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Foto: EVG Culture/Pexels
Foto: EVG Culture/Pexels

#Verificamos: Fotos de pessoas com problemas na pele não têm relação com ‘infecção bacteriana’ por uso de máscaras

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
14.ago.2020 | 20h39 |

Circula nas redes sociais uma montagem com cinco fotos de pessoas com marcas, vermelhidão e erupções na pele. Segundo a legenda, essas pessoas foram infectadas pela bactéria Staphylococcus devido ao uso de máscaras de proteção. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Infecção por Stafilococcus devido ao uso de máscaras. Entendam porque profissionais de saúde só usam máscaras descartáveis e as trocam de hora em hora”
Legenda de publicação no Facebook que, até as 17h do dia 18 de junho, foi compartilhada por pessoas (ver foto aqui, imagens fortes) 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Das cinco imagens publicadas, três foram postadas antes do início da pandemia do novo coronavírus e mostram doenças que não têm relação com o uso de máscaras de proteção. Outra apresenta marcas deixadas na pele devido à pressão dos equipamentos de proteção individual (EPIs) de uso médico, após horas de uso. A última imagem circulou na França sob a alegação de se tratar de uma alergia ao uso de máscaras, mas essa informação não é comprovada. Além disso, o uso desse equipamento de proteção não causa infecção por bactérias do gênero Staphylococcus caso elas estejam adequadamente higienizadas.

A Staphylococcus aureus é uma bactéria que pode estar naturalmente presente no nariz ou na pele. Ela pode provocar desde infecções cutâneas até doenças mais sérias como a pneumonia. De acordo com a  coordenadora do Departamento de Micologia da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Regina Casz Schechtman, os possíveis diagnósticos apresentados nas imagens não devem estar relacionados a uma infecção deste tipo causada por uso máscaras de proteção.

“É muito comum que crianças tenham este tipo de infecção na pele, chamadas de piodermites. Mas não pelo uso da máscara de proteção. As infecções acontecem de forma secundária, se você tem traumas, desequilíbrios na flora, manipula uma bolha com a mão suja ou se a imunidade não está muito boa, por exemplo”, explica a especialista. 

A máscara só pode acarretar um problema na pele se houver alguma alergia, ou se o rosto e a máscara não forem higienizados. “O uso de máscara não leva a infecção, a má higiene sim. E nenhuma dessas fotografias deve ser necessariamente Staphylococcus. Em alguns casos a infecção pode ser causada por outro tipo de bactéria, a Streptococcus”. 

Imagens fora de contexto

Três das imagens foram retiradas de contexto e são anteriores à pandemia. A foto apresentada no canto inferior esquerdo foi originalmente publicada em maio de 2016 no site de banco de imagens IStock, pelo usuário Mixmike. A legenda indica que se trata de uma “menina coberta por catapora/varicela”, doença causada por um vírus, o varicela-zoster (VVZ).

Já a imagem do canto inferior direito foi tirada pelo fotógrafo Lipowski Milan e publicada em maio de 2017 no portal ShutterStock. A mulher na imagem é uma modelo e, inclusive, aparece em outros ensaios feitos pelo mesmo fotógrafo, sob a legenda “mulher idosa com rosácea, distúrbio facial da pele”. A rosácea é uma doença vascular inflamatória crônica causada por um ácaro chamado Demodex folliculorum, em ação com a bactéria Bacillus oleronius. Estas duas imagens foram posteriormente publicadas no site MedicalNewsToday. A primeira, sobre casos de catapora, e a segunda associada ao Lúpus.

Já a imagem do canto superior direito segue o mesmo padrão. Uma busca reversa no Google mostra que ela tem sido usada, ao menos desde 2018, por sites de conteúdo médico – como o “The Royal Children´s Hospital”, de Melbourne, na Austrália. A imagem é associada a um diagnóstico de eczema herpético, uma infecção viral, mas que pode ser acompanhada de uma infecção bacteriana secundária. 

De acordo com Schechtman, este é possivelmente também o diagnóstico da foto no canto superior esquerdo. “Provavelmente isto é um eczema, que pode ser ocasionado por pasta de dente, produtos de pele, remédio para acne que irritou o local”, diz. “O uso de uma máscara só pode provocar uma reação como essa se a pessoa tem alergia a um pigmento vermelho, por exemplo”. Não foi possível, contudo, encontrar a origem dessa imagem. No início de agosto, ela circulou na França como uma suposta reação do organismo ao uso de máscara.

Por fim, a fotografia localizada na parte central, à direita da publicação, circulou em diversos sites italianos e é a única que, comprovadamente, tem relação com o novo coronavírus. Contudo, ela não mostra uma pessoa doente, e sim uma profissional de saúde que ficou com o rosto marcado após usar equipamentos de proteção individual (EPIs) por horas. Ao contrário das máscaras comuns, respiradores como o N95 vedam totalmente a entrada de ar e, por isso, fazem pressão na pele e podem deixar marcas temporárias. A foto original foi republicada pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em sua conta pessoal no Twitter.

Também não é verdade que os profissionais da saúde usem máscaras descartáveis sempre. De acordo com o Ministério da Saúde, médicos, enfermeiros e outros trabalhadores em hospitais podem utilizar a máscara cirúrgica ou os respiradores, de acordo com a atividade realizada. 

Contudo, apesar desse conteúdo ser falso, a higienização das máscaras é muito importante. O Ministério da Saúde recomenda que elas sejam trocadas a cada duas horas. Caso não sejam descartáveis, é imprescindível lavar a peça antes do próximo uso.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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