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Lupa na Ciência: Estratégia sueca para alcançar ‘imunidade de rebanho’ na pandemia não foi eficaz, aponta estudo

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
17.ago.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

– Um estudo publicado recentemente reforçou a ideia de que a estratégia sueca para conter a pandemia pelo novo coronavírus não trouxe os resultados esperados

– O país, que teve uma das maiores mortalidades per capita da Europa, foi um dos únicos a não adotar medidas restritivas para a contenção do vírus, acreditando que conseguiria alcançar a “imunidade de rebanho” em poucos meses

– A expectativa era que, em maio, 40% da população já tivesse imunidade. No entanto, o estudo recente mostrou que, na capital sueca, esse número era de apenas 17% 

– Outras análises, realizadas pelo próprio governo local, já haviam indicado que o número de cidadãos com anticorpos estava muito abaixo do esperado

– O governo da Suécia reconhece que o país deveria ter tomado algumas medidas mais restritivas no início da epidemia, mas que não adotaria políticas tão severas quanto a de seus vizinhos

– O governo sueco acredita ainda que a estratégia de educar a população a manter o distanciamento social e correta higiene foi eficaz, e que isso se reflete na queda recente de mortes no país, e estabilização no número de casos

A estratégia adotada pela Suécia de permitir a disseminação controlada da Covid-19 no país para adquirir rapidamente uma “imunidade de rebanho” não foi eficaz, apontou um estudo publicado na última semana no Journal of the Royal Society of Medicine. De acordo com a investigação, as taxas de contaminação registradas em Estocolmo, capital do país, atingiram cerca de 17% da população, número bem inferior ao esperado pelo governo local. Meses antes, uma pesquisa feita pela Agência de Saúde local havia estimado que, em maio, apenas 6,1% dos habitantes continha anticorpos contra o novo coronavírus. No início da pandemia, quando diversos países adotaram medidas rigorosas para conter a propagação do vírus, o governo da Suécia anunciou que seria mais flexível e, com essa estratégia, esperava que 40% da população estivesse imunizada até maio. A pesquisa publicada nesta semana indicou, no entanto, que além de ter fracassado em alcançar a imunidade de rebanho, a Suécia contabilizou taxas mais altas de infecção viral, hospitalização e mortalidade quando comparada com os demais países nórdicos. A situação gerou tanta preocupação que, por semanas, as nações vizinhas fecharam as fronteiras com o país.  

A desejada “imunidade de rebanho” parte da premissa de que, se uma parcela significativa da população desenvolver anticorpos contra uma determinada doença, a cadeia de transmissão do patógeno é reduzida a ponto de eliminar a ameaça. Estimar a porcentagem mínima necessária de pessoas com imunidade para frear uma epidemia é importante para, por exemplo, avaliar quantos precisam ser vacinados durante uma campanha de imunização em massa para que ela seja eficaz. No caso da Covid-19, os dados divergem sobre essa porcentagem. Uma pesquisa publicada em meados de junho na revista Science chegou à conclusão de que seria necessário pelo menos 43% de cidadãos com defesa contra o novo coronavírus para alcançar imunidade coletiva. Outras pesquisas estimam valores entre 40% e 80% da população

Estratégia arriscada

Adotar essa estratégia sem que se tenha uma vacina nem informações mais claras sobre a doença, no entanto, se mostrou arriscado. Primeiro porque a taxa de letalidade da Covid-19 ainda não é totalmente clara, mas já se sabe que ela fica entre 0,6% e 1% – um valor alto se comparado, por exemplo, à gripe A, cuja taxa é de 0,01%. Segundo, porque de acordo com descobertas recentes, a infecção pelo novo coronavírus pode deixar sequelas a longo prazo, prejudicando a qualidade de vida dos recuperados e aumentando a demanda do serviço de saúde pública por meses, ou até anos.

No início da pandemia, enquanto as demais nações nórdicas, países europeus e Estados Unidos confinavam seus cidadãos e restringiam a atividade econômica, o governo sueco, sob supervisão do epidemiologista-chefe Anders Tegnell, manteve shoppings, restaurantes, escolas e academias funcionando normalmente, com algumas pequenas restrições. Com um sólido sistema de saúde e uma população saudável, a Suécia imaginava que alcançaria rapidamente a “imunidade de rebanho” e não sofreria com uma segunda onda da doença. Por lá, o governo afirmou que confiava no civismo da população e na responsabilidade individual de usar máscara, praticar uma rotina de higiene correta e manter o distanciamento social. 

