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Foto: Marcelo Camargo, Agência Brasil
Foto: Marcelo Camargo, Agência Brasil

Lupa na Ciência: Estudos demonstram importância de testagem e rastreamento para garantir segurança na volta às aulas

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
10.ago.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Estudo britânico prevê que, sem a testagem em massa da população e um rastreamento eficaz de contatos, a reabertura das escolas e flexibilização de outros setores pode levar a uma segunda e mais forte onda da Covid-19
  • Os pesquisadores estimam que, no Reino Unido, onde a epidemia está controlada no momento, a reabertura das escolas só seria segura se pelo menos 60% dos sintomáticos fossem testados e 68% dos contatos, rastreados
  • Estudo realizado na Austrália, sobre estratégias usadas no país durante a epidemia, reforça que essas estratégias, em conjunto com outras medidas, podem evitar uma segunda onda
  • A divulgação dos estudos foi feita na mesma semana em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) fez um apelo mundial para a reabertura das escolas em países onde a transmissão está controlada
  • A entidade alertou, no entanto, que nos demais países ainda é precoce pensar nessa retomada. Com mil mortes diárias, está claro que a pandemia não está controlada no Brasil

Dois estudos publicados pela The Lancet Child & Adolescent Health na última semana jogaram luz sobre os efeitos da retomada das aulas em países que já controlaram sua pandemia. O primeiro, feito por pesquisadores britânicos, avaliou os possíveis efeitos de diferentes formas de recomeçar o ano letivo no país. O segundo, feito na Austrália, tratou de medidas implementadas por 25 escolas de Nova Gales do Sul, que não chegaram a fechar completamente, durante a pandemia. Em ambas as pesquisas, a testagem em massa e o monitoramento de casos se mostram essenciais para garantir segurança durante esse processo.

Os pesquisadores britânicos avaliaram que, sem uma testagem em massa dos estudantes e um sistema eficaz de rastreamento e isolamento de contatos, há um alto risco de que a reabertura das escolas e a flexibilização nas medidas de isolamento resulte em uma nova e mais agressiva onda de Covid-19. Para chegar a essas previsões, os autores, do University College de Londres, utilizaram um modelo matemático que levou em consideração dados epidemiológicos e demográficos do Reino Unido. Foram levados em conta diferentes cenários a partir das características de cada região, como estrutura das camadas sociais, hábitos de trabalho e densidade populacional, entre outros. Também foi considerada a situação atual do país na pandemia. Lá, o pico da crise ocorreu no mês de maio, mas atualmente a situação está relativamente controlada – embora ainda haja focos localizados da doença.

Com essas informações, os pesquisadores avaliaram o impacto do retorno às aulas presenciais a partir de duas estratégias: retomada integral, com 100% dos alunos, ou em sistema de rodízio, em que estudantes vão à escola em semanas alternadas. Considerando as incertezas que ainda pairam sobre o potencial dos jovens com menos de 20 anos de contrair e disseminar o vírus, os pesquisadores estabeleceram que a taxa de transmissão nessa faixa etária seria metade da dos adultos. A partir disso, estimaram o número de novas infecções, casos e óbitos sob essas duas diferentes estratégias caso a reabertura das escolas, fechadas desde março no país, ocorra já em setembro.

Segundo os autores, para evitar a segunda e mais agressiva onda, seria necessário realizar testes PCR, exame que detecta o vírus ativo, em porcentagens que vão de 59% a 87% das pessoas com sintomas no país, dependendo da estratégia de reabertura adotada, além de implementar um eficaz sistema de rastreamento e isolamento de contatos. Se as escolas voltassem integralmente em setembro, seria necessário testar 75% dos indivíduos com sintomas e rastrear 68% dos contatos dos contaminados para evitar um aumento no número de casos. No caso da implementação do sistema de rodízio, cerca de 65% dos sintomáticos teriam que ser testados. Considerando outro cenário, em que fosse possível rastrear apenas 40% dos contatos, a quantidade de testes necessários para conter uma nova epidemia seria de 87% e 75%, respectivamente.

