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Lupa na Ciência: Transmissão da Covid-19 pela amamentação é improvável, apontam estudos

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
31.ago.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

– Dois artigos publicados recentemente indicaram que é improvável a transmissão do novo coronavírus pelo aleitamento materno

– Em um dos estudos, pesquisadores avaliaram mais de 80 recém-nascidos que foram amamentados por mães com Covid-19 e nenhum contraiu a doença. Todas cumpriram rotinas rigorosas de higiene antes de entrar em contato com os bebês

– Outra pesquisa avaliou a presença do vírus em mais de 60 amostras de leite de mães contaminadas, e só encontrou a carga viral em uma delas. Testes subsequentes descobriram que o vírus estava inativo e, portanto, era incapaz de causar infecção no bebê amamentado

– Pesquisadores indicam que os estudos ainda são incipientes, mas grande parte das entidades internacionais, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), recomendam a amamentação mesmo durante a pandemia, desde que o contato entre mãe e bebê seja feito com os cuidados necessários

– Uso de máscara, higienização das mãos e mamas e desinfecção de superfícies são alguns dos cuidados fundamentais que mães com a Covid-19 devem ter para evitar a contaminação dos recém-nascidos 

Dois estudos publicados nas últimas semanas indicam que a transmissão da Covid-19 pela amamentação é improvável quando cuidados de higiene são respeitados. As pesquisas sugerem que o leite materno não é uma fonte de transmissão do novo coronavírus, e que a amamentação deve ser mantida e estimulada. 

Uma delas foi publicada no final de julho no The Lancet Child & Adolescent Health. Pesquisadores realizaram um estudo observacional em 116 mães que estavam contaminadas na hora do parto e que deram à luz entre 22 de março e 17 de maio em três hospitais de Nova York. Deste total, 63 foram partos vaginais e 43 cirúrgicos, ou seja, por cesárea. Todos os 120 recém-nascidos foram submetidos ao teste PCR (por coleta de secreção do nariz e boca) dentro das primeiras 24 horas de vida e testaram negativo para o novo coronavírus. 

Durante o período de observação dos pesquisadores, as mães foram autorizadas a ter contato pele a pele com os bebês e a amamentar, mas tinham que usar máscara cirúrgica quando perto do recém-nascido e praticar a higiene adequada das mãos e mamas antes do contato. Além disso, os bebês foram autorizados a dormir no mesmo quarto das mães, mas em berços protegidos e com um distanciamento adequado da cama. Um grupo de 82 bebês foi acompanhado nas primeiras semanas de vida. Deste total, 68 haviam dormido no mesmo quarto de suas mães e 64 estavam sendo amamentados. Entre cinco a sete dias de vida, 79 deles realizaram testes PCR.  72 também foram testados novamente 14 dias após o nascimento. Nenhum dos resultados foi positivo para o novo coronavírus, e nenhum dos bebês apresentou sintomas de Covid-19, relatou a equipe. 

Outra pesquisa que também trouxe dados animadores sobre o tema foi publicada em meados de agosto no Journal of the American Medical Association (JAMA). O estudo examinou 64 amostras de leite materno de 18 mulheres, que tiveram filhos entre um e 19 meses antes da coleta, todas elas infectadas com Covid-19 – uma delas, assintomática. As amostras, coletadas pelo centro de pesquisa Mommy’s Milk Research Biorespository, foram submetidas a testes PCR. Apenas uma testou positivo para o RNA viral.

Em estudos anteriores, o vírus também havia sido encontrado em amostras de leite de mães contaminadas. Os pesquisadores explicaram, no entanto, que esse tipo de teste é capaz de detectar a presença ou ausência do patógeno ou fragmentos dele, mas não consegue determinar se ele está ativo. Para responder essa questão, a amostra foi separada e a carga viral colocada em um meio de cultura, em laboratório. Esse procedimento permite ver se o vírus tem capacidade de se replicar – ou seja, se estava ativo e com potencial de contaminar. O resultado foi negativo, ou seja, o leite era incapaz de causar infecção no bebê amamentado.  

As descobertas recentes animaram a médicos e autoridades. No início da pandemia, por falta de informações sobre o tema, alguns países determinaram que recém-nascidos fossem afastados das mães contaminadas até que elas se curassem da doença. No entanto, ainda que os dados mais atualizados indiquem um baixo risco de contaminação durante a amamentação, os pesquisadores alertam que as pesquisas até agora contaram com um número pequeno de participantes, e que são necessários estudos mais consistentes para que se tenha recomendações definitivas sobre o tema. 

“Os dados sobre o risco de transmissão de Covid-19 durante a gravidez ou amamentação são limitados a um pequeno número de estudos de caso, e por isso as orientações podem variar. Esperamos que nosso estudo forneça alguma garantia às novas mães de que o risco de passarem o novo coronavírus para seus bebês é muito baixo”, explicou a Dra. Christine Salvatore, uma das autoras do estudo publicado no The Lancet Child & Adolescent Health. 

Em um editorial publicado no Journal of Perinatology, uma das publicações da Revista Nature, pesquisadores destacaram que o leite materno possui fatores anti-infecciosos e anti-inflamatórios, que se tornam especialmente importantes na mitigação de condições infecciosas, como é o caso da atual pandemia. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o que se tem de evidências sobre o tema até agora indica que os benefícios da amamentação se sobrepõem aos potenciais riscos. 

No guia de orientações para gestantes do Center for Diseases Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos, a entidade não faz nenhuma recomendação específica, apenas indica que mães e gestantes com suspeita ou confirmação da infecção pelo novo coronavírus discutam com os profissionais de saúde sobre o tema para decidir como proceder. 

Aqui no Brasil, a atualização mais recente do documento elaborado pelo Ministério da Saúde (MS), Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano (rBLH) – Fiocruz afirma que não há constatação científica significativa publicada que estabeleça relação entre a transmissão do SARS-CoV-2 e a amamentação. Por isso, o contato pele a pele e o aleitamento materno seguem sendo recomendados mesmo para mães com diagnóstico de Covid-19 confirmado. No entanto, o documento contempla uma série de orientações de higiene que são necessárias antes e durante esse contato. Entre elas estão a lavagem das mãos ao menos por 20 segundos com água e sabão e/ou uso álcool em gel 70% antes de tocar o bebê; uso de máscara (cobrindo completamente nariz e boca); uso de um lenço de papel ao espirrar ou tossir, que deve ser logo descartado; além da limpeza e desinfecção regular das superfícies. 

Fontes:

The Journal of the American Medical Association. Artigo disponível em:
https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2769825

Diseases Control and Prevention (CDC). Informações disponíveis em:
https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/hcp/caring-for-newborns.html

Journal of Perinatology. Artigo disponível em:
https://www.nature.com/articles/s41372-020-0738-6

Ministério da Saúde. Informações disponíveis em:
https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/atencao-crianca/covid-19-e-aleitamento-materno-orientacoes-da-sbp-e-rblh/

The Lancet Child & Adolescent Health. Artigo disponível em:
https://www.thelancet.com/journals/lanchi/article/PIIS2352-4642(20)30235-2/fulltext

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra  a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Maurício Moraes

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