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#Verificamos: É falso que França, Itália e Reino Unido liberaram o uso de cloroquina

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
01.set.2020 | 16h42 |

Circula nas redes sociais um post que diz que, após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) “puxar a fila” para liberar o uso da cloroquina no tratamento para a Covid-19, países europeus, como França, Itália e Reino Unido, fizeram o mesmo. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“O Presidente Bolsonaro puxou a fila e agora França, Itália e Reino Unido já estão usando a cloroquina. Bolsonaro virou Mito Mundial”
Imagem publicada no Facebook que, até as 13h do dia 01 de setembro de 2020, tinha sido compartilhada por mais de 340 pessoas

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Nenhum dos países citados no post liberaram o uso da cloroquina no tratamento da Covid-19. Na imprensa, tampouco há registros recentes que mostram que França, Itália e Reino Unido recomendam a administração do medicamento para combater a doença.

Em maio, a Agência Italiana de Remédios (AIFA) publicou decisão que suspende o uso de cloroquina e hidroxicloroquina para o tratamento de pacientes com Covid-19. “Enquanto se aguarda evidência mais sólida de ensaios clínicos em andamento na Itália e em outros países (com referência particular aos randomizados), a AIFA suspende a autorização para o uso de hidroxicloroquina para o tratamento de SARS-CoV-2, fora dos ensaios clínicos, tanto em hospitais como em casa”, dizia nota da instituição. A AIFA também informou que nunca autorizou o uso do medicamento para fins preventivos.

A mesma decisão foi tomada por outros países, como a França. Por lá, o governo emitiu um decreto em 27 de maio que revogou a autorização do uso de hidroxicloroquina para casos de Covid-19. A decisão foi tomada depois que o Conselho Nacional para Saúde Pública do país recomendou não utilizar os medicamentos no tratamento contra o novo coronavírus. No Reino Unido, a Agência que regula medicamentos e produtos de saúde (MHRA) reforçou em junho que nem a hidroxicloroquina nem a cloroquina estão licenciadas para tratar os sintomas relacionados à Covid-19.

Aqui no Brasil, o uso desses dois medicamentos no tratamento de Covid-19 é autorizado. A orientação para a prescrição fica a critério do médico, sendo necessária a autorização declarada do paciente. O protocolo mais recente publicado pelo Ministério da Saúde é de junho deste ano. O texto diz que a administração do medicamento para casos leves, moderados e graves também se estende a crianças e gestantes, que passaram a fazer parte dos grupos de risco.

Estudos

Nos últimos meses, estudos com hidroxicloroquina foram interrompidos por dois dos maiores grupos de pesquisa avaliando potenciais tratamentos contra a Covid-19. Em junho, o Recovery Trial, coordenado pela Universidade de Oxford, suspendeu testes com o remédio ao notar que ele não mostrou nenhum benefício no tratamento da doença em relação ao grupo de controle. Ao todo, 1.532 pacientes foram medicados, em testes randomizados. Em julho, foi a vez do Solidarity Trial, coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), encerrar testes com hidroxicloroquina. Assim como no Recovery Trial, a droga não mostrou benefícios no tratamento.

Um estudo brasileiro publicado em julho no periódico New England Journal of Medicine também comprovou que a hidroxicloroquina é ineficaz no tratamento de casos leves e moderados da Covid-19. Foi um ensaio clínico multicêntrico, randomizado e controlado, realizado com centenas de pacientes. Trata-se de uma série de práticas que permitem eliminar possíveis vieses e incertezas durante o processo, permitindo resultados mais confiáveis.

A revista The Lancet chegou a publicar em maio um estudo observacional, método menos rigoroso que os das outras pesquisas citadas, que concluiu que os medicamentos não são eficazes para o tratamento da Covid-19 e que, inclusive, aumentam o risco de morte. Porém, o artigo foi retirado, diante preocupações com a qualidade dos dados utilizados na pesquisa.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) reforça que não há evidências científicas que comprovem a eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina contra a Covid-19.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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