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Enfermeira administra uma vacina a um bebê na Clínica Kaloko, Ndola, Zâmbia. Crédito: UNICEF/Karin Schermbrucke
Enfermeira administra uma vacina a um bebê na Clínica Kaloko, Ndola, Zâmbia. Crédito: UNICEF/Karin Schermbrucke

#Verificamos: Casos de pólio no Sudão são reais, mas não foram causados diretamente por vacina

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
11.set.2020 | 19h59 |

Circula pelas redes sociais que uma vacina financiada por Bill Gates provocou um surto de poliomielite no Sudão. De acordo com a publicação, o bilionário é quem está “por trás” da Iniciativa Global de Erradicação da Pólio (GPEI), consórcio apoiado e financiado pela Fundação Bill e Melinda Gates. O texto foi compartilhado, entre outras pessoas, pela deputada federal Bia Kicis (PSL-DF). Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Vacina provoca surto de poliomielite no Sudão”
Imagem publicada pela deputada Bia Kicis (PSL-DF) no Facebook que, até às 17h40 do dia 10 de setembro, havia sido compartilhada por 14 mil pessoas

EXAGERADO

A informação analisada pela Lupa está incompleta. Embora o vírus que causou dois casos confirmados de poliomielite seja derivado de uma variedade encontrada em vacinas, ele não é causado diretamente por ela. Na verdade, a doença foi causada por mutações do vírus excretado por quem foi imunizado, e atinge aqueles que não estão imunes à doença. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a causa do contágio é a falta de cobertura vacinal, e não tem relação com a aplicação de vacinas.

No dia 1 de setembro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou dois casos de paralisia aguda flácida, quadro mais grave da poliomielite, no Sudão. Segundo a entidade, há ainda outros 11 casos suspeitos. A OMS confirmou que eles foram causados por um polivírus derivado da vacina contra pólio, identificado pelo nome cVDPV2. Contudo, isso não significa que ela foi causada diretamente pela imunização.

Segundo a OMS, essa cepa do poli0vírus “é resultado da baixa imunidade e subimunização das comunidades, não um problema com a vacina”. As duas crianças diagnosticadas com a doença receberam três das quatro doses do ciclo de vacinação da vacina, sendo que, em ambos os casos, a última dose foi aplicada em 2019 – portanto, meses antes da doença se manifestar. “Todas as crianças que não foram totalmente vacinadas são vulneráveis à poliomielite”, pontuou a OMS em nota.

De acordo com a OMS, os poliovírus derivados de vacinas ocorrem quando as atividades de imunização de rotina ou suplementares são conduzidas de forma inadequada e a população fica suscetível ao poliovírus, seja ele derivado da vacina ou poliovírus selvagem. Portanto, o problema não é com a vacina em si, mas com a baixa cobertura vacinal.

Embora seja rara, a circulação de vírus derivado de vacina não é um evento inesperado. O cientista Daniel Santos Mansur, pesquisador de virologia e imunologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), explicou por WhatsApp que vacinas contra a pólio ou a febre amarela, por exemplo, têm a característica de serem feitas a partir do próprio vírus atenuado, ou seja, uma versão enfraquecida do patógeno que causa a doença. “Essas são as vacinas mais efetivas que temos até hoje. A pessoa que tomou vai ficar imune, mas ela vai excretar esse vírus nas fezes, da mesma forma que excretaria o selvagem”, explica.

No caso específico da vacina oral contra a poliomielite (VOP), conhecida no Brasil como vacina da “gotinha”, quando uma pessoa é imunizada, o vírus vacinal enfraquecido se replica no intestino por um período limitado, desenvolvendo imunidade por meio da acumulação de anticorpos. Durante este tempo, o vírus da vacina é excretado por meio de fezes. Em áreas de saneamento inadequado, esse organismo pode sofrer mutações e se espalhar na comunidade, caso o resto da população não tenha sido vacinada.

Essa característica da vacina oral é reconhecida por especialistas, e estudos buscam aprimorá-la para reduzir sua capacidade de mutação. Porém, antes que elas estejam disponíveis, é consenso que manter a VOP é mais seguro do que suspender sua aplicação. Em menos de 40 anos, ela foi responsável por reduzir o número de casos anuais de poliomielite no mundo de 460 mil, em 1981, para 46, em 2016 – ou seja, uma redução de 99,9%.

Após esses surtos recentes na África e em alguns países da Ásia e Oceania, houve um crescimento no número de casos nos últimos anos. Em 2019, foram 368, e, até setembro, foram 302 ocorrências em 2020. 