“No entanto, se os níveis de testes diagnósticos e de rastreamento de contatos caírem abaixo desses modelos no Reino Unido, a reabertura de escolas combinada com o relaxamento gradual das medidas de isolamento provavelmente resultarão em uma segunda onda de contágio, que atingiria o pico em dezembro de 2020 no caso do retorno integral dos alunos, ou em fevereiro de 2021, com o sistema de rodízio”, diz o estudo. Os pesquisadores alertam, ainda, que no país a nova epidemia poderá voltar mais forte, com taxa de reprodução (quantas pessoas um infectado pode contaminar) até 2,3 vezes maior da verificada nessa primeira onda.

“Nosso modelo analisou os efeitos da reabertura escolar concomitantemente com o afrouxamento das restrições em toda a sociedade, pois é provável que a reabertura ande de mãos dadas com mais adultos voltando ao trabalho e com outras medidas”, ponderou Jasmina Panovska-Griffiths, epidemiologista da Universidade College Londres, que liderou o estudo.

Ainda que a pesquisa tenha sido realizada a partir de dados demográficos e epidemiológicos do Reino Unido, ela serve com modelo para diferentes países que começam a flexibilizar as medidas de isolamento e buscam formas mais seguras para evitar um aumento no número de casos e mortes. Por lá, neste momento em que se estudam as melhores maneiras de reabrir as escolas, a média de mortes diárias pela Covid-19 é de cerca de 100 pessoas

Um estudo australiano, publicado também na The Lancet Child & Adolescent Health na última semana, reforçou a ideia dos pesquisadores britânicos e mostrou, na prática, como essas medidas rígidas de testagem e controle são fundamentais para que as escolas não se tornem focos de novos surtos da doença. Na pesquisa, foram analisados dados de 25 instituições de ensino de Nova Gales do Sul, um estado australiano, entre 25 de janeiro e 10 de abril deste ano. No país, as instituições de ensino não fecharam, mas adotaram rigorosas estratégias de controle do novo coronavírus. Os pesquisadores acompanharam a situação das escolas e concluíram que o risco de crianças e funcionários transmitirem o vírus nesses ambientes era muito baixo quando há testagem em massa, rastreamento de contatos e demais medidas de higiene. Vale lembrar que essa situação só foi possível porque a Austrália foi um dos países que adotaram, desde o início, medidas eficazes e bem-sucedidas no combate à pandemia. Até o momento, o país registrou apenas 266 mortes pela Covid-19. 

Trazendo para a realidade brasileira, em que a média de novas mortes na última semana foi superior a mil óbitos, autoridades ainda consideram precoce a ideia de reabrir as escolas. Em uma entrevista coletiva concedida da última semana, representantes da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS) na América Latina, alertaram que a epidemia não está sob controle no país e que, embora a testagem tenha aumentado em território nacional, a volta das escolas “pode ser um fator de risco para novos surtos” da Covid-19. 

O mesmo foi reforçado pelo secretário-geral da ONU, António Guterres. Na mesma semana em que fez um apelo mundial para a reabertura das escolas em países onde a transmissão está controlada, a fim de corrigir o que chamou de “catástrofe geracional”, ele alertou que a volta às aulas presenciais em locais onde a pandemia está fora de controle pode agravar a transmissão. 

Apesar do alerta, pelo menos três estados brasileiros já autorizaram a reabertura das instituições privadas de ensino desde o dia 5 de agosto: Amazonas, Distrito Federal e Maranhão. Na capital carioca, a prefeitura chegou a emitir um decreto permitindo a reabertura das instituições de ensino privadas a partir do dia 1º de agosto, mas dias depois a Justiça do Rio de Janeiro revogou a decisão. Até o fechamento desta reportagem, outros sete estados estão com previsão de volta às aulas entre os meses de agosto e setembro: Alagoas, Ceará, Pará, Paraná, Piauí, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul. Os demais ainda não têm datas de reabertura definidas ou estão programando a retomada para outubro, de acordo com a Federação Nacional de Escolas Privadas. 

Fontes:

The Lancet Child & Adolescent Health
https://www.thelancet.com/journals/lanchi/article/PIIS2352-4642(20)30250-9/fulltext
https://www.thelancet.com/journals/lanchi/article/PIIS2352-4642(20)30251-0/fulltext

Fiocruz. Dados disponíveis em:
https://bigdata-covid19.icict.fiocruz.br/

Federação Nacional de Escolas Privadas. Dados disponíveis em:
https://www.fenep.org.br/single-de-noticia/nid/atualizacao-diaria-mapa-de-retorno-das-atividades-educacionais-presencial-no-brasil/

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra  a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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