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Lupa na Ciência: Diferenças na resposta imunológica ajudam a entender por que o novo coronavírus é mais mortal para homens

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
02.set.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

– Um estudo publicado na revista Nature mostrou que mulheres com a Covid-19 apresentam uma resposta imunológica mais robusta que homens

– Os pesquisadores identificaram que elas ativam uma quantidade maior de células T, um dos componentes de defesa do organismo, responsável por invadir as células infectadas

– Além disso, identificaram que a capacidade de reação do sistema imunológico dos homens tende a diminuir com o passar dos anos, o que não ocorre na mesma proporção com as mulheres

– Os autores do estudo indicam que essas descobertas podem ter implicações importantes na definição dos tratamentos contra a doença conforme o sexo

– Após essas descobertas, especialistas questionam também se os homens possam vir a necessitar de vacinas mais fortes para protegê-los da doença

Um estudo publicado em 26 de agosto na revista Nature trouxe algumas respostas importantes sobre o que faz o novo coronavírus ser mais letal para homens do que para mulheres. De acordo com a pesquisa, que foi a primeira a comparar a resposta imunológica entre os sexos, os homens têm uma defesa mais fraca contra o vírus, o que pode levar a quadros mais graves da Covid-19. Os autores do estudo sugerem que as descobertas, além de ajudar a determinar o tratamento mais adequado conforme o sexo, podem indicar que homens, especialmente aqueles com mais de 60 anos, necessitam de vacinas mais robustas para protegê-los da doença.

Para chegar a essas conclusões, pesquisadores da Universidade Yale, nos Estados Unidos, acompanharam 98 voluntários (47 homens e 51 mulheres, a maioria com mais de 60 anos) internados no Yale New Haven Hospital entre março e maio deste ano, que recém haviam sido diagnosticados com a Covid-19. Eles apresentavam quadros leves a graves da doença e foram separados em grupos para as análises. Parte deles foi submetida a exames de sangue, RT-PCR (o teste padrão para detecção da doença), saliva, urina e fezes realizados com uma frequência de entre três e sete dias. Os resultados foram comparados entre os sexos e a um grupo de controle, que não havia contraído a Covid-19. As análises foram concentradas em pacientes que apresentavam quadros moderados da doença e que não necessitaram de medicamentos imunomoduladores (que inibem ou estimulam as reações imunológicas). 

Os resultados chamaram a atenção dos pesquisadores. Os testes mostraram que a ativação de células T é significativamente mais robusta nas mulheres do que nos homens durante a infecção por SARS-CoV-2, inclusive em pessoas mais velhas. As células T, também chamadas de linfócitos T, são um importante componente do sistema imunológico, já que possuem diferentes funções na defesa do corpo. Elas são responsáveis, entre outras ações, por invadir células infectadas pelo vírus e eliminá-las, evitando o agravamento de uma infecção. Além disso, cumprem o papel de estimular a produção de anticorpos e de guardar a memória da doença a longo prazo para ajudar a prevenir futuras infecções. Ainda não se sabe exatamente o grau de proteção que essas células oferecem no caso de infecção pelo novo coronavírus, mas pesquisas indicam que é um dos componentes mais importantes na defesa contra ele.

Os pesquisadores identificaram que a ativação mais fraca dessas células nos homens estava relacionada diretamente à gravidade da doença. O estudo ainda pôde comprovar que, quanto mais velho era o homem infectado, menos chances ele tinha de sobreviver à Covid-19, já que, com o passar do tempo, os homens diminuem a produção de linfócitos T. O mesmo não foi observado nas mulheres. “Mulheres mais velhas, mesmo muito velhas, como 90 anos, ainda apresentam uma resposta imunológica apropriada e muito boa”, afirmou a professora Akiko Iwasaki, uma das autoras da pesquisa.

Homens apresentam níveis mais elevados de citocinas

Outro fator que chamou a atenção dos pesquisadores diz respeito às citocinas inflamatórias conhecidas como IL-8 e IL-18, componentes importantes do sistema imunológico. Elas são as primeiras proteínas a entrarem em contato com o foco da infecção para tentar combatê-lo e estimulam o organismo a produzir mais elementos que reajam ao patógeno, como anticorpos e outras células de defesa. A presença dessas proteínas é positiva; porém, em quantidades excessivas, pode se tornar danosa. Outras pesquisas apontaram que, em muitos casos graves de Covid-19, o excesso delas causava um quadro conhecido como “tempestade de citocinas”, em que o sistema de defesa do corpo reage de forma exagerada e acaba causando danos em diferentes órgãos, podendo levar à morte.

Quando comparados ao grupo de controle, de participantes saudáveis, todos os pacientes infectados pelo novo coronavírus apresentavam níveis mais elevados dessas citocinas no sangue. No entanto, quando os pesquisadores compararam homens e mulheres com a Covid-19, observaram que eles carregavam maiores quantidades dessas proteínas do que elas. Segundo especialistas, isso significa que a chance de eles sofrerem com uma “tempestade de citocinas” é mais alta do que nas mulheres, fazendo com que eles tenham maior probabilidade de desenvolver quadros graves da doença.

Letalidade maior em homens não é novidade

A constatação de que a doença tende a ser mais agressiva nos homens não é nova. Já no início da pandemia pelo novo coronavírus, um relatório que avaliou mais de 40 mil casos confirmados na China até meados de fevereiro encontrou uma taxa de letalidade de 2,8% nos homens, em comparação com 1,7% nas mulheres. Desde então, padrões semelhantes foram observados em países como França, Alemanha, Itália e Coreia do Sul, de acordo com um relatório publicado no final de março na revista científica British Medical Journal (BMJ). Uma dessas pesquisas, realizada na Inglaterra, revelou que homens podem enfrentar quase o dobro do risco de morte pela doença do que as mulheres. Até então, acreditava-se que homens eram mais vulneráveis por terem mais receptores ECA-2 (ou, em inglês, ACE-2). É por meio desses receptores que o novo coronavírus infecta as células do corpo humano.

A descoberta de que o sistema imunológico também exerce um papel importante nessa diferença de prognósticos pode ajudar profissionais da saúde a prescreverem o tratamento mais adequado levando em conta também o sexo do paciente, esperam os autores do estudo. Eles ainda não sabem explicar o que leva a essas diferenças, mas acreditam que as mulheres desenvolvem respostas imunológicas mais rápidas e mais fortes porque seus corpos são preparados para lutar contra os patógenos que ameaçam os bebês em gestação ou recém-nascidos.

Ao longo dos últimos meses, órgãos regulatórios e entidades como o National Institutes of Health, dos Estados Unidos, têm pedido às empresas que estão desenvolvendo potenciais vacinas contra o novo coronavírus para avaliarem, nos estudos clínicos, as diferenças nas respostas de homens e mulheres. Eles apontam que os dados podem ajudar governos a avaliar as melhores estratégias de imunização em massa.

Fontes:

Nature. Artigos disponíveis em:
https://www.nature.com/articles/s41586-020-2550-z_reference.pdf
https://www.nature.com/articles/s41586-020-2700-3

British Medical Journal (BMJ). Artigo disponível em:
https://blogs.bmj.com/bmjgh/2020/03/24/sex-gender-and-covid-19-disaggregated-data-and-health-disparities/

Frontiers in Public Health. Artigo disponível em:
https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpubh.2020.00152/full

National Institutes of Health. Informações disponíveis em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7405769/

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Marcela Duarte e Chico Marés

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