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#Verificamos: Post cita relatório não oficial para atacar medidas preventivas durante pandemia da Covid-19

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
18.set.2020 | 20h55 |

Circula nas redes sociais um post que cita que um grupo de médicos da Espanha, da Associação de Médicos pela Verdade, questionou as medidas preventivas adotadas pelos governos durante a pandemia da Covid-19. Baseado em um suposto relatório do Ministério do Interior da Alemanha, a publicação diz que os profissionais acusam a Organização Mundial da Saúde (OMS) de provocar um “desastre” com as decisões tomadas em relação ao confinamento de pessoas, uso de máscaras e testes, entre outros. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“Durante a reunião, no dia 02 de agosto, Heiko Schöning, representante da Comissão na Alemanha apresentou um relatório do Ministério do Interior Alemão o qual indica que os riscos da pandemia foram superestimados e o desastre mundial possivelmente se deu em razão das ações da OMS e demais autoridades.”
Legenda de imagem publicada no Facebook que, até as 20h do dia 18 de setembro de 2020, tinha sido compartilhada por mais de 310 pessoas

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O relatório citado no post não é oficial. Em nota publicada em maio, quando o documento começou a circular na mídia, o Ministério do Interior da Alemanha informou que não se tratava de uma análise do órgão, mas da opinião particular de um funcionário que utilizou a infraestrutura da pasta para divulgar a visão dele.

“Esta ‘análise’, que foi realizada de forma independente, ocorreu fora da responsabilidade substantiva do autor e da unidade organizacional no Ministério Federal do Interior para a qual trabalhava. Não houve pedido nem autorização para esta compilação. A integração estrutural de todas as unidades organizacionais envolvidas na equipe de crise, como é obrigatória e habitual para análises sérias, não ocorreu aqui”, diz a nota.

Ao ser questionado sobre a publicação de algum estudo oficial com críticas à OMS, como é citado na publicação, o Ministério do Interior da Alemanha negou as informações à reportagem da Lupa. A pasta enviou como resposta o link da nota que foi citada acima, sobre a análise não oficial.

O portal de notícias alemão BR24, em uma reportagem publicada em maio, explicou que o autor do documento era conselheiro governamental de um departamento do Ministério do Interior, o “KM 4”, que lida com a gestão de crises da infraestrutura crítica, ou seja, das organizações e instalações que são relevantes para a manutenção da segurança pública. O ministro do Interior, Horst Seehofer, afirmou, durante uma conferência de imprensa em maio, que o funcionário ultrapassou os limites porque usou a estrutura do órgão para distribuir uma visão pessoal. O empregado foi suspenso e responde a um processo disciplinar.

O Médicos Pela Verdade da Espanha, que conta com mais de 140 profissionais, é um grupo negacionista da pandemia da Covid-19. Heiko Schöning, citado no post, é um dos fundadores desta organização na Alemanha, que conta com mais de 500 profissionais.


“Segundo o relatório, conclui-se que diversas medidas adotadas não são eficazes, como o caso de confinamento de pessoas saudáveis ​​e uso de máscaras”
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FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Diversos estudos publicados em revistas científicas mostram que o isolamento social e o uso de máscaras ajudaram a diminuir a propagação do vírus da Covid-19.

Um estudo realizado pela Universidade de Oxford em parceria com 15 instituições brasileiras mostrou que decretos para o fechamento de escolas e lojas fizeram cair pela metade a taxa de transmissão do novo coronavírus nas capitais do Rio de Janeiro e São Paulo. Em outro estudo publicado na revista científica The Lancet no início de abril, pesquisadores da Universidade de Hong Kong avaliaram a eficácia de medidas restritivas implementadas desde 23 de janeiro de 2020, em quatro cidades e 10 províncias na China. Eles concluíram que essas medidas foram responsáveis por diminuir substancialmente a taxa de infecção não somente por casos importados, mas também por contaminação local.

Na Europa, as medidas de isolamento social reduziram as taxas de transmissão da Covid-19 o suficiente para controlar a propagação do coronavírus e podem ter evitado mais de 3,1 milhões de mortes. É o que diz um estudo publicado em junho na revista científica Nature pelo Imperial College de Londres.

Uso de máscaras

Um estudo publicado em julho no periódico Physics of Fluids demonstrou que as máscaras de algodão bem ajustadas, com duas ou mais camadas de tecido e em forma de cone são as mais eficazes em reduzir o alcance das partículas respiratórias. Já aquelas no estilo bandana oferecem capacidade mínima de barrar a dispersão. Em outra pesquisa publicada em junho na revista The Lancet pesquisadores canadenses revisaram 172 estudos observacionais sobre medidas protetivas realizados a partir das características do novo coronavírus e de outras doenças respiratórias, como a síndrome respiratória no Oriente Médio (MERS). Os autores indicam que o uso de máscaras, em geral, reduz em 85% o risco de infecção.

