precisam se adaptar ao corpo estranho e entender suas características para produzir elementos que o combatam. Por isso, na maioria das vezes, desenvolvemos sintomas da doença. Quando o patógeno tenta atacar nosso corpo pela segunda vez, a resposta é mais rápida e eficiente, uma vez essas células já conhecem suas características.

As células B e as células T trabalham juntas para destruir os invasores. Os linfócitos B são os responsáveis por produzir anticorpos, que são proteínas criadas para se ligar especificamente ao vírus com o objetivo de cumprir diferentes funções no seu combate, como neutralizá-lo e destruí-lo. Eles combatem o vírus ou bactéria quando este está livre na corrente sanguínea. Já quando o patógeno invade as células humanas, os linfócitos T entram em ação para matar as células infectadas, evitando que o invasor as utilize para se reproduzir e se espalhar ainda mais pelo corpo. 

Sua ação não para por aí: os linfócitos T são dinâmicos e podem também ajudar a avisar as células B que é hora de produzir mais anticorpos, além de ativar outros componentes do sistema de defesa que garantem uma resposta imunológica completa. Como esses glóbulos brancos podem permanecer no sangue por anos após uma infecção, eles também contribuem para a chamada “memória de longo prazo” do sistema imunológico.

Más notícias

Uma das formas mais comuns, fáceis e práticas de avaliar se uma pessoa possui algum grau de imunidade a uma doença é medindo a quantidade de anticorpos a determinado vírus ou bactéria presente no sangue. Isso é feito por meio de um exame que mede dois principais deles: o IgM e o IgG. Ambos têm ação conjunta na proteção imediata e a longo prazo contra infecções. O IgM aparece logo no início da infecção, e fica por menos tempo na circulação sanguínea. O IgG surge um pouco depois, quando a doença começa recuar, e sua permanência é mais longa. Normalmente, identifica-lo em um exame é sinal de que a pessoa desenvolveu imunidade mais forte contra a doença. Esses dois tipos de anticorpos foram foco de pesquisas recentes relacionadas ao novo coronavírus. 

No final de junho, um estudo chinês publicado na Nature Medicine avaliou o sangue de 37 pacientes recuperados da Covid-19. A pesquisa sugeriu que anticorpos haviam sido produzidos durante a infecção e eram capazes de neutralizar o vírus. No entanto, eles caíram para níveis muito baixos depois de entre dois e três meses da recuperação dos voluntários, principalmente em pessoas que não desenvolveram sintomas da doença. Em meados de julho, outro estudo, este realizado na Inglaterra e ainda não publicado em revista científica, reforçou essa ideia. Os pesquisadores acompanharam 90 pacientes por meses após a infecção e afirmaram que os níveis dos dois anticorpos ficaram indetectáveis, em alguns casos, após 12 semanas. Nas conclusões de ambos os estudos, os autores afirmam que os resultados sugerem, embora não garantam, que conseguimos desenvolver imunidade contra o novo coronavírus. Contudo, ela pode ser temporária. 

Apesar dos resultados não serem animadores, esses estudos deixam uma questão importante em aberto. Os anticorpos são apenas um dos componentes da defesa do corpo. Sua ausência não significa, necessariamente, que a pessoa volta a ficar vulnerável ao novo coronavírus. Os linfócitos B, responsáveis pela produção desses anticorpos, ainda podem ter a capacidade de produzir novas proteínas após a primeira infecção. As células T, igualmente importantes na resposta imune adquirida, também não foram avaliadas nessas pesquisas. 

Boas notícias

Em estudo publicado em julho na revista Nature, pesquisadores de vários institutos de Singapura estudaram 36 pessoas que tiveram casos moderados a graves de Covid-19. Eles encontraram, em todos os pacientes, linfócitos T que reconheciam as estruturas presentes no novo coronavírus. Depois disso, analisaram amostras sanguíneas de 23 pessoas que foram infectadas pela SARS – doença causada por um vírus similar ao SARS-Cov-2, que infectou cerca de 8 mil pessoas entre 2002 e 2003. Eles descobriram que as células T desses voluntários ainda eram capazes de reagir à presença do vírus, 17 anos depois. Não se sabe se elas seriam suficientes para evitar uma segunda infecção, mas se imagina que elas poderiam, pelo menos, evitar o desenvolvimento de quadros graves. Segundo os cientistas, as descobertas reforçam a ideia de que pacientes com a Covid-19 podem ter imunidade a longo prazo para o SARS-CoV-2, já que ambas doenças são causadas por vírus da mesma família.

Essa pesquisa também identificou a possibilidade de imunidade cruzada – quando o organismo aprende a se defender de um vírus ou bactéria com base nas experiências com outro microorganismo similar. Esse aspecto foi analisado com mais profundidade em outro estudo, publicado na última semana, também na revista Nature. Pesquisadores de várias instituições da Alemanha e do Reino Unido chegaram a essa conclusão após avaliarem uma amostra de 68 adultos saudáveis que não tiveram contato com vírus. Ao menos 35% dos participantes possuíam, em seu organismo, células T reativas ao SARS-Cov-2. Os pesquisadores suspeitam que essas pessoas tenham sido expostas anteriormente a coronavírus endêmicos e isso tenha gerado algum tipo de reatividade cruzada.

Cautela

Frente a todas essas descobertas, e a centenas de dúvidas que ainda permanecem, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou, no início desta semana, que mesmo com algumas vacinas na última fase de testes, existe a possibilidade de que nenhuma delas ofereça proteção da forma esperada, e que o vírus siga circulando. Até que se compreenda mais detalhadamente a resposta de defesa do organismo ao novo coronavírus, ele reforçou a necessidade de aplicar o conjunto das medidas disponíveis que funcionam para suprimir a transmissão, como distanciamento social e uso de máscara. 

Fontes: 

Nature Medicine. Artigo disponível em:
https://www.nature.com/articles/s41591-020-0965-6

Nature. Artigos disponíveis em:
https://www.nature.com/articles/s41586-020-2598-9
https://www.nature.com/articles/s41586-020-2550-z_reference.pdf

MedRxiv. Artigo disponível em:
https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.07.09.20148429v1

Organização Mundial da Saúde (OMS). Informações disponíveis em:
https://www.who.int/news-room/commentaries/detail/immunity-passports-in-the-context-of-covid-19

Editado por: Chico Marés

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