A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Desinformação foi usada para deslegitimar isolamento social durante a pandemia

Editor | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
10.set.2020 | 08h00 |

Um dos aspectos mais dramáticos da pandemia de Covid-19, o isolamento social foi um dos temas mais comuns em peças de desinformação publicadas durante a crise. Ao todo, 814 verificações foram feitas sobre o tema em 63 países, segundo as bases de dados do Coronavirus Facts Alliance e CoronaVerificado. O Brasil se destaca: foram 59 checagens, atrás somente da Índia (365). 

A maior parte dos conteúdos visa contestar a legitimidade das medidas. Um dos meios usados foi apontar que autoridades responsáveis por decretá-las estariam ignorando as regras. Na Itália, por exemplo, uma foto de 2018 mostrando o primeiro-ministro Giuseppe Conti, a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente da França, Emmanuel Macron, circulou como se eles estivessem descumprindo as normas de isolamento, distanciamento social e uso de máscaras. Macron foi também acusado de passear de jet ski no meio da pandemia. As fotos eram antigas.

Já na Argentina, três imagens antigas do presidente Alberto Fernandez (aqui, aqui e aqui) sem máscara foram compartilhadas como se fossem recentes e ele estivesse desobedecendo regras de distanciamento social. Sua vice, Cristina Kirchner, foi alvo de peça de desinformação similar

No Brasil, as principais vítimas foram os governadores. Fotos de João Doria (PSDB), governador de São Paulo, Wilson Witzel (PSC), do Rio de Janeiro, e Eduardo Leite (PSDB), do Rio Grande do Sul, tiradas antes da pandemia em atividades até então normais, como jantares e viagens, circularam como “provas” de que eles estariam descumprindo as normas que determinaram. Políticos de esquerda e centro-esquerda da Colômbia também foram falsamente acusados de “furar” o isolamento, assim como os ministros-chefes (cargo equivalente ao de governador) dos estados indianos de Telangana e Karnataka.

A história não recaiu somente sobre políticos. Um número significativo de posts publicados em redes sociais usava fotos antigas para acusar muçulmanos de desrespeitarem o isolamento para práticas religiosas. Conteúdos desse tipo foram verificados na Austrália, no Reino Unido, no Canadá e na Espanha. Na Índia, país com 14% da população muçulmana, 25 verificações desse tipo foram produzidas.

Repressão estatal

Outra forma de desacreditar as medidas de isolamento social foi associá-las à repressão estatal. Imagens e vídeos falsos de policiais ou militares agredindo civis que, supostamente, descumpriam regras foram comuns em diferentes partes do mundo – e particularmente populares no Brasil e na Índia. 

No Brasil, vídeos falsos denunciando a suposta repressão policial durante a pandemia circularam em abril. Ironicamente, isso começou com um vídeo viral que mostrava uma situação verdadeira. Em Araçatuba, no interior de São Paulo, guardas municipais imobilizaram uma moradora que frequentava uma praça enquanto a cidade estava sob quarentena.

Na mesma época, outros vídeos apareceram. Um deles mostrava um homem sendo derrubado de forma violenta por um policial. A legenda dizia que era um idoso que tinha desrespeitado a quarentena. Contudo, o vídeo tinha sido filmado antes do decreto, e mostrava um homem embriagado que ameaçava transeuntes com uma faca. Esse vídeo também circulou fora de contexto no Paquistão.

Na Índia, esses conteúdos já circulavam em março. Um dos posts acusava policiais de agredir trabalhadores migrantes em estradas por desrespeitarem regras de isolamento social. As “provas” seriam fotos das marcas de tortura nos corpos. As fotos, contudo, eram de 2019 e 2017, e tinham sido tiradas em Bangladesh.

Natureza se curando

Nem todos os conteúdos buscavam deslegitimar o isolamento. Alguns, tentavam mostrar um suposto aspecto positivo da crise. Enquanto a Itália estava sob quarentena, uma foto digitalmente alterada dos canais de Veneza circulou com uma legenda que dizia que “a natureza estava se curando”. A frase virou “meme”, e foi usada em conteúdos satíricos em todo o mundo. Mas não foi a única: 41 publicações desse tipo foram verificadas por plataformas de checagem de diferentes partes do mundo.

No Japão, usuários de redes sociais e até veículos de comunicação compartilharam um vídeo de veados andando livremente pelas ruas de Tokyo. A gravação, na verdade, foi registrada antes do início das medidas de isolamento na cidade de Nara — famosa por abrigar um parque com centenas de veados que, volta e meia, “invadem” as ruas. Já na Venezuela, posts em redes sociais diziam que a redução na atividade econômica causada pela quarentena tinha sido responsável por reduzir as temperaturas médias no mundo e aumentar a camada de ozônio. Tudo falso.

Esta coluna foi escrita pela Agência Lupa a partir das bases de dados públicas mantidas pelos projetos CoronaVerificado e LatamChequea Coronavírus, que têm apoio do Google News Initiative, e pela CoronaVirusFacts Alliance, que reúne 88 organizações de checagem em todo mundo. A produção das análises tem o apoio do Instituto Serrapilheira e da Unesco. Veja outras verificações e conheça os parceiros em coronaverificado.news

Editado por: Natália Leal

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo