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Foto: Ivan Bueno / Ag. Paraná
Foto: Ivan Bueno / Ag. Paraná

#Verificamos: É falso que China detém monopólio do polietileno e comprou estoque de soja do Brasil até 2022

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
18.set.2020 | 18h14 |

Circula pelas redes sociais que o polietileno, derivado de petróleo usado na indústria do plástico, está em falta no mercado brasileiro. Segundo a publicação, a escassez se deve ao fato de a China ter o monopólio da resina. O mesmo post afirma que toda a produção da soja brasileira foi comprada pelo país asiático até 2022. A informação foi compartilhada, entre outras pessoas, pelo autodeclarado filósofo Olavo de Carvalho. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Sabem pq tudo está subindo?? Não tem mais resina plástica, polietileno matéria prima básica para indústria de plástico no mercado. Está tudo na mão dos Chineses.
A China têm o monopólio da resina”

Texto em imagem publicada no Facebook que, até as 18h do dia 18 de setembro de 2020, tinha mais de 2,8 mil compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Diferentemente do que afirma a publicação, a China não tem o monopólio da resina polietileno, um derivado de petróleo da categoria dos termoplásticos, que pode ser reciclado. O país asiático responde por 30% da produção mundial de resinas termoplásticas, conforme dados do Plastics Europe Market Research Group de 2018. A publicação não especifica a produção brasileira, mas detalha que a América Latina é responsável por 4% da produção mundial.

A assessoria de imprensa da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) informou, em nota, que, a indústria de transformação e reciclagem de plásticos no Brasil é composta por mais de 12 mil empresas que atendem quase 100% de toda a matriz industrial brasileira – construção civil, alimentos e bebidas, setor automotivo, higiene, limpeza e perfumaria, agricultura etc. Além disso, as principais matérias-primas plásticas têm produção nacional, e apenas 25% do que é necessário para a produção é importado.

Ainda segundo a Abiplast, embora haja dificuldade em se encontrar algumas matérias-primas, entre elas polietileno, polipropileno e policloreto de vinila (PVC), esse cenário ocorre tanto no mercado doméstico como no internacional: “o cenário mundial é de oferta mais ‘apertada’ de resinas, o que impacta diretamente nos preços desses materiais. Do polietileno importado pelo Brasil no ano de 2020, 55% vêm dos EUA e 25% vêm da Argentina”, informou a associação.


“Tudo que foi importado é dominado pela braskem da Odebrecht.”

Texto em imagem publicada no Facebook que, até as 18h do dia 18 de setembro de 2020, tinha mais de 2,8 mil compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A Braskem, empresa brasileira do ramo petroquímico, não importa resinas termoplásticas de outras companhias. Em nota, a assessoria de imprensa da companhia explicou que sua atuação é focada na produção das resinas polietileno (PE), polipropileno (PP) e policloreto de vinila (PVC), além de outros insumos químicos básicos. Essa produção é feita nas unidades industriais da companhia localizadas em São Paulo, Rio de Janeiro, Alagoas, Bahia e Rio Grande do Sul, além das operações industriais nos Estados Unidos, no México e na Alemanha.

As principais matérias-primas para produção dessas resinas são a nafta, composto químico derivado do petróleo, e o gás natural. “A taxa de utilização das centrais petroquímicas no Brasil está em nível normal, recuperando-se do período de menor utilização durante o auge da pandemia. Em agosto, a companhia superou 350 mil toneladas de resinas comercializadas, recorde mensal histórico de vendas no Brasil”, informou a empresa.


“A produção inteira de soja do Brasil está comprada pela China até 2022.”

Texto em imagem publicada no Facebook que, até as 18h do dia 18 de setembro de 2020, tinha mais de 2,8 mil compartilhamentos

FALSO

Embora a China seja o principal comprador da soja brasileira, não é verdade que o país asiático tenha adquirido a produção inteira do grão até 2022. O ciclo de safra da soja dura um ano, de julho a julho, portanto não é possível saber quantas toneladas o Brasil vai produzir e exportar nos próximos dois anos – há apenas estimativas. A safra que encerrou em julho de 2020, por exemplo, foi de cerca de 124,8 toneladas, um recorde histórico segundo a edição de setembro do Boletim Mensal de Grãos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A projeção, ainda segundo o boletim da Conab e de consultorias como a Safras & Mercado, é que desse montante o Brasil exporte aproximadamente 82 milhões de toneladas de soja em grãos em 2020. Para o próximo ciclo de colheitas, que terminará em julho de 2021, a perspectiva baseada em estudos estatísticos é de 133,50 milhões de toneladas.

De acordo com dados disponibilizados pela Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja), 70% da produção de grão, óleo e farelo de soja é exportada para vários países. A China é o principal comprador e adquire cerca de metade da produção nacional. A porcentagem segue a tendência de exportação de anos anteriores: em 2019 (safra 2018/2019), as exportações foram de 74,07 milhões de toneladas, ou 61,9% da produção. Em 2018 (safra 2017/2018), as vendas externas somaram um total de 83,25 milhões de toneladas de soja em grãos, representando 67,5% do total produzido.

Em entrevista por telefone, o presidente da Aprosoja, Bartolomeu Braz Pereira, explicou que o Brasil é o principal produtor e exportador mundial do grão, mas que pelo menos 40 a 45 milhões de toneladas são consumidas internamente, ou seja, há estoque do vegetal para os próximos meses.  

Questionado pela Lupa sobre as informações falsas no post que compartilhou, Olavo de Carvalho não respondeu até a publicação desta checagem.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Maurício Moraes

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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