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Lupa na Ciência: Novo estudo indica potencial de assintomáticos para transmitir Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
12.ago.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

– Estudo sul-coreano acompanhou centenas de pacientes infectados com o novo coronavírus em isolamento, e identificou que a carga viral dos assintomáticos é semelhante à dos pré-sintomáticos e à dos que já manifestavam sinais da doença

– Essa descoberta reforçou a suspeita de que pacientes sem sintomas têm um potencial grande de transmitir o novo coronavírus

– Os pesquisadores verificaram, também, que o tempo de permanência do vírus no organismo foi semelhante nos três grupos

– Essa foi uma das primeiras pesquisas que conseguiram acompanhar os voluntários para distinguir o potencial de transmissão dos pré-sintomáticos e daqueles que nunca manifestam sinais da Covid-19

– De acordo com os pesquisadores, as informações se somam a outras pesquisas que indicam a importância da testagem em massa e a adoção medidas de prevenção como uso de máscara e distanciamento social

Pacientes assintomáticos com a Covid-19 carregam em seus corpos uma carga viral semelhante àquela encontrada nos que apresentam sinais da infecção, concluiu estudo sul-coreano publicado nesta semana no Journal of the American Medical Association. Essa informação sugere que o grupo tem um potencial igualmente importante de transmitir a doença, quando comparado com o conjunto de pacientes que desenvolvem sintomas. Outras pesquisas já apontavam para essa direção. Contudo, essa é uma das primeiras investigações que trazem provas mais concretas da presença do vírus em grandes quantidades no nariz, garganta e pulmão daqueles que não apresentam sinais da doença. O estudo mostrou, também, que não há diferença no tempo de permanência do vírus no corpo entre esse grupo e os pacientes sintomáticos.

Para chegar a essas conclusões, pesquisadores da Universidade Soonchunhyang analisaram amostras de 303 pacientes com idades entre 22 e 36 anos que testaram positivo para o novo coronavírus. Eles foram isolados em um centro de tratamento comunitário na cidade de Cheonan, na Coreia do Sul. Desse total, 110 (36,3%) estavam assintomáticos quando deram entrada no local. No entanto, 21 deles passaram a desenvolver sintomas da doença entre 13 e 20 dias após o início do isolamento. Os demais 89 permaneceram assintomáticos ao longo de um período de acompanhamento de 20 a 26 dias, até testarem negativo. Todos os participantes realizaram o teste RT-PCR, que identifica e quantifica o vírus nas vias respiratórias, no momento em que deram entrada no centro de tratamento, assim como em outros oito dias durante o período de internação.

De acordo com os autores do estudo, os resultados dos exames mostraram que os pacientes assintomáticos e pré-sintomáticos carregavam cargas virais em seus narizes, gargantas e pulmões tão grandes quanto os que desenvolveram quadros da doença. Além disso, a duração da infecção foi praticamente idêntica em todos os grupos. Quase 34% dos pacientes assintomáticos apresentaram resultado negativo para o novo coronavírus após 14 dias, e essa porcentagem cresceu para 75% após 21 dias. Em comparação, quase 30% dos pacientes sintomáticos tiveram resultados negativos após 14 dias e pouco menos de 70% apresentaram resultados negativos após 21 dias.

Na conclusão do estudo, os autores afirmam que os pacientes que nunca vêm a desenvolver sintomas não diferem dos sintomáticos quando o assunto é a carga viral que carregam. No entanto, pela metodologia utilizada, é impossível confirmar se eles, de fato, transmitem a doença com a mesma eficiência. Para verificar essa informação, seria necessário rastrear e testar os contatos desses pacientes. Como os pacientes do grupo estavam em isolamento, logicamente, eles não tiveram contato com outras pessoas no período.

Especialistas se dividem sobre o potencial de contágio dos pacientes que não desenvolvem a doença. Para alguns pesquisadores, como os assintomáticos não tossem ou espirram com a mesma frequência que os sintomáticos, eles podem ser menos eficientes em espalhar o vírus. Outros, no entanto, argumentam que os pacientes que desenvolvem sintomas da Covid-19 tendem a ficar em casa para se recuperar, reduzindo a interação com outras pessoas. Já os que não têm sintomas, quando não são testados, circulam mais, o que aumenta seu potencial de transmissão. Ainda assim, especialistas afirmam que os resultados da pesquisa “sugerem fortemente” que pessoas assintomáticas são transmissores involuntários do vírus.

Debate extenso

A discussão sobre o tema é polêmica nos meios científicos por causa das metodologias adotadas em grande parte dos estudos. A maioria das evidências de disseminação assintomática foi baseada na observação (quando uma pessoa sem sintomas adoece outras) ou eliminação (pessoas que ficaram doentes, mas não puderam ser conectadas a ninguém com sintomas). No entanto, para se conseguir dados robustos sobre essas situações, seria preciso testar a população em massa para identificar esses pacientes – o que não é viável em grande parte dos países. Além disso, a definição de assintomático é problemática: pacientes que, em determinado momento, são considerados sem sintomas podem, posteriormente, desenvolver a doença – nesse caso, são classificados como pré-sintomáticos. Há, ainda, casos de sintomas muito leves da doença que podem passar despercebidos.

Em meados de junho, o tema foi amplamente discutido após Maria Van Kerkhove, chefe da unidade de doenças emergentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), sugerir que a transmissão do novo coronavírus por pessoas que não apresentam sintomas da Covid-19 seria “muito rara”. Na ocasião, a representante da instituição esclareceu seu comentário menos de 24 horas depois da afirmação, indicando que, na verdade, ainda se sabia muito pouco sobre o tema. Ela afirmou que já havia evidências de que aqueles que não tinham sintomas poderiam transmitir o vírus, “a questão era saber o quanto”. Até o momento, o posicionamento da OMS segue o mesmo, e a entidade reconhece a dificuldade de realizar estudos densos que demandam a testagem e o acompanhamento da população em grande escala. 

Na mesma semana em que a declaração foi feita, no entanto, uma das pesquisas mais robustas sobre o assunto foi publicada na revista Annals of Internal Medicine. Nela, pesquisadores revisaram 16 estudos sobre focos específicos da pandemia. Eles concluíram que entre 40% e 45% dos pacientes não apresentavam sintomas no momento em que foram examinados, mas sua carga viral não diferia da dos pacientes sintomáticos – conclusão similar à do estudo sul-coreano. Nessa pesquisa, porém, os pacientes não foram acompanhados depois dos testes e, portanto, é provável que parte deles tenha desenvolvido sintomas posteriormente –  ou seja, não eram mais assintomáticos, mas pré-sintomáticos. A pesquisa publicada nesta semana pela Universidade Soonchunhyang ajuda a esclarecer esse ponto, ao revelar que aqueles que nunca vêm a desenvolver sintomas carregam quantidades virais semelhantes às dos que desenvolvem sintomas da doença.

Fontes: 

Journal of the American Medical Association. Artigo disponível em:
https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/fullarticle/2769235

Organização Mundial da Saúde. Informações disponíveis em:
http://www.emro.who.int/health-topics/corona-virus/transmission-of-covid-19-by-asymptomatic-cases.html

Annals of Internal Medicine. Artigo disponível em:
https://www.acpjournals.org/doi/10.7326/M20-3012

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra  a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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