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Lupa na Ciência: Remdesivir tem resultado abaixo do esperado em casos moderados de Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
26.ago.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

  • Um novo estudo randomizado e controlado com o remdesivir mostrou melhora muito modesta no quadro de pacientes com sintomas moderados da Covid-19. 
  • No estudo, que contou com 584 participantes, quem tomou o medicamento por 10 dias não teve melhoras quando comparado ao grupo controle
  • Voluntários que tomaram a droga por cinco dias, por sua vez, apresentaram, em média, resultados ligeiramente melhores. Porém, a diferença é muito pequena
  • Centros de pesquisa estão avaliando se a combinação com outro medicamento, o interferon beta, melhoraria os efeitos do remdesivir. Ainda não há publicações com os resultados dessa opção de tratamento

Considerado um dos medicamentos mais promissores contra a Covid-19, o antiviral remdesivir não mostrou a eficácia esperada no tratamento de casos moderados da doença. É o que aponta o estudo publicado na última semana no periódico Journal of the American Medical Association (JAMA). Voluntários que receberam a droga experimental durante 10 dias não tiveram melhoras significativas nos seus quadros clínicos na comparação com os que receberam o tratamento padrão, que inclui suporte de ventilação quando necessário, analgésicos, entre outras medidas. Já os que foram tratados com o antiviral por cinco dias apresentaram pequena melhora, mas os autores do estudo não sabem dizer se ela é clinicamente relevante.

Os pesquisadores realizaram um estudo clínico randomizado e controlado com um grupo de 584 voluntários (357 homens e 227 mulheres) hospitalizados nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia entre 15 de março e 18 de abril. Todos apresentavam casos moderados da Covid-19, caracterizados a partir de uma série de exames, entre eles tomografias que apontaram algum tipo de dano pulmonar, sem prejuízo da função do órgão. A idade média era de 57 anos, e parte dos pacientes tinha doenças pré-existentes, como problemas cardiovasculares, hipertensão e diabetes. 

Os voluntários foram divididos em três grupos: 197 pessoas receberam doses de remdesivir durante 10 dias, 199 foram tratadas com o mesmo medicamento por cinco dias, e 200 receberam tratamento padrão. Os pesquisadores compararam os resultados dos pacientes mapeando os efeitos adversos do tratamento e medindo o quanto os pacientes melhoraram. Eles também monitoraram a duração das internações hospitalares e os tempos de recuperação e de necessidade de suporte respiratório.

A primeira avaliação foi feita no 11º dia após o início dos tratamentos. Ela mostrou que os participantes que tomaram o remdesivir por 10 dias não tiveram melhoras significativas e apresentaram mais efeitos colaterais, como náusea e dor de cabeça, do que os que não tomaram a droga. No grupo que recebeu o remdesivir por cinco dias, uma parcela considerável de pacientes teve melhora no quadro clínico. No entanto, essa melhora foi pequena, segundo os pesquisadores, e por isso, eles afirmam que ela é de “importância clínica incerta”. No 28º dia desde o início dos tratamentos, nove pacientes haviam morrido: dois entre os que receberam remdesivir por 5 dias, três no grupo de 10 dias e quatro no grupo de tratamento padrão.

Em um editorial publicado na mesma revista, Erin McCreary e Derek Angus, dois dos autores do estudo, questionam a eficácia do remdesivir frente à expectativa que havia sido criada sobre a droga. Eles também ponderam se outros medicamentos mais baratos, como a dexametasona, não seriam mais adequados, considerando o aumento na demanda pelo antiviral. “Não se sabe se o remdesivir oferece benefícios adicionais sobre os corticosteróides, que são amplamente disponíveis e baratos”, escreveram. Em última análise, os pesquisadores indicam que mais pesquisas sobre o remdesivir são necessárias para entender verdadeiramente quais pacientes se beneficiam com a droga e quais não.

Estudos anteriores apresentaram resultados contraditórios

O remdesivir é um antiviral patenteado pela farmacêutica Gilead e ganhou os holofotes em abril, após um pequeno estudo publicado na revista científica New England Journal of Medicine indicar que ele reduzia o tempo de internação e melhorava o quadro de pacientes internados em estado grave de Covid-19. A droga foi desenvolvida na década passada, inicialmente para o tratamento de hepatite C, mas também chegou a ser usada, de forma experimental, no tratamento do ebola. Um estudo de 2017, publicado na revista Science Translational Medicine, mostrou que ele era eficaz em ratos contra a SARS (síndrome respiratória aguda grave) e a MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio), sem efeitos tóxicos relevantes.  As duas doenças são causadas por organismos similares ao SARS-Cov-2.

Após a publicação do pequeno estudo no New England Journal of Medicine, uma série de pesquisas clínicas com metodologias rigorosas e com grande número de participantes começaram a ser desenvolvidas com a droga em diferentes países. Em maio, duas tiveram resultados publicados. Na maior delas, o medicamento reduziu o tempo de internação e diminui ligeiramente a taxa de mortalidade de pacientes com o novo coronavírus. Na outra, que analisou os efeitos em um número menor de pessoas, os resultados obtidos não indicaram benefícios. 

Mesmo assim, a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos emitiu, há alguns meses, uma autorização emergencial para o uso da droga no tratamento de pacientes hospitalizados com a Covid-19 em estado grave. Aqui no Brasil, o remdesivir ainda não tem registro, mas a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou que está em contato com a farmacêutica responsável pela fabricação para verificar o interesse e a viabilidade do fornecimento do produto. 

Em um comunicado na última semana, a Gilead informou que o uso da droga também poderá ser autorizada nos Estados Unidos para pessoas com sintomas moderados da doença. A empresa considerou positivos os resultados do estudo mais recente, por conta da melhora observada nos pacientes que receberam o medicamento por cinco dias. A possível liberação da droga para os casos moderados de Covid-19 inquietou a comunidade científica, que questionou a interferência de interesses comerciais nas decisões médicas. Frente às incertezas, diversos centros de pesquisa estão avaliando se a adição de outro medicamento, o interferon beta – que ajuda a eliminar o vírus e também a conter a inflamação – melhoraria os efeitos do remdesivir e aceleraria a recuperação. Os resultados desta combinação ainda não são conhecidos.

Fontes:

The Journal of the American Medical Association (JAMA). Artigos disponíveis em:

https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2769871?appid=scweb

https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2769870

New England Journal of Medicine. Artigo disponível em:

ttps://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2007016

Science Translational Medicine. Artigo disponível em:

https://stm.sciencemag.org/content/9/396/eaal3653?utm_campaign=toc_stm_2017-06-28&et_rid=17050501&et_cid=1410533

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Documento disponível em:
http://portal.anvisa.gov.br/documents/219201/4340788/Perguntas+e+respostas_COVID+19+Ascom.pdf/f2819214-f3f1-45db-9a42-de858593d098

Food and Drug Administration (FDA). Documento disponível em:
https://www.fda.gov/media/137566/download

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra  a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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