Sete meses depois de os primeiros casos serem registrados na Europa, o cenário da Suécia não foi o esperado pelo governo. Para chegar aos resultados do estudo publicado na última semana, os pesquisadores analisaram os dados disponíveis sobre número de casos, fatalidades e testes sorológicos (que detectam os anticirpos IgG e IgM) realizados nos países escandinavos e no Reino Unido até junho. Eles observaram que Londres, capital britânica, e Estocolmo tiveram taxas de contaminação semelhantes. O Reino Unido, no início da pandemia, adotou medidas mais flexíveis, mas mudou sua postura com o aumento exponencial no número de mortos, chegando a decretar lockdown por algumas semanas. Os autores verificaram, ainda, que a Suécia tem uma das maiores mortalidades per capita da Europa. 

O estudo, no entanto, tem algumas limitações. Uma delas é o fato de que, até hoje, não está claro para a ciência se os exames sorológicos comuns, que detectam os anticorpos IgG e IgM, respondem com precisão se uma pessoa entrou em contato com o novo coronavírus e adquiriu imunidade. Uma pesquisa recente, publicada na revista científica Nature Medicine, apontou que o nível de anticorpos no organismo daqueles que contraíram a Covid-19 e se curaram diminuiu significativamente dois ou três meses após a infecção, a ponto de ficarem indetectáveis nos exames. Estudos posteriores sugeriram, no entanto, que as células T, outro componente importante do sistema imunológico, podem permanecer ativas por anos no organismo, e fornecer algum tipo de proteção a longo prazo. Essas células não são detectadas nos exames sorológicos comuns.

Alto número de mortes

Apesar dessas incertezas sobre a imunidade da população, e frente às consequências enfrentadas pela Suécia ao longo dos últimos meses, o governo local admitiu que teria tomado algumas atitudes diferentes para enfrentar a pandemia. Em entrevista à BBC, Tegnell disse que, caso enfrentasse situação semelhante novamente, recomendaria políticas mais restritivas que as tomadas pelo país neste ano, mas menos severas que as adotadas pelos vizinhos. 

Durante a pandemia, o país registrou 572 mortes para cada 1 milhão de habitantes. Embora seja um patamar ligeiramente inferior ao de países como Itália, Espanha e Reino Unido, essa proporção é quase seis vezes maior do que na Dinamarca (101 mortes por milhão), nove vezes maior do que na Finlândia (60) e 12 vezes maior do que na Noruega (48). Mesmo com poucas restrições, o impacto econômico do novo coronavírus foi significativo. Dados recentes da Statistics Sweden indicaram que o Produto Interno Bruto (PIB) da Suécia no segundo trimestre de 2020 caiu -8,6% em comparação com os três meses anteriores. O número, ainda que seja significativamente melhor do que a contração de -12% experimentada na zona do euro no mesmo período, não era o esperado quando se decidiu optar pelo não fechamento do comércio. 

Recentemente, os dados epidemiológicos do país mostram que, depois de quedas e aumentos nos casos, a epidemia parece finalmente começar a ser controlada por lá, com uma queda no número de mortes e internados em estado grave. Ainda se especula o motivo que leva a essa queda e estabilização, mas, de acordo com um artigo publicado no início de agosto na revista The Lancet, especialistas descartam a possibilidade de o país ter adquirido a “imunidade de rebanho” e acreditam que seja pelo fato de que a Suécia tenha sido bem-sucedida em outro aspecto: o de educar a população.

Em um comunicado recente, Tegnell afirmou que, de acordo com as análises locais, a população tem apenas 30% da interação social que tinha antes da pandemia. Além disso, uma pesquisa feita pela Sweden’s Civil Contingencies Agency mostrou que 87% dos cidadãos continuam respeitando as recomendações de distanciamento social, mesmo após a queda no número de novos casos. O acompanhamento ao longo dos próximos meses poderá mostrar, de forma mais clara, se as mudanças comportamentais vão permanecer, ou se o país ainda sofrerá novas ondas de mortes até que se tenha uma vacina. 

Fontes:

Nature Medicine. Artigo disponível em:
https://www.nature.com/articles/s41591-020-0965-6

Journal of the Royal Society of Medicine. Artigo disponível em:
https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/0141076820945282

Public Heatlh Agency of Sweden. Informações disponíveis em:
https://www.folkhalsomyndigheten.se/the-public-health-agency-of-sweden/communicable-disease-control/covid-19/

Statistics Sweden. Informações disponíveis em:
https://www.scb.se/en/

Sweden’s Civil Contingencies Agency. Informações disponíveis em:
https://www.msb.se/en/news/2020/april/behavioral-changes-in-the-population-are-holding/

The Lancet. Artigo disponível em:
https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31672-X/fulltext

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra  a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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