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Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
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Lupa na Ciência: Estudo sugere que Covid-19 vai se tornar uma doença sazonal

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
21.set.2020 | 12h00 |

O que você precisa saber:

– Após estudar as características do SARS-CoV-2 e de outros vírus respiratórios, pesquisadores indicaram que a Covid-19 pode se tornar uma doença sazonal

– Isso significa que, mesmo com uma vacina eficaz, o novo coronavírus pode continuar circulando em determinadas épocas do ano, principalmente nas regiões temperadas. Isso demandará cuidados constantes com medidas de distanciamento e higiene 

– Se esse for o caso, para evitar novos surtos, serão necessárias campanhas de imunização anuais, como já ocorre com a gripe comum

– Apesar dessa previsão, os cientistas alertam que, até o momento, o vírus não está controlado em nenhuma parte do mundo e segue se espalhando tanto em climas quentes como frios

A Covid-19 pode se tornar uma doença sazonal como a gripe, indica um estudo publicado na semana passada na revista Frontiers in Public Health. De acordo com pesquisadores, quando a doença deixar de se espalhar em ritmo de pandemia – ou seja, quando a população atingir imunidade de rebanho –, o SARS-CoV-2 deve continuar causando surtos em determinadas épocas do ano, principalmente em países com clima temperado. O professor Hassan Zaraket, da Universidade Americana de Beirute, no Líbano, um dos autores do estudo, indica que a população “precisará aprender a conviver com isso e continuar praticando as melhores medidas de prevenção, incluindo uso de máscaras, distanciamento físico e higienização das mãos”.

A previsão dos autores diminui a esperança daqueles que imaginam se ver livres da Covid-19 com a chegada de uma vacina. Muitos acreditam que, ao se atingir a imunidade de rebanho, o vírus para de circular. Só que nem sempre é assim. 

O conceito de imunidade coletiva ou de rebanho quer dizer que, se uma parcela significativa da população desenvolver anticorpos contra uma determinada doença – seja pelo grande número de infectados ou pela vacinação em massa –, a cadeia de transmissão do patógeno é interrompida. Isso pode ocorrer, no entanto, de modo definitivo ou temporário, conforme características do vírus e do organismo humano. A taxa de mutação do patógeno pode ser tão alta a ponto de não ser mais reconhecido pelo sistema de defesa daqueles que foram infectados. Além disso, a duração da imunidade nem sempre é permanente contra determinado patógeno. No caso do novo coronavírus, essas duas questões ainda não estão totalmente esclarecidas pela ciência. 

As pesquisas sobre a imunidade contra o SARS-CoV-2 avançam por caminhos diferentes. Enquanto algumas indicam que o número de anticorpos diminui drasticamente após alguns meses da infecção, outras apontam que as células T, outro componente importante do sistema imunológico, podem permanecer ativas por anos no organismo. Cientistas indicam que a taxa de mutações que o SARS-CoV-2 sofreu é alta, mas não acreditam que, pelo menos até agora, já tenha provocado mudanças significativas no patógeno a ponto de se tornar irreconhecível para quem já se contaminou. Há o risco, no entanto, de que isso venha a acontecer no futuro.

Vacinação pode ser anual

Apesar das dúvidas sobre essas questões, as análises do comportamento do novo coronavírus em diferentes países levaram os pesquisadores responsáveis pelo artigo na Frontiers in Public Health a indicar que ele deve desenvolver um padrão sazonal. Para chegar a essas conclusões, o grupo de cientistas realizou uma revisão de artigos sobre a sazonalidade de outros vírus respiratórios e comparou com as características já descobertas do SARS-CoV-2. Vírus influenza, que causam alguns tipos de gripe, e vários coronavírus responsáveis pelo resfriado comum são conhecidos, por exemplo, por atingir o pico no inverno em regiões temperadas, mas circulam o ano todo em regiões tropicais.

Até hoje, a ciência ainda não sabe exatamente o que faz alguns vírus terem um comportamento sazonal, mas já é consenso que alguns fatores são essenciais para esse padrão. Um deles, de acordo os autores do estudo, é que muitos vírus respiratórios são mais estáveis ​​e permanecem mais tempo no ar em ambientes com temperaturas frias e com baixa umidade. Soma-se a isso o comportamento das pessoas, que tendem a se aglomerar mais em locais fechados durante o frio. Esse conjunto de elementos torna um ambiente mais propício à propagação do vírus.

Um artigo publicado recentemente no periódico Aerosol and Air Quality Research sugere que ambientes fechados com baixa umidade são mais propícios para a propagação do novo coronavírus, já que as partículas virais conseguem permanecer por mais tempo flutuando no ar. Segundo essa pesquisa, há evidências de que, em regiões de clima temperado – mais afastadas dos trópicos –, a transmissão do Sars-CoV-2 foi mais intensa no inverno.

Ainda que não haja um consenso científico, isso pode ser um indício de que as temperaturas mais baixas e o clima seco podem favorecer o contágio. Se esse for o caso e se, com o tempo (por mutações do vírus ou diminuição na imunidade), uma pessoa já infectada voltar a ficar suscetível ao novo coronavírus, uma vacina eficaz será capaz de reduzir ao máximo as taxas de transmissão e mortes, mas só se esse produto estiver disponível para imunização em massa anualmente, como acontece com a gripe comum. Até lá, no entanto, os pesquisadores alertam que o novo coronavírus segue se espalhando em todos os climas de forma intensa e, em nenhuma região, as medidas de proteção devem ser descuidadas.

Taxa de contágio segue alta

Como ainda é pequena a porcentagem de pessoas com imunidade contra o SARS-CoV-2 no mundo, ele ainda tem uma taxa de transmissão muito maior do que os demais vírus respiratórios. O “número básico de reprodução”, chamado R0, mostra o número de pessoas que um indivíduo infectado pode contaminar. Na gripe comum, o R0 é de 1,3 – ou seja, cada pessoa pode passar a doença para até 1,3 pessoa em média. O grau de contágio do novo coronavírus varia entre um R0 de 2,2 e 3,8, de acordo com diferentes estudos. Segundo os pesquisadores libaneses, é por esse motivo que o vírus segue se espalhando em diferentes regiões do planeta, independentemente da condição climática.

Eles acreditam que a taxa de transmissão deverá se estabilizar assim que a pandemia for controlada. “O R0 deve cair substancialmente, tornando o vírus mais suscetível a fatores sazonais”, indicam os autores. Na conclusão da pesquisa, eles ressaltam que o SARS-CoV-2 continua sendo um vírus novo e, apesar da rapidez nas descobertas científicas, ainda existem aspectos desconhecidos. “Se nossas previsões irão se confirmar ou não, isso ainda será visto no futuro. Mas nós achamos que é altamente provável, dado o que nós sabemos até agora, que a Covid-19 eventualmente se tornará sazonal, como [acontece com] outros coronavírus”, afirmam.

Fontes:

Frontiers in Public Health

https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpubh.2020.567184/full

Annals Of Internal Medicine. Artigo disponível em:

https://annals.org/aim/fullarticle/2762808/incubation-period-coronavirus-disease-2019-covid-19-from-publicly-reported

COVID-19 Genomics UK (COG-UK) consortium. Informações disponíveis em:
https://www.cogconsortium.uk/

Aerosol and Air Quality Research. Artigo disponível em:
https://aaqr.org/articles/aaqr-20-06-covid-0302

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Editado por: Marcela Duarte e Maurício Moraes

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