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Foto: Polina Tankilevitch
Foto: Polina Tankilevitch

Lupa na Ciência: Como o teste para detectar a Covid-19 pela saliva pode ajudar a conter a pandemia

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
14.set.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

– Estudos recentes indicam que testes para detectar a Covid-19 a partir de amostras de saliva são confiáveis

– Em uma das pesquisas, o novo método de testagem foi capaz de dar resultados iguais aos do teste padrão, o RT-PCR, em pelo menos 94% das amostras analisadas

– Esses exames são mais baratos e rápidos, além de não exigirem profissionais especializados para a coleta

– As descobertas animam a comunidade científica, que se preocupa com a crescente flexibilização das medidas de distanciamento social. Especialistas defendem que é necessária a testagem em massa para evitar novas ondas de contágio

Um editorial publicado recentemente por pesquisadores brasileiros no periódico The Open Dentistry Journal mostrou que testes de Covid-19 feitos a partir da saliva são confiáveis. Segundo os pesquisadores, esses testes têm um grau de sensibilidade e especificidade praticamente igual ao dos exames considerados “padrão ouro”, feitos por coleta com swab nasofaríngeo – aquele cotonete de 15 centímetros que recolhe material do fundo das passagens nasais do paciente. De acordo com os autores do editorial, a saliva, composta 99% por água e 1% por um amplo grupo de compostos, é uma das formas mais simples de coletar fluidos corporais e representa uma fonte importante para a análise de marcadores biológicos (que indicam, por exemplo, a presença de doenças virais e bacterianas).

Há algumas semanas, a Food and Drug Administration (FDA), órgão americano equivalente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), já havia concedido autorização de uso emergencial, nos Estados Unidos, para cinco testes de saliva capazes de detectarem o novo coronavírus de forma barata e rápida. Um deles, chamado SalivaDirect, teve a eficácia e a acuidade demonstradas em um estudo liderado por pesquisadores da universidade americana Yale School of Public Health. A pesquisa, publicada no periódico New England Journal of Medicine, explica que o novo método de testagem foi capaz de dar resultados iguais aos do teste padrão, o RT-PCR, em pelo menos 94% das amostras analisadas. De acordo com os autores do estudo, isso indica que a testagem por saliva pode ser uma aliada importante no controle da atual pandemia, já que o procedimento é mais barato, rápido e menos invasivo.

A ideia é que o novo método seja usado para examinar, por exemplo, estudantes no retorno às aulas e para ajudar países que sofrem com a falta de equipamentos de coleta e a baixa testagem – o que resulta em menor controle da doença. É o caso do Brasil, que tem índice de testagem de 63 para 100 mil de habitantes, considerado baixo.

Por aqui, alguns centros de pesquisas e universidades já estão desenvolvendo exames a partir da saliva. Um deles, o laboratório Mendelics, firmou parceria com o Hospital Sírio Libanês para produzir testes que permitem o processamento de 110 mil amostras de saliva por dia. O teste já passou pela fase piloto em junho e hoje é oferecido para empresas e centros educacionais. Mais de 100 mil testes já foram vendidos.

Amostra pode ser coletada pelo paciente

A ideia de testar o novo coronavírus pela saliva não é nova. O primeiro estudo que identificou a presença do patógeno nesse tipo de amostra foi publicado, ainda em fevereiro, na revista Clinical Infectious Diseases.

Uma das grandes vantagens dos testes feitos pela saliva é que eles podem ser coletados pelo próprio paciente, que deposita a amostra em um tubo estéril. Isso pode ajudar a resolver também o problema de demanda de kits de coleta fator que tem limitado a capacidade de testagem no Brasil. Em um estudo feito também por brasileiros e publicado em abril no Clinical Oral Investigations, os pesquisadores identificaram que a “cuspida” pode ser uma fonte segura de detecção do SARS-Cov-2 porque o vírus chega até a cavidade bucal por três vias diferentes: por gotículas do trato respiratório superior que entram na cavidade oral, por componentes sorológicos que podem estar presentes na saliva e pelas glândulas salivares, que podem ser infectadas diretamente pelo novo coronavírus.

Testes de saliva têm custo mais baixo

Além da facilidade na coleta, exames feitos pela saliva têm se destacado pelo baixo custo e rapidez nos resultados. Alguns deles, como o SalivaDirect, são baseados em uma técnica chamada RT-LAMP (sigla em inglês de transcrição reversa seguida por amplificação isotérmica mediada por alça), que já é amplamente utilizada para o diagnóstico de doenças infecciosas, como dengue e zika. A técnica tem semelhanças com o RT-PCR, já que ambos separam o material genético do vírus na amostra coletada, que é analisada em laboratório.

Pesquisadores descobriram que o SARS-CoV-2 é estável na saliva por períodos prolongados em temperaturas quentes e, por isso, a amostra não precisa ser colocada em conservantes específicos, o que é necessário no RT-PCR, que também demanda reagentes caros e é demorado. “Para SalivaDirect, descobrimos como simplificar esta etapa, tornando-o acessível a mais laboratórios”, explica uma nota divulgada pela Yale School of Public Health. A solução encontrada pelos pesquisadores foi misturar as amostras em uma solução química que é aquecida para liberar rapidamente o material genético do vírus. Por essa técnica, o processo todo se torna mais veloz, e o resultado fica disponível em 30 a 40 minutos. Além disso, o teste pode custar um terço do valor do RT-PCR.

De acordo com a dentista e pesquisadora Debora Heller, uma das autoras do estudo publicado no Journal of Dental Research, a comprovação de que amostras de saliva podem ser uma fonte segura para detectar o SARS-Cov-2 abre uma janela de oportunidades, que podem ser adaptadas a diferentes tipos de exames. Pela saliva é possível, por exemplo, verificar a presença de anticorpos contra o novo coronavírus a partir da resposta imune adaptada (o mesmo tipo de detecção feito pelos exames sorológicos). Essa possibilidade levou um grupo de cientistas a criar uma startup chamada Ventnostics, que desenvolve um dispositivo que consegue, com uma pequena amostra de saliva, detectar em poucos minutos se a pessoa possui anticorpos contra o SARS-Cov-2. O produto ainda não está aprovado para comercialização, mas poderá se somar, em um futuro próximo, a uma série de novos exames que ajudarão na implementação de políticas públicas para testagem em massa.

Testagem é fundamental para flexibilização  

O desenvolvimento de novos testes é fundamental em um momento em que diversos países estudam as formas mais seguras de flexibilizar as medidas de isolamento.  Em um estudo publicado no início de agosto na revista The Lancet Child & Adolescent Health, pesquisadores britânicos indicaram que processos de flexibilização, como a reabertura das escolas, só serão seguros se a população tiver acesso em grande escala aos exames de detecção do vírus e se os órgãos públicos adotarem estratégias para rastrear com eficiência os contatos de infectados.

No momento, dois testes norte-americanos de saliva aprovados estão sendo utilizados em diferentes ambientes para avaliação. O SalivaDirect, que foi produzido por meio de parceria da Universidade de Yale com a NBA, é usado para testar os jogadores antes das partidas da liga. O outro, desenvolvido pela Universidade de Illinois, Urbana-Champaign (UIUC), é aplicado duas vezes por semana em 60 mil estudantes, professores e servidores da instituição, com o objetivo de identificar e isolar os infectados de forma rápida. Se a capacidade deles de ajudar a controlar a epidemia for comprovada, poderão ser adotados rapidamente por outros países que ensaiam a flexibilização das medidas de isolamento.

Fontes:

New England Journal of Medicine. Artigo disponível em:

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMc2016359

The Open Dentistry Journal. Artigo disponível em:

https://opendentistryjournal.com/VOLUME/14/PAGE/343/

 Clinical Oral Investigations. Artigo disponível em:

https://link.springer.com/journal/784

 Food and Drug Administration (FDA). Informações disponíveis em:

https://www.fda.gov/news-events/press-announcements/coronavirus-covid-19-update-fda-issues-emergency-use-authorization-yale-school-public-health

Clinical Infectious Diseases. Artigo disponível em:

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7108139/

Correção feita em 16 de setembro de 2020, às 10h45: Texto alterado para deixar claro que o teste do laboratório Mendelics não é do tipo RT-Lamp e não requer autorização da Anvisa; além disso, o produto já passou pela fase piloto.

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Chico Marés e Marcela Duarte

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