A recomendação do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), atualizada em 7 de agosto, é de que todos devem usar máscaras em ambientes públicos ou quando estiverem perto de pessoas que não moram em suas casas, especialmente quando outras medidas de distanciamento social são difíceis de manter.

No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda o uso de máscaras caseiras em locais onde pode haver aglomeração. “Pesquisas têm apontado que a utilização de máscaras caseiras impede a disseminação de gotículas expelidas do nariz ou da boca do usuário no ambiente, garantindo uma barreira física que vem auxiliando na mudança de comportamento da população e diminuição de casos”, diz nota técnica publicada em 4 de abril.

No entanto, a OMS alerta que o uso de máscaras isoladamente não é suficiente para proporcionar um nível adequado de proteção. “Outras medidas nos âmbitos individual e comunitário também devem ser adotadas para conter a transmissão de vírus respiratórios”, diz.


“E ainda referete [sic] ao uso permanente de máscara, agente causador de doenças respiratórias, auto-contaminação, proliferação de microrganismos e pneumonia.”
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FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O uso permanente de máscaras não provoca doenças respiratórias, por exemplo. Especialistas ouvidos pela reportagem alertam, no entanto, que o uso incorreto e a falta de higienização do equipamento podem reduzir a proteção oferecida. Sem essa barreira, no entanto, as pessoas ficam totalmente expostas ao vírus.

Como explica o infectologista Estevão Urbano, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o uso das máscaras deve seguir algumas regras e atender a algumas exigências que garantem uma maior proteção. Ele diz, por exemplo, que, para o público em geral, elas têm que ser feitas de um tecido, geralmente algodão, de camada dupla. Em segundo lugar, devem ser trocadas a cada três ou quatro horas, porque ficam úmidas e perdem a eficiência. A dica do especialista é levar ao menos outra máscara para trocar, se a pessoa ficar muito tempo fora de casa.

O médico informa ainda que, ao chegar em casa, é preciso imediatamente higienizar as máscaras. “A superfície de fora pode ter ali gotículas de alguém que tossiu, espirrou. Evite levar às mãos à parte externa. Manuseie somente pelo elástico. Se você esquece e toca a parte externa, evite também levar a mão aos olhos. Higienize as mãos imediatamente com álcool para evitar problemas”, alerta.

No documento publicado em junho pela OMS sobre o uso de máscaras cirúrgicas e de tecido, a entidade recomenda que todos, inclusive as pessoas saudáveis, façam uso de máscara. Nos casos de profissionais de saúde que usam máscaras cirúrgicas, a recomendação é de mudá-la quando estiver úmida, suja ou danificada. No caso das de tecido, a recomendação é de evitar tocá-la sem fazer a higiene das mãos antes.


“Os testes de PCR não detectam vírus infecciosos (…)”
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FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A professora Glaucia Queiroz Andrade, do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que o RT-PCR é o exame que identifica o vírus e confirma a Covid-19. Para isso, o teste detecta o RNA do vírus, ou seja, o material genético, através da amplificação do ácido nucleico pela reação em cadeia da enzima polimerase.

O pesquisador Zilton Vasconcelos, do Laboratório de Alta Complexidade do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), afirma, por exemplo, que o teste molecular deve ser realizado entre o terceiro e sétimo dia de sintomas para aumentar a chance de detecção do RNA viral. “Um teste negativo não descarta a infecção, apenas indica que naquele momento sua carga viral é indetectável”, diz. Esta técnica permite distinguir o coronavírus de outros vírus, por exemplo.

A mesma informação é compartilhada pela Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC), que diz que o teste PCR avalia a presença de RNA viral na amostra. A entidade explica ainda que um único resultado não detectado com RT-PCR para SARS-CoV-2 não exclui o diagnóstico da Covid-19. Vários fatores como coleta inadequada da amostra, tipo de amostra biológica, tempo decorrido entre a coleta e o início dos sintomas, e oscilação da carga viral podem influenciar o resultado do exame. “Sempre que houver discordância com o quadro clínico epidemiológico, o exame de RT-PCR deve ser repetido em outra amostra do trato respiratório”, diz.

O infectologista Estevão Urbano, em contato com a reportagem pelo WhatsApp, diz ainda que o teste PCR, a partir do material genético, identifica se, naquele momento, o paciente está com o vírus ativo ou fragmentos do causador da Covid-19. O médico Manoel Barral Netto, que é pesquisador da Fiocruz Bahia, em um vídeo publicado pela própria fundação, diz que o teste RT-PCR só é recomendado no início da infecção. “O RT-PCR visa detectar a presença do vírus. […] Geralmente o local da amostra são as vias aéreas superiores, depois disso [o vírus da Covid-19] migra para o interior do organismo, ou seja, tem mais dificuldade de acesso para localizar o material do vírus”.


“[Os testes de PCR] podem [identificar] vírus de anos anteriores ou restos virais de vacinas contra influenza”
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FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A infectologista Raquel Stucchi, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, explica que o vírus vacinal da influenza (feita de vírus inativados, ou seja, que não transmitem a doença) não é eliminado pelas vias respiratórias e que, portanto, não pode ser encontrado em um teste PCR. “O vírus [inativado] é administrado na injeção e o nosso organismo faz anticorpos contra o vírus da influenza. […] Os vírus não ficam uma eternidade nas vias respiratórias”, diz.

A agência de verificação espanhola Maldita, que fez uma checagem similar sobre o assunto, explicou que os testes PCR usados neste momento de pandemia são específicos para identificar o vírus da Covid-19. A afirmação vem de José Manuel Bautista, catedrático de Biologia Molecular e um dos coordenadores do laboratório de detecção do novo coronavírus da Universidad Complutense de Madrid. “Está demonstrado em muitas publicações. Há outros PCR gerais para detectar outros coronavírus, mas os que são usados agora são altamente específicos”, afirma.


“Embora a PCR tenha testado positivo, (…) pessoas assintomáticas (…) nem são contagiosas”
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FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A OMS comunica que é possível um paciente assintomático transmitir o vírus para outra pessoa. Como a principal forma de transmissão são gotículas de saliva expelidas por pessoas contaminadas, o risco de contágio de uma pessoa completamente assintomática é consideravelmente mais baixo do que de uma pessoa que já desenvolveu os sintomas. Porém, pessoas com sintomas leves podem não perceber que contraíram a doença. E esses casos são particularmente perigosos.

“Alguns relatórios indicam que pessoas sem sintomas podem transmitir o vírus. Ainda não se sabe com que frequência isso acontece. A OMS está avaliando pesquisas em andamento sobre o tema e continuará a compartilhar descobertas atualizadas”, diz o órgão, em seu site. A infectologista Raquel Stucchi reafirma a posição da OMS, de que as pessoas assintomáticas, a rigor, não apresentam sintomas, “mas elas transmitem sim [o vírus da Covid-19]”.

Um estudo sul-coreano publicado em agosto no Journal of the American Medical Association mostra que pacientes assintomáticos com Covid-19 carregam em seus corpos uma carga viral semelhante àquela encontrada nos que apresentam sinais da infecção. Essa informação sugere que o grupo tem um potencial igualmente importante de transmitir a doença, quando comparado com o conjunto de pacientes que desenvolvem sintomas.


“A hidroxicloroquina tem bons efeitos terapêuticos [para Covid-19]”
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FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Segundo a OMS, as evidências disponíveis sobre benefícios do uso da hidroxicloroquina são “insuficientes”. “A maioria das pesquisas até agora sugere que não há benefício e já foram emitidos alertas sobre efeitos colaterais do medicamento”, diz.

Em junho, o Recovery Trial, coordenado pela Universidade de Oxford, suspendeu testes com o remédio ao notar que ele não mostrou nenhum benefício no tratamento da doença em relação ao grupo-controle. Ao todo, 1.532 pacientes foram medicados, em testes randomizados. Em julho, foi a vez do Solidarity Trial, coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), encerrar testes com hidroxicloroquina. Assim como no Recovery Trial, a droga não mostrou benefícios no tratamento.

Um estudo brasileiro publicado em julho no periódico New England Journal of Medicine também comprovou que a hidroxicloroquina é ineficaz no tratamento de casos leves e moderados da Covid-19. Foi um ensaio clínico multicêntrico, randomizado e controlado, realizado com centenas de pacientes. Trata-se de uma série de práticas que permitem eliminar possíveis vieses e incertezas durante o processo, permitindo resultados mais confiáveis.


“[A hidroxicloroquina] não é um retroviral e possui muitos efeitos colaterais adversos, como cardíacos.”
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VERDADEIRO

A informação analisada pela Lupa é verdadeira. A cloroquina, assim como a hidroxicloroquina, é uma medicação usada há anos para tratamento da malária e de algumas doenças autoimunes, como artrite e lúpus. Mas pode apresentar alguns efeitos colaterais. A Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (SOBRAC), por exemplo, afirma em nota que o medicamento pode ocasionar alterações cardíacas. “A cloroquina tanto pode ter efeito antiarrítmico quanto provocar o surgimento de arritmias graves”, diz.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Maurício Moraes

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