A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

#Verificamos: É falso que nenhum militar foi enviado para combater incêndios no Pantanal

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
17.set.2020 | 20h03 |

Circula nas redes sociais um post que diz que o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não enviou os militares do Exército para combater os incêndios que estão ocorrendo no Pantanal. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Sabe quantos [militares do Exército] Bolsonaro enviou para combater as chamas? Nenhum!”
Legenda de imagem publicada no Facebook que, até as 14h30 de 17 de setembro de 2020, tinha mais de 670 compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O Ministério da Defesa, o Comando Militar do Oeste (com sede em Campo Grande, Mato Grosso do Sul) e o Corpo de Bombeiros do Mato Grosso confirmaram à reportagem que o Exército vem atuando no combate às chamas no Pantanal, pelo menos desde julho. Ao menos 90 homens da corporação foram enviados esta semana para Alcinópolis (MS) para apoiar as operações na região.

Em nota, a assessoria do Ministério da Defesa informou que as operações realizadas no combate aos incêndios contam com o apoio de todas as Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica. Entretanto, a pasta não especifica uma quantidade total de militares do Exército que vêm atuando na área desde o início das queimadas. O ministério informou que, em 15 de setembro, foram deslocados 90 militares e 11 viaturas do Exército para a cidade de Alcinópolis (MS), a fim de apoiar o combate aos incêndios florestais na região.

O Exército, por meio da assessoria de imprensa do Comando Militar do Oeste, confirmou, em nota, que atua no combate aos focos de incêndio e aos delitos ambientais no Pantanal desde 20 de julho. “Com o agravamento do cenário de queimadas na região, inclusive no estado de Mato Grosso do Sul, o Comando Militar do Oeste participa, também, com um helicóptero Pantera e um grupo de militares, da Operação Pantanal, na região de Corumbá (MS). Ainda, atendendo solicitação do governo do Estado de Mato Grosso do Sul, desde o dia 13 de setembro de 2020, deslocou 90 militares para a região de Alcinópolis (MS), no combate aos focos de incêndio”, informou.

O Comitê Temporário Integrado Multiagências de Coordenação Operacional do Estado de Mato Grosso (CIMAN), que é coordenado pelo Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso, informou em nota que tem recebido apoio de recursos humanos e logísticos oriundos das Forças Armadas, como o Exército, no combate aos Incêndios florestais que atingem o estado. “Na região do Pantanal Matogrossense, especificamente, militares do Exército Brasileiro têm sido empregados principalmente no Parque Estadual do Guirá, próximo ao município de Cáceres”, diz.

Envio de tropas

Em entrevista à revista Fórum na última terça-feira (15), o secretário da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Mato Grosso, Flávio José Ferreira, disse que o presidente Jair Bolsonaro proibiu o Exército de combater o incêndio no Pantanal. “O Ministério da Defesa proibiu o Exército de ajudar. Segundo o governo, a Marinha que deveria dar o suporte, mas deram suporte com apenas um helicóptero. Há também cinco aviões que não estão sendo utilizados. Quem está combatendo o fogo de maneira árdua lá são os bombeiros do Mato Grosso e voluntários”, disse.

Ao ser questionado pela Lupa sobre a denúncia, o Ministério da Defesa não comentou o caso específico do secretário da OAB. Informou que, por meio do Decreto nº 10.341/2020 – que determina o emprego das Forças Armadas na Garantia da Lei e da Ordem (GLO) por meio da realização de ações preventivas e repressivas contra delitos ambientais –, a pasta tem atuado no desmatamento ilegal e no combate a focos de incêndio. “Dessa forma, o estado de Mato Grosso vem sendo contemplado pela Operação de GLO, por intermédio do Comando Conjunto Oeste, desde o dia 11 de maio de 2020 até o presente momento, atendendo, inclusive, a própria solicitação do seu governador”.

Incêndios no Pantanal

Dados consolidados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam que o bioma Pantanal registrou 15.477 queimadas de 1º de janeiro até 15 de setembro deste ano, contra 4.936 no mesmo período do ano passado – um aumento que representa mais de 213%.

O Ministério da Defesa informou por nota que, para amenizar a situação, tem atuado com o auxílio de aeronaves, embarcações e viaturas no combate às chamas. “Somam-se aproximadamente 40 viaturas e duas embarcações utilizadas diariamente no transporte de brigadistas e no despejo de água para conter as chamas. Em média, estão engajados nas atividades 200 militares e 230 agentes de órgãos parceiros”, diz.

Na segunda-feira (14) a Polícia Federal deflagrou a Operação Matáá, nas cidades de Corumbá e Campo Grande (MS), com a finalidade de apurar a responsabilidade criminal pelas queimadas na região do Pantanal Sul. Segundo a PF, o dano ambiental apurado supera mais de 25 mil hectares do bioma pantaneiro.


“166 pessoas estão agora tentando salvar o pantanal. O Exército tem 336 mil soldados”.
Legenda de imagem publicada no Facebook que, até as 14h30 de 17 de setembro de 2020, tinha mais de 670 compartilhamentos

EXAGERADO

A informação analisada pela Lupa é exagerada. Os dados citados no post, sobre o efetivo do Exército, na verdade fazem referência ao total de militares das Forças Armadas. Segundo levantamento da revista GlobalFirepower (GFP), que desde 2006 faz um ranking de 138 potências militares de acordo com seu poder de fogo, o Brasil tem 334.500 militares no total. Entretanto, esses dados incluem, além do Exército, a Marinha e a Força Aérea. O país ocupa a 17ª posição no ranking.

Um documento publicado pelo Ministério da Defesa em dezembro de 2019 traz dados um pouco maiores que os citados pela GFP. Até julho do ano passado, as Forças Armadas tinham 364.409 militares, sendo 77.879 na Marinha; 219.361 no Exército; e 67.169 na Aeronáutica.

Segundo o Decreto nº 10.232, de 6 de fevereiro de 2020, que distribui o efetivo de Oficiais e Praças do Exército, o total do efetivo neste ano é de 222.755 militares.

Sobre os 166 voluntários citados no post, não é possível saber de onde são os dados. Uma reportagem do El País, publicada no sábado (12), cita, por exemplo, uma brigada privada de donos de pousada e agentes de turismo, que se uniu para salvar pontes e garantir que as chamas não cheguem às áreas de construções turísticas e moradias. Segundo o texto, são mais de 150 voluntários atuando neste trabalho.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Maurício Moraes

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo