A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Lupa na Ciência: O que o primeiro registro de reinfecção por Covid-19 ensina sobre mutações, vacinas e imunidade

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
28.ago.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

– Primeiro caso confirmado de reinfecção pelo coronavírus foi publicado nesta terça-feira (25) e indica que o paciente se contaminou com duas versões diferentes do vírus

 – De acordo com a análise genética, a segunda versão encontrada no paciente é mais próxima à que circulou na Europa entre julho e agosto, e a primeira era semelhante às que circularam em março e abril na Ásia

 – Pesquisadores acreditam que o paciente tinha algum tipo de defesa contra a segunda infecção, já que ela foi assintomática. Na primeira, o paciente precisou ser internado

 – Ainda não se sabe se ele era capaz de transmitir a doença na segunda infecção, mas os autores do estudo alertam que a descoberta indica ser improvável que a imunidade de rebanho possa eliminar o SARS-CoV-2

 – A confirmação do caso também pode ter implicações nas estratégias de imunização, levantando a possibilidade de que a vacina contra a Covid-19 tenha que ser administrada anual ou semestralmente.   

Publicado na última terça-feira (25), um estudo relatou o primeiro caso confirmado de reinfecção pelo novo coronavírus. A pesquisa, que foi aceita para publicação na revista Clinical Infectious Diseases, detalha o caso de um homem de 33 anos que mora em Hong Kong. Ele testou positivo pela primeira vez para a Covid-19 no final de março, quando foi hospitalizado com sintomas como tosse, dor de garganta, febre e dor de cabeça. Em meados de agosto, meses depois de se recuperar totalmente da doença, voltou a testar positivo no retorno de uma viagem pela Europa. Desta vez, ele não apresentou sintomas. Os cientistas coletaram amostras do corpo do paciente nas duas ocasiões. Ao compará-las, constataram que o código genético do vírus era diferente e, portanto, ele foi reinfectado.

A divulgação do caso pegou muita gente de surpresa, mas não a comunidade científica. Ao longo dos últimos meses, uma série de estudos sobre as mutações do SARS-CoV-2, e também sobre o comportamento do nosso sistema imunológico, vêm apontando para a possibilidade de que o novo coronavírus tenha características semelhantes aos vírus das gripes sazonais: são provocadas por patógenos que passam a circular entre os humanos de forma permanente e demandam vacinação anual. A Lupa reuniu as principais informações sobre o tema para esclarecer o que já se sabe e o que ainda é incerto em relação à reinfecção pelo SARS-CoV-2. 

Caso atual difere de outros relatos de reinfecção

Em meados de abril, a Coreia do Sul levantou, pela primeira vez, a hipótese de reinfecção ao anunciar que uma série de pacientes considerados recuperados da Covid-19 voltaram a testar positivo. A especulação logo foi descartada. Os pesquisadores concluíram que não se tratava de novas contaminações, mas de um comportamento peculiar do processo de cura da doença. Fragmentos de células mortas do pulmão que contêm material genético já inativo do coronavírus podem permanecer por semanas, e até meses, no corpo, mesmo depois de o paciente estar totalmente recuperado. Aos poucos, esse material emerge para as vias respiratórias superiores para ser expelido. Se o teste PCR é realizado neste momento, pode dar positivo para a doença mesmo que a pessoa já esteja recuperada.

Porém, não foi o que ocorreu com o homem de Hong Kong. Nesse caso, a confirmação da reinfecção se deu porque os pesquisadores fizeram, além dos testes PCR, uma análise genética do vírus detectado no organismo dele em março e do encontrado em agosto, e concluíram que não eram iguais. Foram identificadas mudanças em 24 partes da sequência genética, o que indica que o segundo vírus que infectou o homem na Europa havia sofrido mutações significativas quando comparado à primeira versão que começou a circular na China. Segundo os cientistas, a segunda versão encontrada no paciente é mais próxima à que circulou na Europa entre julho e agosto, e a primeira era semelhante às que circularam em março e abril na Ásia. Após a divulgação desse caso, outros com as mesmas características foram relatados por equipes médicas na Holanda, Bélgica e também no Brasil. Até o momento, pelo menos 7 casos suspeitos são investigados no estado de São Paulo.

Mutações ainda não causam preocupação

As análises genéticas das variantes do novo coronavírus e a forma como nosso corpo reage a essas diferentes versões são fundamentais para entender melhor as consequências das mudanças que ele vem sofrendo conforme se espalha pelo planeta. Mutações são pequenas alterações aleatórias que ocorrem na sequência de proteínas que forma o RNA ou DNA de um organismo. Muitas delas são irrelevantes e não alteram o comportamento do patógeno. Outras, porém, podem ser tão significativas que mudam a relação dele com o hospedeiro. Um estudo publicado em maio na revista Infection, Genetics and Evolution, por exemplo, reuniu informações de milhares de pessoas infectadas em diversos países e identificou quase 200 mutações já sofridas pelo novo coronavírus. Uma dessas mutações fez com que o vírus se tornasse mais infeccioso, ou seja, melhorou sua capacidade de invadir as células humanas.

Até o momento, no entanto, não há evidências de que o vírus tenha se modificado tanto a ponto de se tornar irreconhecível para o organismo de alguém que já entrou em contato com sua versão anterior. O caso recente do paciente chinês reforça essa ideia, por mais contraditório que isso pareça. O que os pesquisadores acreditam é que o organismo do homem foi capaz de reconhecer a nova versão do SARS-CoV-2 que o infectou na viagem para a Europa e produzir algum tipo de resposta contra ele, impedindo que a doença evoluísse para quadros graves. Ela só não foi forte o suficiente para evitar a segunda contaminação por completo. O viajante não exibia sintomas e só foi testado porque estava retornado de uma viagem. O exame é obrigatório para todas as pessoas que chegam de países estrangeiros em Hong Kong.

 Segunda infecção pode ser mais leve

Estamos acostumados a pensar que, quando entramos em contato com um vírus ou bactéria, podemos ficar protegidos dele para sempre. Mas a verdade é que muito poucas infecções naturais geram uma resposta imunológica que impede completamente a reinfecção. Em vez disso, o que geralmente acontece após nos recuperarmos de uma doença é que a defesa do corpo diminui gradualmente ao longo dos meses. Assim, nosso organismo fica vulnerável a uma reinfecção. Ela pode ser tão grave quanto a primeira, mas pode também resultar em sintomas mais leves, ou não causar nenhuma manifestação – como no caso do paciente de Hong Kong.

No caso do novo coronavírus, ainda não se sabe bem como essa resposta ocorre e nem por quanto tempo dura. O que os estudos já apontaram é que os anticorpos, uma das primeiras frentes de defesa contra o invasor, tendem a diminuir drasticamente com o passar dos meses, mas que um outro tipo de resposta imune, as células T, permanecem ativas por muito mais tempo. Elas são responsáveis por guardar a memória imunológica, e também por atacar o vírus quando este está dentro das células. O que ainda não está claro é se elas são suficientes para evitar ou amenizar uma segunda infecção.

De acordo com os autores do estudo com o paciente de Hong Kong, o fato de ele ter se reinfectado de forma assintomática indica que o seu sistema de defesa já deveria estar preparado e teve alguma ação sobre o vírus, evitando o desenvolvimento de qualquer manifestação mais severa da doença. No entanto, ela não foi forte o suficiente para eliminar totalmente o invasor. O mesmo já havia sido identificado em um experimento com macacos. Em um estudo publicado na revista Science, pesquisadores reinfectaram os animais e observaram que a doença se manifestou de forma mais branda na segunda vez.

Apesar das evidências coletadas até agora, os autores do estudo afirmam que, para entender com mais detalhes qual é a forma padrão com que o organismo se comporta em caso de reinfecção, será preciso acompanhar mais casos de pacientes curados da Covid-19 que voltam a entrar em contato com o vírus, em suas diferentes versões. Só assim os pesquisadores conseguirão entender se o comportamento do sistema de defesa do homem de Hong Kong foi uma exceção, ou se é a regra.

Possibilidade de “imunidade de rebanho” é menos provável

Mesmo sem essas respostas, o fenômeno relatado no estudo levanta algumas questões importantes. A primeira é quanto à ideia de que seria possível adquirir uma imunidade coletiva, também chamada “imunidade de rebanho” em um futuro próximo. Isso acontece quando uma porcentagem suficiente da população desenvolve imunidade contra um determinado patógeno, seja por contaminação ou por vacina, a ponto de fazê-lo parar de circular. Se parte da população que já entrou em contato com o novo coronavírus pode se contaminar novamente, como foi o relatado pelo paciente chinês, esse tipo de estratégia se torna ineficaz. Ainda não se sabe se o paciente reinfectado era capaz de transmitir a doença na segunda vez que foi contaminado, já que ele estava assintomático. No entanto, essa possibilidade é alta, uma vez que diversos estudos vêm demonstrando que pessoas com a Covid-19 sem sintomas são capazes de contaminar outros. Neste estudo, os autores dizem que a possibilidade de reinfecção lança dúvidas sobre a imunidade coletiva, tese que já vinha sendo especulada por alguns infectologistas. “É improvável que a imunidade de rebanho possa eliminar o SARS-CoV-2, apesar de ser possível que infecções subsequentes sejam mais leves que a primeira, como neste paciente”, explicam. 

Implicações nas estratégias de vacinação 

Outra questão importante que deverá ser analisada, caso o fenômeno de reinfecção se mostre consistente entre pacientes de Covid-19 no mundo, é a estratégia de imunização. Já se tem indícios de que a imunidade desenvolvida naturalmente após o contato com o vírus pode ser temporária. Se o mesmo efeito for observado com as vacinas, elas não concederão imunidade vitalícia, como se esperava no início. Isso implicará a necessidade de campanhas anuais, ou até semestrais, de vacinação. Além disso, o próprio desenvolvimento dos imunizantes terá que ser revisto. Talvez seja necessário aumentar o número de doses ou adotar outras estratégias que induzam a uma resposta imunológica mais forte no organismo. Enquanto não tivermos essas respostas, os autores do estudo indicam que mesmo pacientes curados da Covid-19 devem manter medidas preventivas como o uso de máscaras e higiene constante das mãos para evitar novos contágios.

 Fontes:

Clinical Infectious Diseases. Artigo disponível em:
https://academic.oup.com/cid/advance-article/doi/10.1093/cid/ciaa1275/5897019

Infection, Genetics and Evolution. Artigo disponível em:
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1567134820301829?via%3Dihub

Science. Artigo disponível em:
https://science.sciencemag.org/content/369/6505/812#:~:text=Immunity%20from%20reinfection&text=generated%20rhesus%20macaque%20models%20of,protected%20against%20a%20second%20infection.

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra  a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo