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Zumbis, canibais e mortes inventadas: as 10 fakes mais bizarras da pandemia

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
01.set.2020 | 08h00 |

Receitas caseiras contra a Covid-19, remédios sem comprovação científica e posts falsos sobre autoridades e personalidades públicas são apenas uma parte das informações desmentidas durante a pandemia. Entre as publicações que circularam pelas redes sociais também estão histórias difíceis de acreditar, mas que acabaram viralizando em diferentes países e precisaram ser verificadas pelos jornalistas.

A Lupa analisou 8.704 checagens produzidas entre 1º de janeiro e 31 de agosto nas bases de dados Coronavirus Facts Alliance e CoronaVerificado e separou os 10 posts mais bizarros compartilhados pelo mundo. As histórias incluem teorias da conspiração, pessoas enlouquecidas e narrativas mirabolantes envolvendo o novo coronavírus, muitas vezes distorcendo situações que ocorreram em outro contexto. Veja, a seguir, o que encontramos, por ordem de publicação:

  1. Paciente ‘zumbi’

Logo no início da pandemia, em 28 de janeiro, viralizou no Brasil a história de que um paciente infectado pelo novo coronavírus havia mordido a jugular de um médico nos Estados Unidos – uma referência a filmes de terror que muita gente achou que fosse verdade. Para dar credibilidade à notícia, foi criado um print de uma suposta reportagem sobre o caso publicada pelo jornal O Globo. A montagem usava um link encurtado falso, que direcionava para uma reportagem sobre criacionismo. O fato descrito jamais ocorreu.

  1. Contágio por canibalismo

Um dos vários posts que tentavam explicar a origem da Covid-19 defendeu uma teoria bastante incomum. Em 7 de fevereiro, circulou pelas redes sociais nas Filipinas a foto de um homem chinês que segurava o que parece ser um feto em uma bancada de cozinha. Ele estaria sendo preparado para ser comido. Segundo a publicação, o canibalismo teria resultado no aparecimento do novo coronavírus. Na verdade, a imagem mostrava uma performance feita no ano 2000 pelo artista chinês Zhu Yu, conhecido por seus trabalhos controversos, chamada “Comendo pessoas”. Tratava-se de uma simulação.

  1. Assalto a boca armada

Um post desmentido em 28 de fevereiro dizia que um assaltante havia sido preso na Flórida depois de usar a tosse como arma, uma vez que ele estaria infectado pelo novo coronavírus. A notícia falsa foi compartilhada por meio de uma montagem que exibia uma suposta reportagem feita por uma rede de TV. A foto mostrava um homem de origem chinesa e, logo abaixo, a seguinte frase: “Se chamar a polícia, vou tossir”. Tratava-se, no entanto, de um meme produzido por um site humorístico, que foi tirado do seu contexto original.

  1. Terror no prostíbulo

Outra história, que acabou viralizando em 3 de março, na Espanha, narrava o terror que 86 clientes de um prostíbulo passaram ao descobrir que uma das profissionais do estabelecimento estava com a Covid-19. A casa, situada em Valência, teria sido colocada em quarentena com todo mundo dentro. Com isso, seus frequentadores precisariam explicar a presença no local para as suas famílias. Era uma outra brincadeira, criada por um jornal online satírico, compartilhada sem menção à fonte original.

  1. Sexo com morcegos

Ainda não se sabe como o novo coronavírus surgiu, mas pesquisas científicas sugerem que ele teria migrado de animais para seres humanos. Aproveitando esse fato, um post desmentido em 28 de março na Índia afirmava que o primeiro paciente da Covid-19 havia feito sexo com morcegos, segundo autoridades chinesas. O print de uma suposta reportagem mostrava a foto desse homem, ao lado de um título que narrava a “descoberta”. O artigo teve origem em um site humorístico que não deixa isso muito claro para o leitor e é conhecido por divulgar informações falsas de modo disfarçado. 

  1. Mortes inventadas

Se no Brasil uma das teorias da conspiração preferidas sobre a “farsa da pandemia” foi o enterro de caixões vazios, na Grécia circulou uma outra história igualmente fantasiosa, desmentida em 6 de abril. Os hospitais dos Estados Unidos estariam usando manequins como se fossem pessoas mortas pela Covid-19, para assustar a população. A “prova” seriam fotos mostrando em detalhe os bonecos de plástico ao lado de equipes médicas. Na verdade, as imagens foram capturadas de um vídeo que explica como funciona a ventilação mecânica e não usou pacientes reais. 

  1. Sangue de cobra

Os americanos também foram acusados em posts falsos de terem iniciado a pandemia. Em 9 de abril, uma dessas teorias foi desmentida em Taiwan. Um vídeo que viralizou na época afirmava que fuzileiros navais dos Estados Unidos foram treinados na Tailândia e teriam sido obrigados a beber sangue de cobra, que é predadora de morcegos. Assim, ficaram infectados pelo novo coronavírus. Depois disso, o grupo viajou à cidade de Wuhan, na China, para participar dos Jogos Mundiais Militares de 2019 e contaminou outras pessoas. Só que os eventos não tiveram relação. Os americanos de fato beberam sangue de cobra, mas estiveram na Tailândia neste ano, depois que a pandemia já havia começado. 

  1. Comemoração adiada

Circularam ainda histórias trágicas de pessoas que pareciam ter se recuperado da Covid-19, mas tiveram um contratempo. Uma delas, desmentida na Jordânia em 16 de abril, dizia que um homem havia sarado da doença e deixado o hospital. Para comemorar a boa notícia, sua família resolveu disparar vários tiros, como mostra um vídeo. O rapaz acabou sendo atingido por uma bala e teve de ser internado novamente. O caso realmente ocorreu, mas não teve relação com a doença. O homem havia sido libertado da prisão e acabou atingido por um disparo acidental, feito por um parente. Ele morreu no hospital.

  1. Cochilo fatal

Depois de um dia exaustivo por conta do grande número de mortes por Covid-19, o funcionário de um crematório em Nova York resolveu tirar uma soneca. Um colega de trabalho, no entanto, não percebeu que ele estava dormindo, e o homem, de 48 anos, foi cremado vivo. O post também teve origem em um site humorístico, mas acabou circulando sem esse contexto na Malásia e foi desmentido em 28 de abril. A foto usada nas publicações não tinha qualquer relação com o caso e mostrava funcionários de um necrotério transportando um cadáver.

  1. Veículo suspeito

Um caminhão com a imagem de Anúbis, deus egípcio da morte, deveria ser motivo de preocupação, segundo um post que circulou na Geórgia em 28 de julho. O veículo, que anunciava testes da Covid-19, na verdade estaria infectando as pessoas e implantando chips. Tudo mentira. O caminhão pertence à empresa Aardvark Mobile Tours, que tem como logotipo um porco-da-terra (aardvark, em inglês). Qualquer semelhança desse mamífero africano com o deus Anúbis é mera coincidência.

Esta coluna foi escrita pela Agência Lupa a partir das bases de dados públicas mantidas pelos projetos CoronaVerificado e LatamChequea Coronavírus, que têm apoio do Google News Initiative, e pela CoronaVirusFacts Alliance, que reúne 88 organizações de checagem em todo mundo. A produção das análises tem o apoio do Instituto Serrapilheira e da Unesco. Veja outras verificações e conheça os parceiros em coronaverificado.news

Editado por: Chico Marés e Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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