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Lupa na Ciência: Por que pessoas param de sentir cheiros após contrair Covid-19?

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
21.ago.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

– Estudos recentes reforçaram a suspeita de que o sistema olfativo pode ser afetado diretamente pelo novo coronavírus, e que esta seria a causa da perda temporária da capacidade de sentir cheiro

– Nas análises, pesquisadores encontraram uma alta concentração da enzima ECA-2, usada pelo novo coronavírus para invadir células do corpo humano, no epitélio olfativo

– Os estudos mais detalhados desse sistema indicaram que quem expressa essa enzima em grande quantidade são as chamadas células de suporte, e não os neurônios sensoriais 

– As descobertas reforçam a suspeita de que a perda de olfato é um sintoma quase sempre temporário e que tende a se regularizar assim que a infecção acaba

– Danos permanentes já foram registrados, mas cientistas suspeitam que esses casos não tem relação direta com a infecção, e sim com a resposta imunológica exacerbada do organismo 

Desde o início da pandemia, pesquisadores buscam entender o que leva grande parte dos contaminados pelo novo coronavírus a sofrer com a perda do olfato, mesmo sem desenvolver qualquer outro sintoma da doença. Dois estudos publicados nas últimas semanas trouxeram algumas respostas importantes sobre esse fenômeno, conhecido como anosmia. Cientistas realizaram análises detalhadas do sistema olfativo e identificaram que algumas células presentes nessa região expressam em grandes quantidades a proteína ECA-2. Ela funciona como uma espécie de chave à qual o SARS-CoV-2 se liga para invadir as células humanas. De acordo com os pesquisadores, o processo não tende a prejudicar permanentemente a capacidade de sentir cheiro, já que não afeta diretamente os neurônios sensoriais. Essas descobertas não só ajudam a explicar esse fenômeno, mas também dão pistas sobre o motivo do novo coronavírus ser tão infeccioso. Elas podem ser úteis no desenvolvimento de tratamentos que bloqueiem esse canal de entrada do patógeno no corpo.

Em torno de 65% das pessoas infectadas experimentem alteração no paladar ou no olfato imediatamente antes ou logo após serem diagnosticadas com a doença, segundo estudos feitos sobre esse tema. Inicialmente, a principal suspeita era de que essa alteração ocorria por motivos semelhantes aos da gripe comum, quando o inchaço das passagens nasais (o famoso nariz entupido) obstrui o fluxo de ar e prejudica, assim, a capacidade de sentir cheiro e gosto. No entanto, logo se observou que, no caso da Covid-19, o vírus estava causando a perda do olfato mesmo na ausência de outros sintomas respiratórios. A hipótese passou a ser, então, que o microrganismo atingiria diretamente essa região. Isso vem sendo confirmado e explicado em pesquisas mais recentes. 

O epitélio nasal é dividido em respiratório (ER) e olfatório (EO), cujas funções e tipos celulares diferem. O ER nasal reveste grande parte do trato respiratório e acredita-se que umidifique o ar ao entrar no nariz. Ele foi analisado já nos primeiros estudos sobre o novo coronavírus, e logo se descobriu que era um local em que o patógeno tinha capacidade de se reproduzir. Já o epitélio olfatório, foco das pesquisas mais recentes, é responsável pela detecção do odor. Esse tecido capta moléculas presentes no ar inspirado e produz estímulos nervosos que são conduzidos até o cérebro e traduzidos em cheiro. Há diferentes tipos de célula nessa região, incluindo neurônios sensoriais olfativos e células de apoio.

Em um estudo publicado recentemente no European Respiratory Journal, pesquisadores analisaram tecidos retirados da parte de trás do nariz e da traqueia de 23 pacientes que nunca haviam sido diagnosticados com o novo coronavírus. Os tecidos foram então expostos a corantes fluorescentes a fim de detectar e visualizar a presença da ECA-2, e comparar seus níveis em diferentes partes do nariz e das vias aéreas superiores. Na pesquisa, os pesquisadores concluíram que a maior quantidade dessa enzima aparecia no epitélio olfativo. Nessa região, a concentração dessa substância era entre 200 e 700 vezes maior do que em outros tecidos do nariz e da traqueia. Identificar onde o ECA-2 está presente é fundamental para entender quais são os locais do organismo que o novo coronavírus utiliza como porta de entrada para infectar o corpo humano. 

“Este epitélio é uma parte do corpo muito fácil de ser alcançada por um vírus, já que não está localizado no fundo do nosso corpo. Os níveis muito altos da enzima que encontramos lá podem explicar por que é tão fácil pegar a Covid-19”, explicaram os autores do estudo. 

Já em outro estudo, publicado no final de julho na Science Advanced, pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, foram um pouco mais além e analisaram quais as células específicas do epitélio olfativo expressavam a enzima com tanta intensidade, para assim detectar que tipo de dano o vírus causava na capacidade de sentir cheiro. Por meio de análises genéticas, descobriram que eram as células de suporte as responsáveis por essa alta expressão da ECA-2, e que o mesmo não ocorria com os neurônios sensoriais olfativos. 

“Nossas descobertas indicam que o novo coronavírus muda o sentido do olfato em pacientes sem infectar diretamente os neurônios. Acho que é uma boa notícia, porque uma vez que a infecção desaparece, os neurônios parecem não precisar ser substituídos ou reconstruídos do zero”, explicou uma das autoras do estudo. Isso significa que o organismo tem a capacidade de voltar a funcionar normalmente assim que a infecção passa. De acordo com os pesquisadores de Harvard, na maioria dos casos, a ausência de olfato em infectados pelo novo coronavírus tem durado, em geral, de quatro a seis semanas. 

Contudo, existem casos registrados de pessoas que não recuperaram a capacidade de sentir cheiros após curadas. Alguns especialistas sugerem que esse fenômeno possa estar ligado a outro aspecto da doença, a chamada “tempestade de citocinas” – uma reação exagerada do corpo contra o vírus, que acaba danificando diversos órgãos e sistemas, entre eles o neurológico. 

Fontes:

Journal of the American Medical Association. Artigo disponível em:
https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2765183

European Respiratory Journal. Artigo disponível em:
https://erj.ersjournals.com/content/early/2020/07/23/13993003.01948-2020

Science Advanced. Artigo disponível em:
https://advances.sciencemag.org/content/6/31/eabc5801

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra  a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés

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