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Marcos Corrêa/PR
Marcos Corrêa/PR

Lupa na Ciência: Resultados da vacina russa animam, mas testes ainda são iniciais

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
04.set.2020 | 12h03 |

O que você precisa saber:

– Um estudo que mostra os bons resultados das fases 1 e 2 de testes clínicos da potencial vacina russa contra o novo coronavírus foi publicado na revista The Lancet

– Todos os 76 participantes que receberam doses da vacina desenvolveram resposta imune contra o SARS-CoV-2. Não foram registrados efeitos colaterais graves

– Há limitações no estudo (número baixo de participantes, que eram em sua maioria jovens e saudáveis), mas a Rússia já avançou para a fase 3 de testes em 40 mil pessoas e pretende começar a imunização em massa ainda em outubro

– A previsão é de que a vacina comece a ser exportada para outros países em novembro. O Brasil já manifestou interesse pelo imunizante 

Foi publicado na revista The Lancet, na última sexta-feira (4), o estudo que apresenta os resultados iniciais dos testes com a potencial vacina russa Sputnik V. A pesquisa aponta que a vacina induziu uma resposta imune e não desencadeou efeitos adversos graves. A publicação animou a comunidade científica, já que artigos só são aceitos em revistas de peso como a The Lancet após passar por uma rigorosa avaliação de cientistas que não estavam envolvidos no estudo, e que comprovam o rigor metodológico dos testes e a confiabilidade na avaliação dos resultados. Os dados são promissores, mas os próprios autores do estudo admitem que mais testes são necessários para comprovar a eficácia da vacina, já que ela foi testada em um número ainda pequeno de voluntários, em sua maioria jovens. Também não foi usado grupo controle – que consiste em dar placebo para uma parcela dos voluntários, permitindo comparar os efeitos em quem recebeu a vacina com as reações naqueles que tomaram as doses falsas. O procedimento, adotado em outros testes de protótipos que estão sendo desenvolvidos, ajuda a medir a eficácia da imunização e é padrão na fase 3.

A imunização russa é feita com uma tecnologia relativamente nova, que está sendo testada também por outras indústrias farmacêuticas, como a CanSino Biologics, da China, e a AstraZeneca, esta em conjunto com a Universidade de Oxford. Ambas já estão na fase 3, último estágio dos testes. De forma geral, o produto é desenvolvido a partir de uma versão enfraquecida de um adenovírus – um dos vírus da gripe comum –, que é modificado geneticamente para inserir um fragmento do RNA do novo coronavírus. Esse material genético contém as instruções para a produção da proteína spike, parte do coronavírus responsável por invadir as células do corpo humano.  A ideia é fazer com que o corpo produza essa proteína, reconheça essa característica do SARS-CoV-2 como um inimigo e desenvolva uma resposta imune contra ele. Diferentemente de outros imunizantes que estão sendo desenvolvidos com a mesma tecnologia, o produto russo contém dois tipos de adenovírus (rAd26-S e rAd5-S), ao invés de um. A vacina é ministrada em duas doses, e em cada uma delas um dos adenovírus é utilizado como vetor. Essa é uma forma de aumentar a eficácia da vacina, já que um dos problemas desse tipo de imunizante é o fato de que os adenovírus usados nessas vacinas são tipos que causam a gripe comum, e muitas pessoas já entraram em contato com eles ao longo de suas vidas. Por isso, seus organismos podem ter defesas prontas contra esses patógenos, impedindo o funcionamento do imunizante. Com dois tipos de adenovírus, a chance de isso acontecer seria menor.

Para as etapas iniciais do estudo, consideradas uma junção das fases 1 e 2 de testes clínicos, foram selecionados 76 participantes (38 em cada fase). Todos eram adultos saudáveis com idades entre 18 e 60 anos. Normalmente, os testes de fase 1 têm dezenas de voluntários e os de fase 2, centenas. No entanto, devido à urgência imposta pela atual pandemia, órgãos regulatórios têm flexibilizado essas normas. Os voluntários foram divididos em dois grupos, que passaram pelas duas fases de testes. Na fase 1, nove participantes de cada grupo receberam uma dose do rAd5-S e os outros nove do rAd26-S. Eles foram avaliados por 28 dias e não apresentaram efeitos adversos. Na fase 2 do estudo, 20 voluntários de cada grupo receberam duas doses da vacina, cada uma contendo um tipo de adenovírus, ministradas com 21 dias de intervalo. 

Na fase 1, 14 dias após a aplicação dos imunizantes, anticorpos específicos contra o SARS-CoV-2 foram detectados em 88,9% dos participantes que receberam a dose de rAd26-S, e em 84,2% dos que foram imunizados com a dose de rAd5-S. Já no 21º dia, todos os participantes haviam desenvolvido anticorpos. Na segunda fase de testes, 100% dos voluntários apresentaram anticorpos também no 21º dia. Nas conclusões do estudo, os autores afirmam que a vacina é segura, bem tolerada e induziu a resposta imune esperada. “Todos os eventos adversos relatados foram principalmente leves. Nenhum evento adverso sério foi relatado durante o estudo”, afirmam os pesquisadores. Ainda de acordo com os pesquisadores, os efeitos adversos relatados foram mais leves do que aqueles apontados em outros estudos que utilizam a mesma tecnologia. No entanto, admitem que o período em que os voluntários foram acompanhados após receberem a vacina ainda foi pequeno, e que eles devem seguir sendo monitorados por mais tempo. Além disso, indicam que mais pesquisas são necessárias para avaliar a vacina em diferentes populações, incluindo grupos de idade avançada, indivíduos com condições médicas subjacentes e pessoas em grupos de risco. 

Mesmo com essas limitações – e antes mesmo de esses resultados terem sido publicados –, o governo russo já havia anunciado que estava iniciando a fase 3 do estudo, com 40 mil pessoas, e que em outubro já pretende iniciar vacinação em massa. A previsão é de que a vacina comece a ser exportada para outros países em novembro. O Brasil, junto com Coreia do Sul, Índia, Filipinas e Cuba, está entre os países que devem também produzir a vacina. 

Fontes: 

The Lancet. Artigo disponível em:
https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31866-3/fulltext#tbl2

Revista Nature. Artigo disponível em:
https://www.nature.com/articles/s41577-020-0358-6

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Natália Leal e Maurício Moraes

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