“Uma semana após a OMS declarar que o continente africano estaria livre do vírus da Poliomielite, a organização foi forçada a admitir um novo surto de pólio no Sudão”
Imagem publicada pela deputada Bia Kicis (PSL-DF) no Facebook que, até às 17h40 do dia 10 de setembro, havia sido compartilhada por 14 mil pessoas

VERDADEIRO, MAS

Em 25 de agosto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou a erradicação do polivírus selvagem na África. Há quatro anos, o vírus, em sua forma selvagem, foi detectado pela última vez na Nigéria, último país africano a erradicar essa forma do patógeno. 

Contudo, a cepa detectada pelo Ministério Federal da Saúde do Sudão em agosto, e confirmada pela OMS em setembro, é a do poliovírus derivado de vacina tipo 2 (cVDPV2), conforme explicado acima.  Ou seja, não se trata da mesma cepa que foi erradicada. Casos similares já tinham detectados pela organização em outros países africanos, incluindo Etiópia, Somália e Moçambique, entre 2016 e 2020.


“Diretamente relacionada a uma epidemia (..) no Chade.”
Imagem publicada pela deputada Bia Kicis (PSL-DF) no Facebook que, até às 17h40 do dia 10 de setembro, havia sido compartilhada por 14 mil pessoas

VERDADEIRO

Segundo a OMS, o vírus identificado no Sudão é semelhante, geneticamente, ao encontrado no Chade, país vizinho onde um surto da doença já contagiou 56 crianças ao longo de 2020.


“[Bill] Gates está por trás da Iniciativa Global de Erradicação da Pólio (GPEI)”
Imagem publicada pela deputada Bia Kicis (PSL-DF) no Facebook que, até às 17h40 do dia 10 de setembro, havia sido compartilhada por 14 mil pessoas

EXAGERADO

A Iniciativa Global de Erradicação da Pólio (GPEI) inclui a Fundação Bill & Melinda Gates entre seus financiadores. Contudo, o bilionário americano não é o único financiador da iniciativa, que existe desde 1988 – 12 anos antes da fundação do instituto.

Até novembro de 2019, data mais recente com dados disponíveis, a GPEI tinha arrecadado US$ 2,6 bilhões de dólares. Desse montante, US$ 1,08 bilhões, ou 41%, foram doados pela fundação gerenciada pelo ex-CEO da Microsoft. Os governos de 12 países também doaram para essa iniciativa, incluindo o Reino Unido (US$ 514,8 milhões), os Estados Unidos (US$ 215,9 milhões) e o Paquistão (US$ 160 milhões), um dos dois únicos países com casos selvagens da doença – além do Afeganistão. O príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Mohammed bin Zayed Al Nahyan (US$ 160 milhões), também está entre os doadores.

Como o nome sugere, a GPEI visa erradicar a poliomielite. A assessoria de comunicação da OMS no Brasil explicou, por e-mail, que o os recursos doados por governos e fundações privadas para o GPEI ajudam a custear as atividades de erradicação, incluindo compra de vacinas dos laboratórios produtores. Essas atividades são implementadas pela própria OMS e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em parceria com os países e a Gavi–Vaccine Alliance.

Desde a década de 1980, a vacinação em massa contra a poliomielite fez com que o número de casos da doença ocorridos por ano caísse dramaticamente. A OMS estima que em 1988, ano da fundação da GPEI, 242 mil pessoas contraíram a doença. Em 2001, foram apenas 800 casos, e em 2016, 46. Ou seja, em menos de 30 anos, o número de casos no mundo caiu 99,9% graças às campanhas de vacinação. Porém, a meta inicial da iniciativa, de zerar o número de casos até o ano 2000, não foi atingida.

Procurada pela Lupa, a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), uma das pessoas que compartilhou a postagem nas redes sociais, se manifestou sobre a checagem. Por WhatsApp, ela afirmou que as declarações verificadas não são exageradas. “Vocês estão interpretando que é exagero porque talvez vocês não concordem com a matéria [post]. A matéria foi trazida de várias publicações, inclusive internacionais. Eu acho que não tem nenhum exagero. Eu coloquei exatamente o que está nas matérias. O exagero fica por conta da interpretação, da opinião de vocês. E opinião não é fato”, disse, por áudio.

As fontes citadas pela deputada para produção da publicação postada em suas redes são o site Estudos Nacionais, a OMS e um post no Instagram – que foi classificado como conteúdo falso pela plataforma de checagem Science Feedback.  

O que é a poliomielite

A poliomielite é conhecida como paralisia infantil no Brasil. É uma doença contagiosa causada pelo poliovírus. A infecção se dá por meio do contato com fezes ou com secreções eliminadas pela boca das pessoas doentes. Pode afetar tanto adultos quanto crianças e nos casos mais graves causa paralisia, principalmente das pernas. De acordo com o Ministério da Saúde, o último caso de infecção pelo poliovírus selvagem no Brasil ocorreu em 1989.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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EXAGERADO
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SUBESTIMADO
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A informação está comprovadamente incorreta
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